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Lugano, Nelson Rodrigues e os idiotas da objetividade

Por Fernando Figueiredo Mello

“Como faz falta ao Brasil um pensador do porte de Nelson Rodrigues, com todas as suas contradições, mas com toda sua imensa lucidez”, escreveu meu irmão, Rodrigo, em lembrança aos 35 anos de morte dele (leia aqui).

Pois que falta faz ao Brasil um cronista esportivo do porte de Nelson Rodrigues!

Nos últimos dias, me peguei revisitando suas imortais crônicas sobre futebol. Tudo por causa de um personagem: Diego Lugano.

E como seria uma crônica de Nelson* sobre o uruguaio que agora retorna ao São Paulo?

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Amigos, meu personagem da semana é Lugano.

O beque uruguaio, homem que encarna virtudes de um Obdulio Varela redivivo, retorna à casa, o São Paulo Futebol Clube. No Morumbi, viveu o auge.

Aportou sob descrédito geral e irrestrito da crônica local, de quem ganhou a alcunha de ‘zagueiro do presidente’. Calou-os com a raça cisplatina peculiar, o destemor de gladiador romano, a fome de retirante. Foi além: ganhou corações de gerais e arquibancadas do Cícero Pompeu de Toledo.

E o que fazem agora os entendidos da crônica local? Novamente, descarregam sobre o uruguaio a baba grossa, elástica e bovina da desonra. Dizem ter parcos recursos técnicos, ser lento como um bonde, estar em idade avançada, possuir currículo menor nos últimos tempos. Não vai ter êxito, sentenciam.

Não há dúvida, amigos: estamos diante de idiotas da objetividade. Cospem números, estatísticas, fórmulas, teorias. Escapa-lhes o fundamental: o homem. Porque Lugano, meus caros, é, acima de tudo, um indivíduo raro. Uma persona de tempos medievais, na qual se fundem a nobreza de um conde, a lealdade de um cavaleiro e a devoção de um monge.

“Tem a ver com o que sou como ser humano e como líder. Quando alguém mexe com um irmão, com um companheiro, está mexendo comigo”, disse, certa vez, expondo tese sobre a sua defesa de Luis Suárez, ponta-de-lança implacável da Celeste, na ocasião da dentada no beque italiano, no Mundial do Brasil.

É esse, amigos, o homem que retorna aos braços da massa vermelha, branca e preta que o acolheu tão ternamente, para lembrar palavras do hino do clube. Um laço tão inabalável quanto a obstinação do beque em proteger seus pares das injustiças ou a sua meta dos inimigos.

“Entendo que não posso dar as costas à história, ao carinho que tenho pelo São Paulo e à torcida”, ratifica Lugano, ao confirmar o regresso ao Clube da Fé.

União inquebrantável de homem e sua torcida. Eis outro aspecto que escapa aos olhos míopes dos idiotas da objetividade. Há quanto tempo a carente nação são-paulina se ressente de um símbolo além de Rogério Ceni? Quantos não passaram pelo clube e não honraram o manto? Quantos ainda persistem a não honrar?

O momento é ainda mais crítico, pois o signo maior da História do clube aposentou luvas e chuteiras. Na psique do torcedor, Lugano será o novo/velho herói, a acalmar ânimos dos revoltos mares tricolores e a resgatar as glórias que vêm do passado – para, mais uma vez, citar o cântico do Tricolor paulista.

Logo: não me venham com essa de possível fracasso técnico! No cenário atual, à Lugano basta ser e estar. To be and to be. Não há retórica shakespeariana. Não há terreno para revés. Pois, tal qual Bellini, outro que envergou o manto do clube, o uruguaio é homem que vive os 90 minutos de cada peleja, segundo a segundo. Como uma bastilha inexpugnável.

E isso, amigos, é tudo o que deseja ver a torcida no homem em campo: sangue, suor, lágrimas. Em toda e qualquer peleja.

Pois, então, escrevam: a volta de Lugano ao São Paulo já é sucesso líquido e certo. A fantasia permeará o capítulo final da sobrenatural relação do uruguaio com a massa do Clube da Fé.

Ao fim e ao cabo, resta o homem, como o próprio herdeiro de Obdulio garantiu: “Porque o futebolista passa rápido e fácil. Mas o homem e o caráter ficam pra sempre.”

* Inspirada nas crônicas de “À Sombra das Chuteiras Imortais”.

Fernando Figueiredo Mello é jornalista e escreve todos os dias no blog efemérides do éfemello. Pede perdão ao velho Nelson pela heresia cometida em uma noite de insônia. É a emoção pela volta de Diós.

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