Libertadores

O Flamengo x San Lorenzo que confrontou dois artilheiros lendários: Leônidas e Lángara

Para qualquer torcedor acima dos 25 anos, o duelo entre Flamengo e San Lorenzo carrega certo peso na memória. Afinal, as duas equipes chegaram a disputar um título continental no início deste século. E a final guardou algumas lembranças ruins aos rubro-negros, derrotados nos pênaltis na tumultuada Copa Mercosul de 2001 – que, de fato, só terminaria em 2002, diante do caos político na Argentina. Muito antes dos quatro confrontos por aquela competição (dois deles pela fase de grupos), entretanto, rubro-negros e azulgranas se cruzaram com certa frequência. Contando já a desta quarta, pela Copa Libertadores, são 11 partidas entre os dois clubes. Três delas ocorridas logo no início dos anos 1940, exibindo grandes craques e que servem para resgatar ótimas histórias.

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O Flamengo atravessava um excelente momento desde o final da década de 1930. Havia inaugurado o Estádio da Gávea, vivia o ápice de sua popularização e contava com diversos craques em campo. Não à toa, faturou o Campeonato Carioca de 1939 de maneira emblemática, marcando o ápice do esquadrão que montara. Sob as ordens de Flávio Costa, o clube encerrou o jejum que durava 12 anos, interrompendo o tricampeonato do Fluminense. De qualquer maneira, o San Lorenzo não era um adversário qualquer. O Ciclón vivia anos competitivos, sempre aparecendo entre os primeiros colocados do Campeonato Argentino. Além disso, havia se reforçado meses antes com Isidro Lángara e Ángel Zubieta, craques que migraram a Buenos Aires. Os dois bascos haviam saído em excursão com a seleção Euskadi, a fim de arrecadar fundos à causa republicana durante a Guerra Civil Espanhola. Já no banco de reservas, o mítico Guillermo Stábile, iniciando a carreira de treinador.

Durante os últimos dias de 1939, o Flamengo já tinha enfrentado um teste de fogo contra argentinos. Então campeão nacional, estrelado por Arsenio Erico, o Independiente visitou o Rio de Janeiro. E, nos dois encontros, uma vitória para cada lado. Os rubro-negros perderam o jogo na véspera de Natal por 4 a 3, mas deram o troco na véspera de Ano Novo. Leônidas da Silva e Alfredo González marcaram os gols no triunfo por 2 a 1, em tempos nos quais firmavam uma infernal parceria no ataque. O argentino, aliás, fazia sua despedida do clube, antes de retornar ao Boca Juniors. O time de Flávio Costa ainda contara com outros nomes célebres do clube, incluindo Domingos da Guia, Nílton, Volante, Médio, Sá e um jovem Zizinho, estreando como profissional aos 18 anos.

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No mesmo período, em janeiro de 1940, o San Lorenzo também fazia sua turnê pelo Rio de Janeiro. Venceu Botafogo e Vasco em suas primeiras partidas, antes do esperado confronto com o Flamengo. Afinal, a partida tinha diversos atrativos, especialmente pelo embate entre Lángara e Leônidas, dois dos melhores atacantes do mundo. O Diamante Negro dispensava apresentações, após ser artilheiro da Copa de 1938. Atravessava um momento excepcional na Gávea, iniciando seu ano mais goleador com a camisa rubro-negra. O espanhol, por sua vez, vinha de três artilharias de La Liga, quando ainda defendia o Real Oviedo, e uma do Campeonato Argentino. Os dois matadores já tinham se encontrado quase seis anos antes, no Mundial de 1934. Lángara anotou dois gols para a Espanha e Leônidas descontou para o Brasil, em partida que selou a classificação da Fúria com a vitória por 3 a 1.

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Pelo San Lorenzo, as atenções ainda se concentravam no atacante Waldemar de Brito, outro que esteve em campo naquela ocasião pela seleção brasileira. O atacante tinha atuado pelo Flamengo até o ano anterior, mas voltara pouco antes a Boedo, em sua segunda passagem pelos cuervos. Formava grande parceria com Lángara, em quinteto ofensivo que ainda tinha à disposição Núñez, Ballesteros e Fattone. Já do lado flamenguista, a ausência de Domingos da Guia era sentida. De qualquer maneira, outros destaques seriam escalados, como Yustrich, Nílton, Médio, Sá e Jarbas. Já na linha de frente, Zizinho ganhava mais um voto de confiança, diante da ausência do ídolo Agustín Valido.

Quando a bola rolou, em 8 de janeiro, o jogo se sobressaiu pela vontade de ambas as equipes, sem que isso descambasse para a violência. Yustrich ia fechando a meta rubro-negra, enquanto o goleiro Gualco também fazia grande trabalho do lado azulgrana. Contudo, no confronto entre Leônidas e Lángara, o espanhol se deu melhor. Não que o Diamante Negro tenha ido mal, mas passou em branco, ao contrário de seu adversário. O basco anotou o único gol em São Januário, aos 39 do primeiro tempo, aproveitando jogada de Waldemar.

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Haveria tempo para uma revanche. Os dois times se cruzariam rapidamente no campo de São Januário seis dias depois, em empate por 0 a 0 pelo Torneio Relâmpago. Já em 18 de janeiro, novo embate de 90 minutos. O Flamengo vinha com duas novidades notáveis: emprestara dois jovens que explodiam com a camisa do Madureira, Lelé e Jajá – este, o célebre Jair da Rosa Pinto, então com 18 anos. Ambos chegariam a passar pela Gávea, mas só no final da década de 1940, após brilharem no Vasco. Naquele amistoso, porém, pouco ajudaram. O San Lorenzo venceu mais uma vez, por 4 a 2. Lángara e Leônidas monopolizaram os holofotes, com dois gols cada, enquanto Núñez e Bottini completariam o triunfo do Ciclón.

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Em fevereiro de 1941, o Flamengo retribuiu a visita. Junto com o Fluminense, os rubro-negros fizeram uma excursão pela Argentina. Começaram perdendo por 7 a 0 para um combinado de Rosário, antes de protagonizarem um épico diante do Independiente: 6 a 5 para os Rojos, com quatro tentos de Arsenio Erico e três do centroavante Caxambu. Já em 13 de fevereiro, o reencontro com o San Lorenzo. Ambos os times haviam sofrido mudanças. Poucos jogadores permaneciam no elenco cuervo, entre eles Lángara e Zubieta. Já o Fla via a ascensão de Zizinho, prestigiado entre os titulares, enquanto vivia o adeus de Leônidas. Em campo diante dos rosarinos,o craque sofreu uma lesão e iniciou seu litígio com os dirigentes do clube. Pouco depois, acabaria preso por não cumprir o serviço militar, marcando o fim de sua história vestindo vermelho e preto.

A ausência do gênio, todavia, não impediu a vitória do Flamengo. Desempenhando um futebol ofensivo, a equipe de Flávio Costa conseguiu se impor contra os donos da casa. Os gols, contudo, saíram apenas depois dos 37 do segundo tempo. Sá abriu o placar para os cariocas e, no minuto seguinte, Zizinho balançou as redes. Triunfo imponente, mas que acabaria sendo o único daquela turnê. Depois, o Fla perderia para o Huracán. Ainda houve um duelo com o combinado Fla-Flu, contra jogadores de San Lorenzo, Huracán e Independiente. Novo triunfo argentino. E em Torneio Relâmpago, disputado em 21 de fevereiro, o Ciclón bateria os flamenguistas por 1 a 0 no breve reencontro.

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Depois da série de confrontos na década de 1940, Flamengo e San Lorenzo só voltaram a se cruzar em fevereiro de 1953. Na ocasião, os rubro-negros viajaram à capital argentina para disputar o Torneio Quadrangular de Buenos Aires. A equipe treinada pelo ex-médio Jaime de Almeida (o pai) estreou diante do Ciclón. Desgastados após uma excursão à Bahia pouco antes, os flamenguistas empataram por 2 a 2. Florio abriu o placar aos cuervos, Adãozinho e Rubens viraram para os cariocas e Florio, novamente, fechou a contagem. Na sequência do torneio, o Fla empatou com o Boca Juniors e bateu o Botafogo, terminando com a taça. Uma conquista importante no contexto, aumentando a confiança do time para a sequência do ano, no qual iniciaria a jornada do segundo tricampeonato carioca.

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Já em agosto de 1969, o San Lorenzo retornou ao Rio de Janeiro para uma excursão. E o amistoso com o Flamengo previa dois reencontros. No comando dos cariocas estava Tim, que levara os cuervos à conquista do Campeonato Metropolitano no ano anterior. Além disso, o treinador havia incentivado a contratação de Narciso Doval, seu comandado no Gasómetro e que escreveria também trajetória singular na Gávea. Entretanto, o atacante não entrou em campo no Maracanã, em jogo que serviu de preliminar para a semifinal da Taça Brasil, entre Botafogo e Cruzeiro. Apesar do desfalque, o Fla venceu por 1 a 0, gol do meio-campista Liminha. Além disso, o goleiro Rogelio Domínguez também mereceu destaque. O argentino, ex-arqueiro do Real Madrid e do Racing, fechou a meta rubro-negra, especialmente diante das investidas de Rodolfo Fischer e Roberto Telch, lendas em Boedo.

Por fim, as quatro partidas pela Copa Mercosul de 2001. Durante a fase de grupos, o Flamengo venceu os dois jogos por 2 a 1, mas ambos os times confirmaram a classificação. E se encontraram na decisão. Em duelo movimentado no Maracanã, apesar das muitas chances de gol, o primeiro embate da final permaneceu empatado em 0 a 0. Já o reencontro no Nuevo Gasómetro precisou ser adiado por mais de um mês, diante da crise na Argentina. Em 24 de janeiro, o confronto finalmente aconteceu. E o Ciclón se deu melhor. Com a bola rolando, empate por 1 a 1, com gols de Leandro Machado e Raúl Estévez. Já nas penalidades, após a taça ficar nas mãos dos cariocas, os portenhos buscaram a virada nas alternadas. Consagravam a geração de Leandro Romagnoli, Sebastián Saja e Beto Acosta com o primeiro título internacional dos cuervos. No banco de reservas, o técnico era Manuel Pellegrini. Tempos dourados, que se refletem nesta fase de grupos da Libertadores.

Vale conferir também este especial dos amigos do Futebol Portenho, listando todos os personagens em comum na história de Flamengo e San Lorenzo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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