América do Sul

Os 70 anos de Figueroa, o caudilho que para sempre vai imperar nas grandes áreas sul-americanas

Don Elías. O título de nobreza ressalta o homem. O zagueiro que, bastava estar em campo, se tornava um imperador da grande área. E não apenas pela qualidade imensa de seu jogo, o maior de todos entre os chilenos, para tantos um dos melhores defensores da história. O capitão também era uma espécie de caudilho dos tempos modernos, que usava os gramados como trincheira para conquistar novas fronteiras. Fez palestinos arrebatarem o Chile, ampliou o domínio carbonero no Uruguai. Pintou o Brasil pela primeira vez de colorado, naquela que foi uma libertação não só para a sua torcida, mas uma expansão de território para o futebol gaúcho em geral. E se os europeus não conhecem Figueroa direito, azar o deles. Dentro das áreas da América do Sul, nenhum foi mais soberano. Hoje, sua figura altiva vagueia o imaginário nos campos do continente. Lenda de 70 anos completados nesta terça.

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E pensar que aquele general, por muito pouco, quase não sobreviveu na infância. “Irmão, quem não sonha não alcança. Está vendo esta mancha no meu pescoço? É de uma traqueotomia feita quando eu tinha cinco anos. Sofria de difteria e o médico garantiu que eu não seria um menino normal. Vivia em encasacado, sonhando em ser um jogador de futebol e ao mesmo tempo chorando por não poder correr atrás da bola. Um dia meus pais resolveram se mudar de Santiago para Quilpué, com a esperança de que o ar da montanha me curasse. E curou”, contou, em entrevista à Placar em 1973. Pois não só curou. Figueroa se tornou também parte dos Andes. Sólido como uma rocha, gigantesco. E os outros problemas de saúde quando menino também moldaram seu corpo às batalhas.

A difteria afetou o seu coração. Também sofreu com asma, pegando em cheio seus pulmões. E, no início da adolescência, Don Elías precisou reaprender a andar. Teve um princípio de poliomielite, que o deixou de cama, depois de muletas. Ergueu-se. Coração, pulmões, pernas. Fundamentais para se entender a imponência do defensor. Que nem precisou de muito tempo para começar a despontar.

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Atuando nas categorias de base do Santiago Wanderers, Figueroa se encontrou com os melhores dos professores quando tinha 15 anos de idade. Uma dádiva. A seleção brasileira utilizou os novatos do Decano para um jogo-treino durante a preparação à Copa do Mundo de 1962. E lá foi Don Elías, jogando no meio-campo, marcar Didi. Nem o melhor jogador do Mundial de 1958 conseguiu se criar para cima do garoto. Impressionou. Uma prova não apenas de que sua saúde estava intacta, mas que também estava pronto a desafios maiores no futebol.

Aos 16 anos, casou-se. E, na maturidade precoce, também tornou-se zagueiro. Improviso puro durante um treinamento nos Wanderers, que virou um enorme acerto. Não que Figueroa gostasse tanto. “Nunca gostei de jogar assim. Eu era meio-campista. A verdade é que até hoje não entendo como terminei jogando ali. Eu era um pouco como Vidal. Gostava de ir ao ataque, fazia gols”, declarou em 2014, à chilena Revista Capital. E, repassado à Unión La Calera, fez sua estreia profissional quando tinha 17 anos. Logo em seus primeiros jogos, ganhou o apelido de Don Elías, batismo feito locutor Hernán Solís.

A alcunha veio tanto por sua técnica quanto por sua personalidade. La Calera enfrentava o gigante Colo-Colo, quando Figueroa resolveu abusar. “Estava na área e, quando ia tirar a bola, veio me marcar o argentino Walter Jiménez. Para não perder a bola, eu dei uma caneta nele. Depois veio para cima um brasileiro, Roberto Frojuelo, e o mesmo: dei uma caneta e saí jogando. Fui irresponsável, mas são coisas do momento”, relembrou, na mesma entrevista. A audácia de Don Elías logo o levou de volta ao Santiago Wanderers. E, em 1966, já disputava a sua primeira Copa do Mundo, aos 19 anos. Por causa da idade, precisou de uma permissão especial para viajar à Inglaterra. O Chile caiu na primeira fase, superado por União Soviética e Coreia do Norte. Mas o garoto teve o orgulho de dizer que parou um dos melhores atacantes do mundo na época, o italiano Sandro Mazzola.

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Naquele momento, o Santiago Wanderers já não comportava a grandeza do jovem craque. Semanas depois do Mundial, desembarcou em Montevidéu. Iria defender o Peñarol, o então campeão continental, um dos times mais respeitados do mundo. E mesmo em uma equipe tão forte, Figueroa não demorou a se firmar como titular. Estar entre os charruas foi fundamental para moldar o zagueiro. Fortaleceu a sua personalidade, fortaleceu sua liderança, fortaleceu sua capacidade de não esmorecer nas divididas. Além, é claro, da gana por conquistar taças. No Uruguai, Don Elías faturou duas vezes o título nacional, em 1967 e 1968. Em 1969, ganhou também a Supercopa de Campeones Intercontinentales, contra Racing, Estudiantes e Santos. Pelé, na ocasião, marcou o seu gol de número 1001, mas se deu mal diante do chileno. Já a grande lacuna na passagem do defensor pelos carboneros foi mesmo a Copa Libertadores. O Peñarol caiu na decisão em 1970, batido pelo Estudiantes.

A partir de 1971, a mitologia de Figueroa começaria a ser escrita no Beira-Rio. O Peñarol já não conseguia mais segurar o zagueiro, 25 anos recém-completados. As propostas chegavam de diversos cantos, inclusive da Europa. Entretanto, pesou seu desejo de vir ao futebol brasileiro. “Tive muitas ofertas. Tive uma do Real Madrid, outras da Argentina. Sem dúvidas, a do Internacional foi a que mais me chamou a atenção. Felizmente, decidi ir ao Brasil, onde fui muito feliz. Ainda me sinto gaúcho de coração. Sou chileno e gaúcho. Vivi muitas emoções no colorado, com títulos”, afirmou ao Goal.com, em 2015. No Internacional, você pode chamar Don Elías do que quiser: ídolo, craque, lenda. Qualquer palavra provavelmente não irá se equiparar ao que atingiu.

Figueroa se estabeleceu como o caudilho do Beira-Rio por quase seis anos. O capitão que enchia a boca para dizer: “A grande área é a minha casa, aqui só entra quem eu quero”. O zagueiro que atuava de cabeça erguida, tratando a bola com extrema sutileza, capaz de deixar os marcadores na saudade e sair galopando rumo ao ataque. Mas que, nem por isso, perdia sua firmeza. E, por tudo aquilo que fazia em campo, Don Elías se transformou em ícone popular em Porto Alegre. Recebia em 1973, em média, seis cartas por dia de seus fãs. Gravou até mesmo um disco. Mas não pense que o defensor refinado caiu na besteira de cantar. Até nisso ele se diferenciava: declamava os poemas de seu conterrâneo mais famoso, Pablo Neruda. Talvez o único que competisse em popularidade com Figueroa.

Em Porto Alegre, de qualquer maneira, Figueiroa era unanimidade. Ao menos na metade vermelha. O zagueiro conquistou simplesmente todas as edições do Campeonato Gaúcho que disputou: pentacampeão, entre 1972 e 1976. Em 17 clássicos, perdeu apenas um GreNal. Motivo mais que suficiente para reinar entre os colorados? Pois veio mais a partir de 1975, o ano iluminado de Don Elías. O zagueiro era o esteio do esquadrão de Rubens Minelli, seja pela personalidade ou pela técnica. O primeiro título brasileiro do Inter aconteceu graças a atuações fabulosas do capitão, incluindo a decisão contra o Cruzeiro. Sua cabeçada certeira ainda representa um raio de luz que brilha no Beira-Rio, mesmo durante as mais pesadas tempestades. Já em 1976, repetiu a façanha, para ninguém mais ter dúvidas da soberania naqueles anos dourados.

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Naquele momento, as prateleiras da casa de Figueroa já estavam cheias de premiações individuais. Em 1976 ele faturou a Bola de Ouro da Placar, como melhor jogador do Brasileirão. Mas, antes disso, já recebera outras três vezes a Bola de Prata como um dos melhores zagueiros. Também foi apontado por três anos consecutivos, entre 1974 e 1976, como o melhor jogador das Américas na tradicional eleição do jornal El Mundo. E o maior reconhecimento veio durante a Copa do Mundo de 1974, quando acabou apontado como um dos melhores defensores do torneio, apesar da eliminação do Chile na primeira fase. Impressionou tanto que, após o confronto com a Alemanha Ocidental, Beckenbauer chegou a declarar: “Eu sou o Figueroa da Europa”. Prova máxima de respeito a Don Elías.

Em 1977, aos 31 anos, Figueroa decidiu retornar ao Chile. Despediu-se do Internacional como um dos maiores ídolos da história. E, coincidência ou não, naquele ano não só os colorados não conseguiram buscar o tricampeonato brasileiro, como viram o Grêmio reconquistar o Gauchão. A senda de vitórias do zagueiro, de qualquer forma, se mantinha. De maneira surpreendente, até. Com as portas abertas em qualquer time do mundo, o defensor optou pelo modesto Palestino, em jejum de títulos que durava quase duas décadas, mas encerrado logo nos primeiros meses da contratação do craque. Pura sorte dos pequeninos: o presidente do clube veio a negócios ao Brasil e aproveitou para cumprimentar o defensor. Figueroa manifestou o desejo de voltar para sua terra. Nem mesmo um cheque em branco oferecido pelos dirigentes colorados o demoveu da ideia. O craque ainda perdoou algumas dívidas que o clube tinha com ele para voltar.

A primeira taça em casa veio mesmo em 1977, em decisão cardíaca da Copa do Chile. Após empate por 3 a 3 no tempo normal, o Palestino bateu a Unión Española com um gol no segundo tempo da prorrogação. Dele, Don Elías. Na sequência do ano, o capitão também botaria o Palestino na Libertadores, vencendo a liguilla realizada no final do ano. Além disso, entre julho de 1977 e setembro de 1978, os Árabes não perderam um jogo sequer nas competições nacionais. A invencibilidade de 44 partidas também rendeu a taça do Campeonato Chileno em 1978, com novo gol do craque na decisão, desta vez contra o Colo-Colo. Entretanto, a Libertadores permaneceu como um espaço em branco em seu vitorioso currículo, diante da queda para o campeão Olimpia no triangular semifinal.

Figueroa ainda teria uma rápida passagem pela NASL no início dos anos 1980, defendendo o Fort Lauderdale Strikers. O último grande feito da carreira, entretanto, foi colocar a seleção chilena em mais uma Copa do Mundo. Voltou ao futebol de seu país, vestindo a camisa do Colo-Colo e esteve presente em seu terceiro Mundial, sem passar outra vez da primeira fase em 1982. Já estava perto da hora de dizer adeus. Em 1983, Don Elías anunciou a aposentadoria e sua partida de despedida contou com a presença de diversos craques internacionais. O mínimo reconhecimento àquele que sempre se colocou entre os maiores. Afinal, o gigantismo da carreira de Figueroa se evidencia a cada instante que seu próprio talento tratou de engrandecer. Uma trajetória incapaz de reconhecer limites.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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