América do Sul

Pelo sangue e pela cultura, Peru e Bolívia fazem um clássico entre irmãos

Entre o Oceano Pacífico e os Andes, há um patrimônio da humanidade de seis mil quilômetros de extensão. O caminho entre paisagens naturais, ruínas e cidades contemporâneas foi construído pelos incas ao longo de séculos, atingindo o ápice da expansão pouco antes da “conquista” espanhola. Estradas que serviam para comércio, comunicação e defesa, atravessando os mais diversos ambientes – do litoral à cordilheira, da floresta tropical ao deserto. Qhapaq Ñan, as veias abertas do Império Inca, cruza seis países da América do Sul e passou a ser protegido pela Unesco há um ano. Marca partes importantes dos territórios de Peru e Bolívia, seguindo até o sul, ruma a Santiago. O destino almejado por ambos os países nesta quinta, através do futebol.

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Por mais que possuam uma extensa fronteira em comum, peruanos e bolivianos não sustentam rixas, nem mesmo dentro de campo. A história compartilhada, desde muito antes da chegada dos espanhóis, tornam as nações irmãs. Uma amizade que atravessou os períodos mais sanguinários da invasão do continente, que chegou a formar um só país e que permaneceu unida na guerra mais marcante da costa do Pacífico do continente. A batalha em que ambos saíram derrotados para o Chile, o arqui-inimigo em comum. Curiosamente, o adversário de quem sobreviver ao duelo pelas quartas de final da Copa América.

Diferentes culturas ocuparam os atuais territórios de Peru e Bolívia ao longo dos últimos quatro milênios, entre as mais notáveis a Tiwanaku, às margens do Lago Titicaca. Já o período mais notável veio com os incas, que uniram (não apenas de maneira pacífica, diga-se) dezenas de nações indígenas no auge de seu Tawantinsuyu, entre os Séculos XV e XVI. E, por mais que os conquistadores tenham encerrado o império, as raízes seguem divididas entre peruanos e bolivianos. Algo visível na cultura e na identidade que permanece até hoje. Ambos os países possuem o quéchua e o aimará como línguas nativas. Juntas, as duas etnias (que compunham o Império Inca) correspondem a uma população estimada de 7,5 milhões de pessoas.

Por isso mesmo, a mensagem de Claudio Pizarro na semana do jogo soa tão forte. Após a classificação conquistada contra a Colômbia, o capitão publicou em seu twitter uma mensagem de apoio ao Peru em quéchua. “Estamos dando tudo para que todos fiquemos felizes. Grande povo peruano”, escreveu o centroavante, na língua nativa.  Mereceu não apenas os elogios em comum de povos indígenas de diferentes regiões do continente, assim como recebeu uma condecoração de autoridades nativas chilenas.

Já durante o período colonial, Peru e Bolívia fizeram parte de vice-reinados espanhóis diferentes. Mas a luta pela independência foi única, e os dois novos territórios chegaram a formar uma só nação em seus primórdios. Entre 1836 e 1839 formou-se a Confederação Peru-Bolívia, sob o comando do general Andrés Santa Cruz, um dos “libertadores da América”. A iniciativa, porém, durou pouco tempo, tanto pelos temores do Chile sobre o expansionismo da nova união quanto pelas próprias disputas políticas internas. O fim da aproximação culminou em uma guerra de sete meses. A única vez em que os vizinhos estiveram em lados opostos em um campo de batalha durante a Idade Contemporânea.

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As relações entre peruanos e bolivianos, porém, foram restabelecidas e permaneceram estreitas. A ponto de, em 1879, o Chile entrar em conflito com os países. A Guerra do Pacífico durou quatro anos, e ainda hoje tem gosto amargo para os derrotados. Ambos perderam territórios para os chilenos (veja o mapa), incluindo a região rica em minerais próxima ao deserto do Atacama, e a Bolívia ainda deixou de contar com sua saída para o Oceano Pacífico. Além disso, alguns povos absorvidos pelo Chile, em especial os indígenas, mantiveram laços culturais mais fortes com os antigos países. A rixa permanece, e se nota também no futebol. Especialmente o jogo entre peruanos e chilenos é considerado um grande clássico, com clima tenso dos dois lados.

Já Peru e Bolívia, ao longo da história, se enfrentaram dentro de campo 47 vezes, com vantagem de 22 vitórias a 13 para La Verde. Mas nenhuma delas teve um peso tão grande, em fase eliminatória de Copa América. E também nunca proporcionou uma oportunidade como esta, de vencer o Chile em casa, negando aos inimigos o sonho de conquistar o título inédito com aquela que é considerada a maior geração de sua história. Por isso mesmo, ainda que estejam distantes do nível técnico dos anfitriões, peruanos e bolivianos se entregarão ao máximo pela vaga nas semifinais. O irmão que vencer a batalha de Temuco terá a chance de disputar a verdadeira guerra em Santiago. O destino de Qhapaq Ñan.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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