América do Sul

Há 20 anos, o lance do comercial de refrescos acontecia em Wembley: o escorpião de Higuita

O templo estava vazio. Wembley, um dos principais da história do futebol, recebeu não mais do que 20 mil torcedores para ver aquele amistoso. Afinal, depois da ausência da Copa do Mundo de 1994, a torcida inglesa não estava muito empolgada com sua seleção. Mas bem-aventurados foram aqueles presentes nas arquibancadas naquele 6 de setembro de 1995. Jamie Redknapp cruzou sem muitas pretensões. Não esperava que René Higuita já tivesse arquitetado a sua acrobacia. Uma bola que o goleiro poderia simplesmente agarrar, mas não um maluco como o colombiano: ele se lançou para frente e rebateu a bola com os calcanhares. Há exatos 20 anos, surgia uma das imagens mais repetidas do futebol, o Escorpião.

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“Os seres humanos sempre serão lembrados por suas grandes obras e isso é o que foi pra mim. As crianças sempre foram a minha inspiração. Eu sempre os vi nas ruas ou nos parques tentando dar bicicletas e disse-lhes que seria bom tenta-las em sentido reverso. Naquele dia, na Inglaterra, eu recebi a bola que estava esperando por cinco anos, para conseguir executar aquela jogada”, afirmou Higuita, em entrevista ao jornal Mundo Deportivo.

Naquele momento, Higuita vivia sua redenção no futebol. Ídolo nacional (embora tenha sido responsável direto pela eliminação na Copa de 1990), havia passado sete meses na prisão, acusado de participar de um sequestro na Colômbia – o goleiro era, declaradamente, amigo de Pablo Escobar. Por conta disso, também perdeu a Copa de 1994, ileso do vexame cafetero nos Estados Unidos. No entanto, voltou a ganhar espaço nos meses anteriores. Tinha sido fundamental na campanha do Atlético Nacional até a final da Libertadores, eliminando o River Plate com um gol de falta e pênaltis defendidos, mas perdendo a decisão para o Grêmio. Já na seleção, voltara à ativa no início de 1995, após quase dois anos afastado.

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“O escorpião nasceu de um comercial para um refresco e, depois disso, passou aos estádios. Comecei a trabalhar nos treinamentos e, vários anos depois, tive a oportunidade de fazê-lo realidade. Essa jogada continuou me dando publicidade”, afirma Higuita, ao Futbol Red, dizendo que recebeu os parabéns dos companheiros e do próprio técnico Hernán Darío Gómez nos vestiários. No entanto, há outros que reivindicam a paternidade do escorpião. Sepp Maier já realizaria em treinos nos anos 1970, enquanto o paraguaio Roberto Cabañas fez um gol assim pelo Cosmos em 1983. Jogada repetida na própria seleção colombiana em 1993, por Aristizábal, contra o Chile. Mas ninguém levou os créditos como El Loco, pelos riscos e pela execução plasticamente perfeita.

A jogada marcou um empate morno por 0 a 0, em que os colombianos escalaram Valderrama, Asprilla, Rincón, Leonel Álvarez e outros símbolos de sua geração de ouro. Depois do famoso lance, Higuita não fez tantos outros jogos pela Colômbia. Permaneceu como nome ocasional nas convocações até 1997, mas não disputou o Mundial de 1998. Depois, ainda voltou a figurar com os cafeteros na reserva da Copa América de 1999. Naquele momento, sua carreira já estava em declínio. Para quem se tornou ídolo do Atlético Nacional, apenas rodou por clubes menores de seu país e da América do Sul antes de se aposentar, em 2009. Atualmente, é treinador de goleiros do Al Nassr, da Arábia Saudita.

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“Creio que hoje já não existem mais goleiros irreverentes. Eu paguei o tributo de jogar nessa posição e agora os goleiros, vendo o risco que se pode correr, são um pouco mais simples. Aprenderam a lição: um toque, dois toques e chutão, mas não driblam”, analisa Higuita. E, se não driblam, muito menos terão a coragem de realizar novamente o escorpião, hoje uma jogada característica do veterano de 49 anos em amistosos festivos. A maior lembrança de uma lenda entre os goleiros, justamente por sua irreverência.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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