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Há 18 anos o futebol perdia Obdulio Varela, o líder sindical que ergueu a Jules Rimet

Vestir a braçadeira de capitão possui um valor implícito. Portar aquela faixa no braço não traz necessariamente nenhuma obrigação além dos outros, mas representa uma responsabilidade grande. Mais do que ser o porta-voz, o capitão também precisa ser a voz do time. Aquele com capacidade de acalmar, mas também de acordar. Independente da forma, o líder que torna aquela braçadeira, tão simbólica, um verdadeiro ofício. Poucas partidas são tão emblemáticas quanto ao papel do capitão quanto a final da Copa de 1950. Poucos tiveram uma voz tão respeitada dentro de um campo de futebol quanto Obdulio Varela, falecido há exatos 18 anos.

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O apelido de Chefe Negro não era à toa. O título do Uruguai no Maracanã lotado também pode ser atribuído aos gols de Schiaffino e Ghiggia. Mas tem muito da liderança exercida por Obdulio naquele 16 de julho. O camisa 5 encarnou a raça uruguaia para passar tranquilidade aos seus companheiros, na descrença de seus próprios compatriotas e na pressão dos 200 mil nas arquibancadas. O veterano era um craque pela entrega em campo, mas, sobretudo, pela forma como conseguia influenciar o que acontecia dentro das quatro linhas. E também o que poderia se passar muito além delas.

Obdulio era conhecido como chefe bem antes do Maracanã. Porque já era um caudilho com a camisa do Peñarol. E também porque foi o líder sindical que transformou o futebol uruguaio no final da década de 1940 e, de certa forma, influenciou a conquista em 1950. Mais do que o capitão do bicampeonato mundial, Obdulio Varela encabeçou a greve de jogadores de 1948 no Uruguai e que se desdobrou para a Argentina, a maior paralisação de atletas que se tem notícia na história do futebol mundial.

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O movimento começou em outubro de 1948. Protestava contra a lei do passe, que tornavam os jogadores amarrados aos seus clubes, e também contra os baixos salários. O profissionalismo havia sido adotado no país no início da década de 1930, mas as condições ruins de trabalho continuavam afligindo os atletas. Então, eles decidiram formar um sindicato, algo não aceito pelos dirigentes. Obdulio era uma das lideranças. Um homem de origem humilde e semianalfabeto, que começou a trabalhar como flanelinha na adolescência e também vendeu jornais e foi pedreiro. Mas que possuía um senso de igualdade enorme e, naturalmente, se tornou referência a seus colegas na luta pelos direitos.

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Idealista por natureza, Obdulio já havia demonstrado seu grande caráter em um amistoso contra o River Plate em 1945. A vitória sobre os Millonarios pagaria 250 a cada jogador do Peñarol, mas 500 ao capitão. “Mas por quê? Eu joguei como todos. Se vocês creem que mereci 500 pesos, são 500 para todos. Se eles mereceram 250, eu também”, disse. E todos os carboneros receberam o mesmo que o Negro Chefe: 500 pesos. Uma postura que se repetiu na greve de três anos depois.

Para se sustentar durante a paralisação, Obdulio voltou a trabalhar na construção civil. Mas seguia na luta. Nas ruas, ele arrecadava dinheiro com os torcedores em Montevidéu. Dançava em bailes e disputava jogos de várzea, organizados também para juntar fundos aos atletas com os salários congelados. E recusou a tentativa de suborno dos dirigentes do Peñarol. Certo dia, o capitão chegou do trabalho e viu um moderno jogo de cozinha, sonho de sua esposa, sendo entregue em sua casa. Perguntou à mulher se ela havia comprado aquilo, mas os entregadores afirmaram que aquilo era “presente” dos cartolas aurinegros. O Chefe Negro mandou levarem de volta. Eles não o comprariam o homem que, na década de 1950, se recusou a vestir até mesmo patrocínio em sua camisa – “Antes, nós, os negros, éramos puxados por argolas no nariz. Esse tempo já passou”, respondeu.

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Sete meses depois, a greve no Uruguai se encerrou. Os dirigentes cederam às reivindicações dos jogadores e o sindicato acabou reconhecido. A liberdade nas transferências aumentou, assim como as condições salariais melhoraram. Obdulio e seus companheiros voltaram ao trabalho em maio de 1949, 14 meses antes de escreverem a história na Copa de 1950. Depois do litígio com os dirigentes, o capitão ainda relutou a voltar à seleção, considerando que era velho demais para defender a Celeste. Precisou receber a visita do presidente e a garantia de que teria um emprego público ao pendurar as chuteiras para ceder aos pedidos. No gramado do Maracanã, o líder sindical fez a diferença.

Pela conquista, Obdulio ganhou um carro da federação uruguaia, roubado naquela mesma semana. Pouco importava. O camisa 5 havia se arrependido da conquista naquela mesma noite trágica para os brasileiros, quando saiu para beber nas ruas do Rio de Janeiro. E o desgosto maior foi causado pela forma como os dirigentes se aproveitaram da façanha. Morreu pobre, na mesma casa onde vivia nos tempos de futebol, mas funcionário público do Cassino de Montevidéu. Às vésperas de completar 90 anos, no dia 2 de agosto de 1996. Para deixar o futebol órfão de um grande caráter.

“Eu não sou caudilho. A única coisa que gostava era de jogar futebol. Mandar um pouco, ordenar algo dentro de campo e nada mais. Você nasce para mandar, isso não se aprende. Eu não represento nada. Tudo o que se diga são mentiras. Sou uma pessoa como qualquer outra e o único que me fica é a satisfação de ter cumprido o meu dever. A glória não existe. A glória é ter amigos que te queiram. Com a fama não se vive”. E amigos, não fama, certamente foi o que Obdulio Varela certamente fez naqueles sete meses entre 1948 e 1949.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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