América do Sul

Dez jogos que marcaram a transformação do Chile em uma potência sul-americana

Puerto Ordaz, véspera do jogo contra o Brasil pelas quartas de final da Copa América de 2007. Valdivia, Jorge Navas, Alvaro Ormeño, Rodrigo Tello e Reinaldo Navia armam um alvoroço no restaurante do hotel. Escândalo nacional consumado na concentração, com vandalismo, bebedeira e assédio sexual incluído contra as funcionárias. A surra sofrida em capo determinava o fim do último ciclo do uruguaio Nelson Acosta – técnico que levou o Chile ao Mundial de 1998 – de maneira vexatória. Uma geração em xeque pelo comportamento fora de campo, a falta de compromisso e o futebol bastante discutível que ocasionou a péssima campanha nas eliminatórias para 2006 – na sétima colocação e escassos 22 pontos. Para que os chilenos iniciassem uma transformação a partir de então, com Marcelo Bielsa e, principalmente, Jorge Sampaoli. Oito anos e duas Copas do Mundo depois, a redenção se completa novamente em uma Copa América, na chance do título inédito contra a Argentina.

Chile 1×6 Brasil, quartas de final da Copa América de 2007

Harold-Mayne-Nicholls, então presidente da federação chilena, além de punir os jogadores envolvidos pesada suspensão, decide ir atrás de Loco Bielsa, que vivia três anos sabáticos em sua fazenda em Máximo Paz. Seduzido pelo projeto chileno, Bielsa assume o comando de La Roja. A estreia nas eliminatórias se dá justamente contra a Argentina em Outubro de 2007. Vitória argentina com dois gols de falta do maestro Riquelme – a quem Bielsa deixou de fora da Copa de 2002 – o dono do time comandado por Alfo Basile, que ainda contava com Tevez e Messi no ataque. O Chile naquela tarde formou com: Bravo; Alvarez, Waldo Ponce, Riffo; Fierro, Iturra e Vidal; Matias Fernandez; Mark Gonzalez, Rubio e Humberto Suazo. O esquema agressivo de Bielsa começava a ser desenhado no 3-3-1-3. A discussão nacional gerava entorno da utilização de Marcelo Salas e Humberto Suazo. Bielsa revivia a polêmica, já que é contra a escalação de dois centroavantes em seus esquema. Suazo – artilheiro das eliminatórias com 10 gols – ganharia a confiança, ao passo que o “Matador” Salas, pouco a pouco, deixaria o elenco de La Roja durante o primeiro turno das Eliminatórias – apesar do doblete contra o Uruguai.

Argentina 2×0 Chile, Eliminatórias da Copa de 2010

O primeiro turno das Eliminatórias seguiu com o Chile irregular, capaz de vencer a Colômbia por 4 a 0, empatar com o Uruguai no Centenário e bater a Bolívia na altitude, ao mesmo mesmo passo que perdia de Brasil e Paraguai por 3 a 0, além de outros tropeços em casa. A grande virada se deu no começo do returno contra a Argentina, em Santiago. Uma exibição de gala contra o time de Alfio Basile. No final, a vitória magra, com gol solitário de Fabian Orellana, representou de forma distorcida a ampla superioridade de La Roja. Esse dia o Chile formou no 3-3-1-3 habitual dos times de Bielsa. O segundo turno foi bastante coeso, com 6 vitórias, 2 empates e a derrota frente ao Brasil. O Chile voltava ao mundial, na segunda colocação, com 33 pontos e o segundo melhor ataque, que anotou 32 gols.

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Chile 1×0 Argentina, Eliminatórias da Copa de 2010

O documentário oficial da Federação chilena se chama Ojos Rojos. O filme mostra a bielsamania que invadiu o Chile de 2007 a 2010. Imagens dos bastidores e o duro caminho para a classificação ao Mundial após 12 anos. O jogaço final contra a Colômbia em Barranquilla tem espaço especial, com cenas de treinamentos, vestiário e pós-jogo com a festa incluída. Jornada que definiu a classificação, com vitória por 4 a 2 em grande tarde de Valdivia – que entrou no lugar de Matias Fernandez na posição de enganche – anotando três assistências e um gol.

Ojos Rojos – Chile 4×2 Colômbia, Eliminatórias da Copa de 2010

Após a vitória na estreia contra Honduras no Mundial, o time de Bielsa encarava a desesperada Espanha de Del Bosque, que havia perdido da Suiça pela contagem mínima. El Loco armou seu 3-3-1-3 com Valdivia de falso 9 e um meio campo recheado com Estrada, Vidal, Isla e Beausejour; Jara, Ponce e Medel eram os zagueiros. O esquema de pressão alta e intensidade teve efeito, com o Chile controlando o jogo e evitando o jogo de possessão dos espanhóis até os 25 minutos. Eis que, em uma saída equivocada de Claudio Bravo, a Espanha saiu na frente do placar com o gol de Villa, passando a controlar as ações e vencendo por 2 a 1. Grande jogo e uma mostra impressionante de força contra a Fúria, que viria a levantar a Copa do Mundo pela primeira e única vez. Com o segundo lugar do grupo, coube ao Chile enfrentar o Brasil de Dunga, seu algoz histórico. Bielsa sem poder contar com sua dupla de zaga titular, armou um 4-3-3 pouco usual, com Jara e Vidal como laterais, e a zaga composta por Contreras e Fuentes. Com gols de Juan, Luis Fabiano e Robinho, o Chile se despedia do Mundial.

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Chile 1×2 Espanha, Copa do Mundo de 2010

Com a saída de Harold Mayne Nicholls da Federação chilena, Bielsa decidiu não renovar o contrato, partindo para um novo retiro sábatico. Fim de um ciclo que revolucionou o futebol chileno em todos os âmbitos. O escolhido para substituí-lo foi seu compatriota Claudio “Bichi” Borghi, de grande campanha com o Colo Colo em 2006, onde já havia trabalhado com Alexis Sanchez, Valdivia, Beausejour, Bravo e Fierro. Na Copa América de 2011, o Chile decepcionou, caindo nas quartas de final contra a Venezuela por 2 a 1. Fora de campo, sem Bielsa, voltaram os problemas, as noitadas e os costumeiros escândalos no elenco. Na véspera do confronto contra o Uruguai – que terminaria 4 a 0 para a Celeste – Vidal, Carmona, Beausejour e Jara se apresentaram embriagados na concentração após o batizado da filha de Valdivia. Dentro de campo, sem a velha pressão exercida pelo esquema de Bielsa, o Chile teve um primeiro turno fraco nas eliminatória com quatro derrotas que deixavam La Roja longe da zona de classificação. O fim do ciclo de Borghi foi consumado com a derrota frente a Argentina em Santiago na abertura do returno. Messi e Higuain foram os algozes de La Roja que esse dia formou no 4-2-3-1 com Miguel Pinto; Isla, Marcos Gonzalez, Jara, Beausejour; Medel e Marcelo Diaz; Alexis Sanchez, Matias Fernandez e Mark Gonzalez; Sebastian Pinto

Chile 1×2 Argentina, Eliminatórias da Copa de 2014

A Universidad de Chile era a grande sensação do continente em 2011. Com futebol agressivo e contundente, levou a Copa Sulamericana, batendo a LDU na final por 3 a 0. Johnny Herrera, Osvaldo Gonzalez, José Rojas, Eugenio Mena, Marcelo Diaz, Charles Aránguiz e Eduardo Vargas faziam parte do elenco. Misturando a base de Bielsa com seus jogadores de confiança de La U, Jorge Sampaoli assumiu o comando da seleção chilena na segunda rodada do returno. Logo de cara, uma derrota em Lima contra o Peru, com gol de Farfán. Seria a única derrota do ciclo que teve quatro vitórias consecutivas contra Uruguai, Paraguai, Bolívia e Venezuela. Contra a Colômbia em Barranquilla, após sair vencendo por 3 a 0, o Chile cedeu o empate nos minutos finais, adiando a classificação para o Mundial. Na rodada final, com gols de Alexis Sanchez e Medel, o Chile carimbou o passaporte ao bater o Equador por 2 a 1. La roja terminaria na terceira colocação com 28 pontos e o segundo melhor ataque das eliminatórias com 29 gols.

Chile 1×2 Equador, Eliminatórias da Copa de 2014

Sampaoli, nascido em Casilda – cidade localizada a poucos quilômetros de Rosário – chegou a jogar nas categorias menores do Newell’s Old Boys, onde pôde apreciar os treinos de Bielsa naquele histórico time bicampeão argentino no começo dos anos 1990. Com a carreira abreviada por uma grave lesão, Sampaoli tornou-se técnico do Alumni, de sua cidade natal. Na seleção chilena, Sampaoli recuperou os conceitos de seu mestre, dando ainda mais variação tática e sendo menos “kamikaze” nos confrontos contra os gigantes do futebol mundial. O amistoso contra a Alemanha, meses antes do Mundial, deu mostra da evolução chilena. Um jogo onde a Roja comandou as ações, criando as melhores chances, com duas bolas na trave e o jogo intenso que o caracteriza. O esquema tático já era parecido com o atual, variando a linha defensiva de acordo ao ataque rival – ora no 3-4-2-1, ora no 4-3-1-2/4-1-4-1.

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Chile 0x1 Alemanha, amistoso

O grande jogo do Chile de Sampaoli se deu no Maracanã. 2 a 0 contundente sobre a Espanha, com direito a olé sobre os então campeões mundiais. A Espanha dava adeus à Copa precocemente. Sampaoli armou um 3-4-2-1 com Vidal de falso 9, Alexis Sanchez e Eduardo Vargas bem abertos e uma linha de 3 zagueiros composta por Francisco Silva, Gary Medel e Gonzalo Jara. Dois golaços marcados por Vargas e Aranguiz que simbolizam o time de Sampaoli.

Chile 2×0 Espanha, Copa do Mundo de 2014

Com a derrota no terceiro jogo da fase classificatória contra a Holanda, na Arena Corinthians, o Chile se viu – pela terceira vez em Copas do Mundo – diante do Brasil nas oitavas de final. Jogo intenso, com empate final em 1 a 1. A bola na trave em chute de Pinilla se mantem vivo na retina de todos os chilenos. Nos pênaltis, a eliminação e a sensação que o Chile estava preparado para ir mais longe naquele Mundial.

Chile 1×1 Brasil, Copa do Mundo de 2014

O Chile se preparou como nunca para ser protagonista na Copa América. A final ideal, no cenário ideal e contra o rival mais temido do continente na atualidade. Um ciclo de oito anos que pode ser coroado esta tarde, servindo de exemplo para as demais seleções. É possível ser protagonista, ofensivo, intenso, sem perder a ternura.

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