América do SulBrasilLibertadores

O Corinthians subestimou seus próprios problemas, e não se faz isso na Libertadores

A mitologia e a história adoram realçar a figura do gigante poderoso, amedrontador, aparentemente invencível e secretamente vulnerável. A Bíblia menciona Golias, campeão dos filisteus derrubado por uma pedra de funda. A Ilíada conta as façanhas de Aquiles, herói dos gregos que era invulnerável, exceto pelo seu calcanhar. A história registra a Invencível Armada espanhola, que deveria destruir a frota inglesa, mas soçobrou em uma tempestade. Os mais chegados a uma ficção científica podem ter pensado na Estrela da Morte, arma do Império que se destruiu com apenas um disparo rebelde no ponto certo em Guerra nas Estrelas. É o Corinthians na Libertadores 2015.

LEIA TAMBÉM: O excesso de confiança derrubou o Corinthians, que agora precisará suar contra o Guaraní

Seria muito fácil (e oportunista) aproveitar a eliminação alvinegra com duas derrotas para o Guaraní do Paraguai e derrubar o time, falar que o futebol tão elogiado no começo do ano não existia de fato e que agora se viu a verdadeira força dessa equipe. Não é bem assim. Ao mesmo tempo que houve exageros na exaltação ao time, ignorar as boas apresentações dos primeiros meses do ano não reflete a realidade. No fundo, o Corinthians apenas era mais um gigante que se impunha pelo seu poderio evidente, mas tinha muitos pontos de fragilidade.

A força da equipe de Tite era a solidez coletiva, com alguns jogadores decisivos (sobretudo Guerrero) e um jogo moderno, de muita movimentação e ultrapassagem, para os padrões brasileiros. Isso funcionou por um tempo, e levou o time a algumas boas atuações. Mas o tempo foi criando novos cenários, e aí os problemas foram se expondo até resultar na eliminação precoce na Libertadores.

Dentro de campo, o Corinthians abusou de sua capacidade de absorver desfalques. A dengue de Guerrero e a fratura de Fábio Santos estavam além do controle do clube, mas é de se esperar que jogadores se lesionem ao longo da temporada. O problema é que o elenco ficou ainda mais sacrificado por excesso de expulsões em momentos importantes, casos de Guerrero, Fábio Santos, Emerson Sheik e Mendoza (todos na Libertadores, e isso sem contar o jogo de volta contra o Guaraní).

Isso minou a força do clube, que perdeu o ritmo tão necessário para uma equipe que vive do jogo coletivo. Danilo, que foi um bom substituto de Guerrero no início da Libertadores, não teve condições físicas de manter o mesmo nível por tanto tempo. Luciano, Mendoza e Malcom não tinham a experiência que Sheik dava ao time.

Outro ponto frágil que se descobriu com o tempo era o mental. O Corinthians começou o ano no embalo e encorpou com tamanha confiança. Quando houve uma queda natural nos resultados (soma de desgaste do elenco e adversários que passaram a entender como anular o Alvinegro), a confiança caiu e o bom futebol foi junto com ela.

BRASILEIRÃO: Guia Corneteiro do Brasileirão 2015

Os norte-americanos criaram a expressão “in the zone”. Ela é usada para jogadores ou times que estão em um tipo de transe em que o corpo e mente funcionam em sintonia total e tudo sai com naturalidade. Houve momentos em que o Corinthians de 2015 parecia estar nesse estado, como nos 4 a 0 sobre Once Caldas e Danubio e nos 2 a 0 sobre o São Paulo. Quando os resultados ruins começaram a aparecer e o time teve motivos para se questionar, isso ficou para trás. Nas últimas partidas, o jogo não tinha a mesma fluidez. Tudo parecia menos natural, mais lento e, consequentemente, mais anulável.

Houve a ideia de que uma parada seria benéfica à equipe, algo que as duas semanas após a fase de grupo da Libertadores proporcionaram. Mas a confiança não retornou de verdade. O que se viu no jogo contra o Guaraní em Assunção (a partida que realmente eliminou o Corinthians) foi um time artificialmente confiante. Era muito mais arrogância do que confiança. Foi fatal, pois acreditar excessivamente em si próprio e de que o grande futebol voltaria facilmente fez o time entrar em campo sem a intensidade necessária e sem aproveitar a pausa para realizar ajustes técnicos e táticos (como melhorar a saída de bola). A atuação assoberbada ajudou a fortalecer o time paraguaio.

Nesse caldeirão de problemas que a boa fase escondia está o atraso de salários. É leviano afirmar que os jogadores ativamente fizeram corpo mole em alguma partida para pressionar a diretoria, mas é evidente que estar meses sem receber os vencimentos completos tira a concentração do elenco. Até porque, a cada tropeço, há mais margem para um jogador começar a questionar o outro. Tanto que o clube se apressou a pagar parte dos atrasados antes do jogo de volta contra o Guaraní.

Tudo isso culminou com a derrota em casa para o aurinegro paraguaio. O Corinthians fez um primeiro tempo decente, com o nível de pressão que deveria. Faltou mais precisão nas finalizações, mas não era um desempenho descartável. Após o intervalo, toda a fragilidade se manifestou, como Golias ao tomar a pancada na cabeça, Aquiles ao levar a flechada no calcanhar ou a Estrela da Morte ao ser atingida por Luke Skywalker.

O lado psicológico falhou nas expulsões de Fabio Santos e Jádson. O tático falhou na dificuldade do time de buscar uma alternativa ofensiva quando ficou claro que não havia espaço para entrar tocando a bola. O técnico falhou quando Guerrero acusou a falta de ritmo de jogo e Sheik para chamar o jogo, cavar falta e enervar o adversário.

A eliminação não nega o fato de que o Corinthians foi muito forte no início do ano. Só mostra que essa força dependia de um equilíbrio frágil, e essa fragilidade cobrou seu preço antes da hora programada.

Mostrar mais

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo