Copa América

Quem acabou punido: Suárez ou os torcedores?

A Fifa mostrou a Suárez o rigor que nunca estendeu aos seus diretores, o que ficou evidenciado pelas investigações do FBI, a prisão de diversos cartolas na Suíça e as denúncias de corrupção quase diárias que estão vindo a público. Por ter mordido Chiellini, ele foi excluído da Copa do Mundo, teve até a sua credencial confiscada, e passou quatro meses banido de qualquer atividade ligada ao futebol.  A punição de nove jogos internacionais estende-se à Copa América, a que Suárez assistirá de casa, pela televisão, acariciando as três medalhas de campeão que conquistou na temporada com o Barcelona, pouco preocupado com o que a entidade pensa dele.

GUIA DA COPA AMÉRICA:
– Grupo A: Não tem desculpa, os chilenos exigem a taça
– Grupo B: Messi é o homem certo na hora certa
– Grupo C: Colômbia será um desafio real para o Brasil

As coisas se saíram muito bem para Suárez depois da Copa do Mundo, e quem mais será afetado pela ausência do atacante é o público que acompanhará a competição, em casa ou no estádio. Foi jogada pela janela a perspectiva de uma Copa América que não se via há muito tempo, com Uruguai, Brasil, Argentina, Colômbia e Chile enfileirando pelo menos um jogador de primeiro nível do futebol mundial em grande forma.

Desde o seu impulso canino, em julho do ano passado, Suárez deixou um time prestes a entrar em crise (muito por causa da sua transferência, é verdade) e foi para o Barcelona, com um contrato milionário. Encontrou a companhia de Messi e Neymar, formou o melhor trio da história do futebol espanhol, e conquistou os títulos que o Liverpool não estava pronto para lhe dar neste momento.

Acima de tudo, não arranjou mais confusão e se concentrou apenas na bola. Por marketing ou apenas por bondade, ou pelos dois, fez algumas boas ações para ajudar a limpar a sua imagem. Visitou crianças com câncer no Natal e se fingiu de médico para levar um garotinho com a mesma doença às lágrimas. Deixou para trás o papel de vilão e assumiu apenas o de craque, que desempenha com maestria. Marcou 25 vezes em 34 partidas e chega ao fim da temporada cotado para ser um dos cinco melhores jogadores do mundo.

Aos 28 anos, sabe que tem pelo menos mais uma Copa América pela frente, talvez duas, e mesmo que não tenha, já deixou a sua marca na competição. O Uruguai pode colocar o título de 2011 na conta dele. Foi o melhor jogador do torneio e fez quatro gols. Dois deles na vitória da semifinal sobre o Peru e outro para abrir o placar da final contra o Paraguai. Tem uma carreira consolidada na seleção uruguaia, duas Copas do Mundo disputadas e a idolatria quase irrestrita do povo do seu país.

Mais uma Copa América não teria tanto impacto no seu currículo e na história que escreve dentro do futebol. Por outro lado, sua ausência abala bastante as chances do time de Oscar Tabárez no Chile. Sem Diego Forlan, aposentado da seleção, a única estrela restante é Edinson Cavani, auxiliado por bons coadjuvantes como Diego Godín, Nicolás Lodeiro e De Arrascaeta, jogando muito bem pelo Cruzeiro. O substituto de Suárez deve ser o jovem Diego Rolán, 22 anos. Foi autor do último gol do estádio antigo do Bordeaux e do primeiro do novo campo. Vem de boa temporada no Campeonato Francês, com 15 gols em 36 partidas.

Afeta também o apelo pela competição, que teria tudo para ser ainda mais sensacional. O Uruguai está no Grupo B ao lado da Argentina. Teríamos um Suárez x Messi logo na primeira fase. Caso dê a lógica, e os uruguaios passem em segundo lugar, provavelmente pegariam o Brasil nas quartas de final, provável líder do Grupo C. Suárez x Neymar. Sem falar no restante da competição, com possíveis confrontos contra a Colômbia de James Rodríguez ou o Chile de Alexis Sánchez. Azar do público e também da Conmebol, que poderia muito bem usar um torneio antológico para tirar um pouco do foco das acusações do Fifagate.

LEIA MAIS: Assista a todos os 122 gols de Messi, Suárez e Neymar na temporada

Na ânsia de usar o uruguaio como exemplo, ainda não se sabe exatamente do que, a Fifa decidiu punir a inconsequência de Suárez com uma sanção muito exagerada, maior do que as que são impostas em casos de racismo. Maior até do que lances que colocam em risco a carreira de jogadores de futebol (mordida dói para caramba, é um lance desleal, mas ninguém vira desfalque ou se aposenta precocemente por ter os dentes do adversário cravados em seu ombro). Deu apenas motivos para a Federação Uruguaia reclamar de perseguição. Falou até em vingança contra a sua seleção, por ela ter eliminado Itália e Inglaterra, duas federações fortes da Europa, e preconceito, pelo jogador ser sul-americano. Será que um inglês seria tão punido se fizesse a mesma coisa?

O que a Fifa conseguiu com bastante competência foi transformar o vilão em vítima porque a mordida de Suárez foi reduzida a uma mera travessura diante do tamanho da punição. E esvaziar a Copa América que começa nesta semana. Porque dar lição de moral? Da entidade investigada pelo FBI, que teve um vice-presidente desviando dinheiro de ajuda humanitária para as vítimas do terremoto no Haiti? Isso ela não conseguiu.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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