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Gignac não sentiu a pressão e já incorporou o espírito da Libertadores

“Ah, mas fazer aí é fácil, quero ver aguentar a pressão da Libertadores!”. Você certamente já ouviu (ou já falou, nada contra, não estou aqui para julgar) tal bordão para se questionar a qualidade de um jogador do futebol europeu. Um clássico, por vezes com razão, mas quase nunca comprovado dentro de campo. André-Pierre Gignac certamente tinha sido alvo desse tipo de afirmação alguma vez na vida. Até fazer o que raríssimos de seus conterrâneos costumam arriscar: atravessou o Atlântico para atuar em um time das Américas, quando ainda seguia com mercado na Europa. E, por tudo o que jogou nas semifinais da Libertadores, em dois estádios efervescentes, o francês respondeu à altura quem um dia o desafiou. Calou os críticos.

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Gignac vai justificando o investimento do Tigres em seu salário. Mesmo chegando só agora ao elenco e fazendo suas primeiras partidas como titular, o francês cumpriu as expectativas. Acabou o duelo contra o Internacional como destaque, um dos principais responsáveis pela maneira como os colorados foram amassados. E isso não apenas pelo “hype” criado em torno do seu nome, pela vinda da Europa. O atacante jogou mesmo muito bem. Tanto quanto já tinha demonstrado na última temporada com o Olympique de Marseille, uma das melhores de sua carreira. E acima do que costumam apontar os seus críticos.

Por outro lado, também não dá para dizer que o impacto inicial de Gignac só se deu pela falta de qualidade do futebol latino. O camisa 10 pode não ser um exemplo de habilidade, mas possui qualidade técnica. Apesar do porte físico, sabe buscar o jogo além da grande área. E também aprendeu bastante no ano em que trabalhou ao lado de Marcelo Bielsa. Em um time ofensivo e de posse de bola como reza a cartilha do treinador, o centroavante precisou ser bem mais participativo. Marcou 21 gols na Ligue 1, sua maior marca no Marseille, e também apresentou números acima de sua média na criação de jogadas e na quantidade de dribles.

A mobilidade de Gignac ficou evidente diante do Inter. Cair do centro para a esquerda não é exatamente uma novidade em sua carreira, no posicionamento mais cômodo para o goleador. Contudo, o francês chamou a responsabilidade demais. Abriu espaço para os pontas, fez tabelas, correu, finalizou. Marcou um gol no segundo jogo, abrindo o caminho para a vitória dominante do Tigres. E poderia ter feito mais, não fossem as defesas providenciais de Alisson. Independente da pressão do Beira-Rio ou da vibração no Estádio Universitário, o camisa 10 em nenhum momento demonstrou estar sobrecarregado pelas expectativas. Ao contrário: em Porto Alegre, deu uma caneta desconcertante que quase acabou em golaço. Já em Monterrey, chegou a arrumar confusão com os colorados. Parecia um velho conhecido da Libertadores.

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Na França, Gignac pode não ser uma das principais opções à seleção, também pela maneira como o país está bem servido na posição. Benzema, Giroud e Rémy foram à Copa do Mundo, enquanto Lacazette ascendeu nos últimos meses. Nome ocasional nas convocações de Didier Deschamps, o centroavante foi chamado pela última vez em novembro, mas sua última competição internacional foi o Mundial de 2010. O fato de não estar no topo da lista pode tirá-lo um pouco de consideração. Ainda assim, a grande temporada no Marseille e o interesse de outros clubes europeus davam bons indicativos sobre sua contratação pelo Tigres. Bastava saber como seria a adaptação. O que ele não sequer sentiu ainda. Se a Libertadores serviu de motivador para a transferência, como Gignac afirmou, isso se prova em campo.

Agora, Gignac tem a chance de mirar não só a taça, mas a própria história do torneio. Pode ser o quarto europeu a ganhar a Libertadores, igualando os feitos de Christian Rudzki, do Estudiantes (1969 e 1970); Dante Mírcoli, do Independiente (1972); e Mirko Jozic, técnico do Colo Colo (1991). Para tanto, precisará encabeçar o forte ataque do Tigres, ao lado de Rafael Sóbis (o principal jogador dos felinos na campanha) e Jürgen Damm – mas sem o lesionado Javier Aquino, um dos melhores contra o Inter. Capacidade para chamar a responsabilidade na decisão, ao menos, o centroavante já demonstrou. Com apenas quatro jogos, pode conquistar o maior título de sua carreira e se tornar ídolo eterno de uma torcida fanática. As maiores justificativas para a escolha de seu destino.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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