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A noite em que a Colômbia se tornou a melhor do mundo

Há exatos 20 anos, o futebol colombiano vivia o maior momento de sua história. Aquele 5 de setembro de 1993 não valeu título algum – como aconteceria oito anos depois, na Copa América. Entretanto, a partida que marcou a classificação dos Cafeteros à Copa de 1994 se eternizou como o ápice da melhor geração já vista no país. Um dia de orgulho nacional, em que havia mais bandeiras nas ruas do que em qualquer comemoração de 20 de julho, o Dia da Independência. Uma vitória que deu até mesmo o direito de sonhar com um êxito no Mundial.

Dentro do Monumental de Núñez, a Colômbia humilhou a Argentina. O time de Francisco Maturana goleou por 5 a 0 a Albiceleste, então vice-campeã do mundo, bicampeã da Copa América e campeã da Copa das Confederações, que nunca havia perdido em casa pelas Eliminatórias. Os Cafeteros, que precisavam apenas de um empate para ir à Copa, se alçaram à condição de sensação. Enquanto isso, os argentinos só não foram eliminados prematuramente porque o Peru arrancou um empate contra o Paraguai e garantiu o time de Alfio Basile na repescagem – quando Diego Maradona foi chamado de volta à equipe e a salvou nos duelos contra a Austrália.

O ambiente hostil em Buenos Aires era evidente. “Antes da partida, entramos no gramado e os argentinos começaram a atirar de tudo. Recebi uma ligação no celular de meu empresário e fui ao meio do campo para falar com ele. Mas a torcida gritava de tudo!”, se lembra Faustino Asprilla, em entrevista ao El Tiempo. Até Maradona, fora daquela partida, ajudou a esquentar o clima. “A Argentina vai à Copa, não se pode mudar a história. A Argentina está acima e a Colômbia, abaixo”, disse o camisa 10, na época.

Contudo, o que se viu em campo foi um verdadeiro espetáculo dos visitantes. A torcida argentina, que começou a partida gritando ‘olé’ a favor de sua seleção, terminou a exibição com minutos contínuos de aplausos aos colombianos. Faustino Asprilla balançou as redes duas vezes, criou a jogada para mais um tento e mostrou-se um atacante completo. Freddy Rincón marcou dois gols e deu uma aula de força no meio-campo. Carlos Valderrama foi o maestro do show, organizando os ataques. Adolfo Valencia, autor de mais um gol, e outros como Leonel Álvarez e Óscar Córdoba também se aproximaram da perfeição, na noite iluminada da Colômbia. Maturana organizou um time intenso na marcação e eficiente na conclusão, digno de uma goleada tão notável.

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“Foi muito difícil, muito complicado, porque havia a tensão dos torcedores argentinos. Porém, tivemos tranquilidade para lidar com essa situação, estávamos em bom nível”, comentou o astro Carlos Valderrama, em entrevista à Caracol TV. “Não esperávamos ganhar por 5 a 0, mas tínhamos confiança na equipe e sabíamos que só dependia de nós mesmos. No vestiário, o professor Maturana falou e concordamos que era uma ótima oportunidade para entrar para a história do futebol colombiano e do futebol mundial”.

Se a geração colombiana já era famosa pela campanha até as oitavas de final na Copa de 1990, ficou ainda mais credenciada depois do triunfo. Os jogadores do país passaram a ser mais visados pelos clubes europeus. E a seleção chegou sob uma badalação nunca antes vista ao Mundial dos Estados Unidos. Porém, a decepção foi gigantesca, com a queda na primeira fase, e ganhou ares de tragédia após a morte do zagueiro Andrés Escobar.

“Nos embriagamos com a vitória e não soubemos manejar o êxito. As 28 partidas de invencibilidade criaram uma bola de neve na qual nós acreditávamos, assim como os jornalistas e as pessoas no exterior. Os resultados influenciaram para nos sentirmos os melhores do mundo”, analisa hoje Óscar Córdoba, em citação ao El Tiempo. Ainda assim, nada foi suficiente para tirar os méritos da goleada sobre a Argentina.

Vinte anos depois, a façanha é intensamente comemorada na Colômbia. A televisão local chegou a lançar um seriado para contar a trajetória da seleção em seus anos dourados. A imprensa relembrou intensamente o massacre, com diversos especiais sobre aquele jogo. Lembranças que se juntam à esperança de ver em campo, hoje, o time mais talentoso dos Cafeteros desde então. Se a geração de Falcao García não foi capaz de engolir a Argentina pelas Eliminatórias (empatou por 0 a 0 em Buenos Aires), ao menos tem a chance de voltar a uma Copa depois de 16 anos e lavar a honra colombiana.

Para mais detalhes dos 5 a 0, vale a pena conferir o excelente especial produzido pela Caracol TV, disponível no site da emissora – dica do nosso colunista de América do Sul, Gabriel Dudziak. E, para quem ficou curioso, os gols que marcaram a história dos Cafeteros:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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