América do Sul

O clube da periferia de Montevidéu que faz rifas para ter dinheiro, mas estreará na elite do Uruguai

Villa Teresa é um bairro humilde da periferia de Montevidéu. Antes afastado da capital, acabou engolido pela urbanização crescente. Mas não abandonou as características que o marcam desde o Século XIX. Abriga curtumes e indústrias, além de muitos proletários que trabalham na região. E, a partir de 2015, também um clube da primeira divisão do Campeonato Uruguaio. O Club Atlético Villa Teresa sequer possui estádio e está sediado em uma casinha simples no coração do bairro, deixada de herança por um torcedor que não tinha filhos. Suas contas no Twitter e no Facebook, somadas, mal passam de mil seguidores e também não há site oficial. Mesmo assim, terá a chance de disputar a elite do futebol nacional pela primeira vez. Um sonho que será alcançado a custo de muito suor dos seus apaixonados.

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O Villa Teresa teve sua fundação em junho de 1941, quando o bairro ainda era uma localidade distante da massa urbana Montevidéu. Disputou sempre os campeonatos de várzea, filiando-se à federação em 1965. Isso não significava, porém, que os alvirrubros deixariam o caráter semiamador. Continuaram assim mesmo em 1984, quando chegaram pela primeira vez à segunda divisão. Já em 1992, jogaram o acesso inédito à elite, em episódio que terminou em tragédia e greve. Uma briga entre barras levou um torcedor à morte, pisoteado por um cavalo da polícia. Como punição, a federação suspendeu o Villa Teresa e o Basánez, seu adversário, por oito rodadas. Só que os dois pequenos não tinham como pagar salários sem as rendas. E contaram com a solidariedade do sindicato de jogadores, que paralisou o futebol no país por algumas semanas, provocando até a desistência do Nacional na Supercopa da Libertadores.

O grande momento do Villa Teresa se construiu nos últimos cinco anos. Transitando entre os níveis amadores, se firmou nas divisões profissionais a partir de 2011. Quase conquistou o acesso na segundona em 2014, perdendo nos playoffs decisivos para o tradicional Rampla Juniors. Contudo, não houve nada que barrasse o milagre em 2015. Empatou com o Boston River no jogo decisivo dos playoffs, garantindo o feito nos pênaltis. Um passo gigantesco para o nanico, mesmo no Uruguai, onde boa parte dos clubes têm estruturas modestas.

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A realidade do Villa Teresa é tão humilde que, dias após o acesso, a diretoria organizou um almoço para levantar fundos. Menos de 100 pessoas participaram. A folha salarial saltou de US$ 20 mil para U$ 75 mil mensais, que não poderão ser cobertos com os recursos disponíveis, nem os direitos de TV e a ajuda da federação. Alguns moradores do bairro prometem ir ao clube tomar cerveja apenas para dar sua contribuição. Já uma professora da vizinhança faz rifas de camisetas para angariar dinheiro. Mesmo o presidente dos alvirrubros, Martín Sierra, se vira como pode, conciliando o cargo imponente com o emprego em empresa de leilões.

Até os jogadores dividem a rotina entre outros trabalhos e os treinos. Estão às ordens de Vito Beato, técnico do Villa Teresa há oito anos, e que jogou no time do acesso à segundona em 1984. Também dono de uma casa de ferragens, ele já se acostumou com a falta de materiais, inclusive de bolas. Não pode exigir nem a concentração de seu elenco, já que o clube não conta com acomodações para tanto – embora empreste a sua sede para eventos da escola do bairro, para aulas de educação física e para bailes de carnaval. A pré-temporada de 10 dias visando a primeira divisão acabou bancada também por doações.

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Estar na primeira divisão é, por si, uma façanha e tanto para o Villa Teresa. A intenção é manter a honradez, ainda que faltem recursos para isso. Mas, excepcionalmente, se especulou a chegada de grandes reforços para ajudar na missão. A imprensa uruguaia veiculou que os veteranos Álvaro Recoba e Antonio Pacheco, ídolos que se desligaram recentemente de Nacional e Peñarol, estariam negociando com os alvirrubros. Por enquanto, não há nada de concreto, embora os nanicos busquem patrocínios para a empreitada e prometam dar como salário “um dólar por ingresso vendido”.

A única certeza do Villa Teresa está em sua torcida. A mesma que se reunia principalmente na caçamba de um caminhão para assistir aos jogos na segundona. E que trata o clube como um orgulho de suas raízes. Sentimento recíproco e expresso na varzeana inscrição ‘Los borrachos del camión’ (Os bêbados do caminhão) pintada na paredes da própria sede. “Não podemos dar muito ao sócio e ao bairro, porque não temos muito. Mas possuímos outros valores: este é um clube muito humilde e muito solidário”, definiu Gabriel Díaz, dirigente do clube, em entrevista ao jornal uruguaio El País. Solidariedade expressa realmente em apoio a vizinhos que passam por dificuldades financeiras ou problemas de saúde, como Sebastián Gagliano, que teve parte do caro tratamento para sua hepatite C bancado por eventos dos alvirrubros.

Todavia, mesmo cuidando do próximo, o Villa Teresa não deixa de mirar objetivos maiores. Embora tenha que emprestar o campo do licenciado Bella Vista para mandar os seus jogos, o novo sonho dos dirigentes já é a Copa Sul-Americana. Nem que, para isso, precisem organizar mais rifas, almoços e brechós na acanhada sede – como fizeram durante boa parte dos 74 anos de história do clube. O primeiro passo já tem data marcada, no sábado, durante a visita ao Nacional no mítico Parque Central. A estreia no Campeonato Uruguaio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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