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Como jogam os sobreviventes das quartas de final da Libertadores

O gás de pimenta segue ardendo em nossa alma sedenta por Libertadores. Momento de reflexão e perplexidade no coração dos amantes do futebol sul-americano graças ao escandaloso desenlace do Superclássico argentino em La Bombonera. É preciso contar até três para tentar mudar o foco e analisar o que aconteceu dentro de campo nessas oitavas de final, projetando os confrontos e as tendências táticas e técnicas dos confrontos das quartas de final do torneio  mais importante do continente. Vamos às prévias de cada um dos times, privilegiando o River Plate (provável classificado pela punição ao Boca Juniors, ainda que nada tenha sido confirmado oficialmente pela Conmebol):

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>>> O Cruzeiro teve gana, sufocou o São Paulo e de novo contou com as mãos salvadoras de Fábio
>>> A predestinação do Inter pesou contra o Galo em outro jogaço para mover o cosmos
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CRUZEIRO

Para o cruzeirense, o possível confronto contra o River Plate traz doces reminiscências. Não há como não lembrar da conquista da Copa Libertadores de 1976, quando a raposa bateu os millonarios por 3 a 2 no jogo de desempate. O atual time cruzeirense demonstrou contra o São Paulo as duas faces de uma equipe ainda em formação. No Morumbi, a estratégia de Marcelo Oliveira não funcionou, chamando o tricolor paulista para dentro de seu campo sem conseguir armar contra-ataques constituídos por seu veloz tridente de armadores. O resultado magro ficou barato, como reconheceu o treinador. Na volta, o Cruzeiro foi implacável com muita velocidade de Marquinhos e Willian nas costas de Reinaldo e Bruno, os laterais tricolores. De Arrascaeta sofreu com a marcação individual de Denílson – contra o River deverá ser feita por Kranevitter – e portanto, apareceu pouco no confronto com meros lampejos de seu talento. Willians e Henrique carecem de maior entrosamento na volância, como deixou claro o confronto contra o São Paulo. O Cruzeiro sofreu muito na saída de bola com seus dois volantes imprecisos, contudo, segue a mesma premissa do 4-2-3-1 de Marcelo Oliveira, que prima pelo bote e a transição rápida defesa-ataque. Damião segue muito estático no ataque, apesar do gol decisivo no Mineirão. A defesa mudou de formação novamente no confronto: Leo e Paulo André ficaram de fora do jogo no Mineirão dando lugar a Manoel e Bruno Rodrigo. Mayke e Eugenio Mena sofreram demais no primeiro jogo com os avanços dos laterais e ponteiros tricolores. Contra o River, Mena e Mayke deverão ter trabalho na marcação dos bons meias millonario –  Carlos Sanchez, Sebastián Driussi ou  Pity Martinez.

RIVER PLATE

Boca e River prometiam muito, mas nos brindaram pouco futebol e muita polêmica. O primeiro jogo foi uma carnificina imposta pelo jogo brusco do River. Marcelo Gallardo, após o revés no confronto pelo Campeonato Argentino – 2×0 em La Bombonera – desfez o seu 4-3-1-2 habitual, propondo um 4-4-1-1 bem marcado para espelhar a marcação xeneize. Ariel Rojas e Leonardo Pisculichi deram lugares a Driussi e Leonardo Ponzio. Kranevitter e Ponzio fizeram a nova dupla de volantes, o famoso “doble 5”, cortando o circuito de passes do trio de armadores do Boca formado por Gago, Pablo Perez e Lodeiro. A vitória por 1 a 0 foi na marra, porém a expulsão tola de Teo Gutierrez deixou uma senha para a postura e formação ideal no jogo decisivo em La Bombonera. Gallardo apostou no 4-1-4-1 com Rodrigo Mora isolado no ataque  com a missão de grudar, na recomposição defensiva, em Fernando Gago, o primeiro volante xeneize. Driussi, que perdera o primeiro jogo para se apresentar a seleção sub-20 da Argentina na disputa do mundial na Nova Zelândia, fechava a segunda linha de 4 pelo lado esquerdo, enquanto Pitu Martinez fazia o mesmo pelo flanco oposto, evitando a saída de bola de Peruzzi e Colazo e forçando Boca a dar chutões aos borbotões. Carlos Sanchez, Leonardo Ponzio e Matias Kranevitter fizeram um trio de volantes de muito ímpeto e personalidade, vencendo os duelos particulares e controlando o meio campo. Mannana – outro que estivera com a seleção sub-20 da Argentina no Mundial  – Maidana, Funes Mori e Vangioni formaram a linha defensiva nos 135 minutos do confronto acidentado contra o Boca. Frente ao Cruzeiro, Marcelo Gallardo terá os retornos de Gabriel Mercado e  Alvarez Balanta na defesa, além de Teo Gutierrez para o ataque. Falta saber se o treinador do River voltará aos 4-3-1-2, seu esquema fetiche, ou manterá o 4-1-4-1/4-4-1-1 dos últimos jogos.

RACING

La Academia volta a estar entre os 8 melhores da Libertadores após 18 anos de hiato. Diego Cocca apostou pelo 4-4-2 em linha – esquema padrão em seu ciclo que começou em Agosto de 2014 – no confronto contra o Montevideo Wanderers. O jogo de ida foi tenso, com uma latente superioridade uruguaia, que poderia ter resultado numa desvantagem considerável. Eis que, apareceu o talento e o ímpeto de Gustavo Bou para servir o jovem Brian Fernandez – que acabara de entrar no lugar de Diego Milito – no  lance que desencadeou o empate agônico e o panorama positivo para o jogo da volta em Avellaneda. Com o Cilindro lotado, o Racing encontrou a vantagem logo no primeiro tempo em jogadas individuais de sua dupla de ataque. Milito, que voltou da Europa com o amplo histórico de lesões, mudou sua característica, saindo mais da área e servindo Bou. No primeiro gol, Milito fez toda a jogada que resultou no gol do ponteiro Washington Camacho. O jovem uruguaio Camacho trabalhou com Cocca no Defensa y Justicia e vem suprindo bem na posição que era de Centurión, na ponta esquerda. O time que começou o confronto contra o Wanderers é praticamente o mesmo que foi campeão argentino, sendo 9 os titulares que participaram da campanha. Luciano Aued segue lesiondo, e em seu lugar Francisco Cerro forma a dupla de volantes ao lado de Ezequiel Videla. Gaston Diaz, que perdeu espaço nessa temporada, voltou a titularidade contra Los Bohemios, fechando bem a segunda linha pelo lado direito. A defesa voltou a mostrar solidez com os retornos de Luciano Lollo e Yonathan Cabral. Ivan Pillud e Grimi fecham a defesa como laterais de pouco apoio. O Racing é um time burocrático, que se fecha bem com duas linhas de 4, explorando a velocidade pelos lados e o talento da dupla de ataque mais efetiva da Libertadores 2015. Bou é o artilheiro da competição com 8 gols, além de outras 5 assistências. Diego Milito, mesmo baleado, também tem 5 assistências e é o ídolo e líder indiscutível do elenco.

GUARANÍ

O bravo Guarani chega para reencontrar o Racing com muito moral. Na primeira fase, apesar no 4×1 enganoso, El Legendario já havia demonstrando qualidade e ordem, propondo um jogo franco em Avellaneda. Após aquele cotejo, o espanhol Fernando Jubero desfez o 4-3-3 ao apostar no esquema 5-4-1, o mesmo utilizado pela Costa Rica de Jorge Luis Pinto no último Mundial. Contra o Corinthians o sistema foi muito bem sincronizado, evitando o jogo de lado de campo do timão e congestionando a entrada da área. Na transição defesa-ataque o time passava a agredir no 3-4-2-1 com a subida de De La Cruz e Bartomeus e as entradas em diagonal de Aguilar e Julian Benitez. Patiño assumiu a titularidade na zaga, formando o tridente defensivo ao lado dos veteranos Maldonado e Julio Cesar Caceres, que terão a dura missão de parar Bou e Milito; Filipini, lesionado contra o Corinthians, pode regressar na lateral direita. Jorge Mendoza e Palau fizeram um grande papel para conter o ímpeto corintiano marcando impetuosamente Elias e Renato Augusto. A dupla de volantes é um dos trunfos do Guarani no embate contra o Racing. Federico Santander, como pivô recuado no meio de campo, fez um grande jogo no Defensores del Chaco como garçom. O atacante paraguaio ficou de fora da lista de Ramon Diaz para a Copa América, causando discussão na imprensa local, assim como Fernando Fernandez, o algoz corintiano no Itaquerão, que foi o artilheiro da última temporada no Paraguai, mas acabou indo para o banco com a mudança de sistema tático imposto por Fernando Jubero.

TIGRES

O Tigres de Monterrey sofreu além da conta contra o bravo Universitário de Sucre, saindo atrás do placar nos dois jogos dessas oitavas, com gols de bola parada e roubada na saída de jogo. O time dirigido por Ricardo ‘Tuca” Ferretti aposta na individualidade do seu quarteto ofensivo. O equatoriano Joffre Guerrón deu lugar a Lugo pela ponta direita, priorizando a reta final do mexicano. O grande protagonista da classificação foi o argentino Damián Alvarez, que atua aberto pela esquerda na linha de armadores. Alvarez acabaria anotando um golaço em Sucre, além de sofrer o pênalti que culminou no empate em Monterrey. Rafael Sobis, em uma função mais recuada, também foi importante com  assistências para o artilheiro Enrique Esqueda – que assim como o zagueiro Hugo Ayala foi convocado por Miguel Herrera para a disputa da Copa América. O volante Arevalo Rios também disputará o torneio pela seleção uruguaia, assim como Nahuel Guzman, o goleiro de confiança de Tata Martino na seleção argentina. O esquema tático utilizado por Tuca Ferretti no confronto contra o Universitario de Sucre foi o 4-2-3-1, que varia para o 4-4-2 com Rafael Sobis se alinhando a Esqueda no comando do ataque. No Campeonato Mexicano, o Tigres é o líder da temporada regular. O começo dos play-offs no México pode pesar contra o Emelec, que possui um jogo de muita intensidade e imposição física.

EMELEC

Sete titulares do Emelec estão na lista de Gustavo Quinteros para a disputa da Copa América: Dreer, Narvaez, Achilier, Bagüi, Lastra, Angel Mena e Miller Bolaños. O fato, por si só, mostra a força do bom time que do Emelec, quem pinta como habitué das instancias decisivas do futebol sul-americano. Um processo solido de três temporadas que começou justamente com o treinador argentino – que assumiu a seleção tricolor em Março – culminando na hegemonia dos Electricos no futebol equatoriano. No confronto ideológico contra o Atlético Nacional, valeu a intensidade e a imposição física do 4-4-2 de Omar De Fellipe no jogo de ida em Manta, graças a pressão na saída de bola e a velocidade dos endiabrados Angel Mena e Miller Bolaños. Na volta em Medellín, precisou de muita solidez e firmeza da defesa composta por Narvaez, Guagua, Achillier e Bagui, para conter o bom time Verdolaga que impôs seu jogo de toque e velocidade após a expulsão do volante Pedro Quiñonez. O veterano arqueiro Esteban Dreer, um símbolo do clube, fechou o gol com grande atuação, rubricando a sua convocação para a Copa América. A péssima notícia para o Emelec é a ausência de Miller Bolaños, o craque do time, que levou o segundo amarelo de forma tola, não podendo disputar o jogo de ida no Equador. O Emelec, com seu jogo simples, de um 4-4-2 bem executado, mostra argumentos para brigar por uma vaga na semifinal da Libertadores. No torneio local, o Emelec abdicou da disputa após perder o clássico del Astillero contra o Barcelona de Guayaquil, focando  totalmente na Libertadores.

INTERNACIONAL

Diego Aguirre, com seu 4-2-3-1 compacto e veloz na transição defesa-ataque, vem potencializando um Internacional que desponta para brigar pelo tricampeonato com a cara do treinador charrua. É verdade que o Colorado versão 2015 tem como estratégia ceder a bola ao rival para contra-atacar com Eduardo Sasha e Valdivia, e assim, acaba sofrendo além da conta, como no confronto de volta contra o Atlético Mineiro, quando teve apenas 38% de posse e 6 remates contra 13 dos atleticanos. A chave é a contundência de Valdivia, D’alessandro e Lisandro Lopez. Valdivia anotou 10 gols no ano, enquanto Licha Lopez estreou na Libertadores já marcando dois gols e cedendo uma assistência. El Cabezon segue como a mente pensante do meio campo colorado, atuando novamente na posição centralizada como um clássico enganche. A dupla de volantes esta consolidada com Charles Aranguiz e o jovem Rodrigo Dourado. O chileno se alinha a linha de armadores, constituindo um 4-1-4-1 na transição de ataque, deixando Dourado como cão de guarda do meia rival – contra o Galo foi bem na marcação de Dátolo. Para o confronto contra o Santa Fe será fundamental a marcação do meia argentino Omar Perez, o grande maestro dos Cardenales de Bogotá; o chileno, por trajetória e experiência, poderia inverter de posição numa possível marcação individual a Perez. A defesa vem mudando muito de formação, trazendo um dilema para Aguirre. Contra o Galo, Ernando ficou improvisado na lateral esquerda, marcando Luan; do lado oposto o jovem William acabou ganhando espaço na lateral. O miolo de zaga foi composto por Alan e Juan.

INDEPENDIENTE SANTA FE

O Independiente Santa Fe, atual campeão colombiano, mostrou seu futebol de toque e possessão diante do bagunçado Estudiantes de La Plata, dirigido pelo inexperiente treinador Gabriel Milito, que abriu o seu meio de campo no pouco usual 5-3-2. O time do Santa Fé é coeso, bem dirigido pelo argentino Gustavo Costas, que destila  o paladar do velho futebol argentino no seu 4-3-1-2, o esquema fetiche que dá total liberdade criativa para o craque Omar Perez. No confronto contra o Pincha, brilhou também o meia Juan David Roa, que pela meia direita efetuou duas assistências nos gols que classificaram El León de Bogotá novamente para as quartas da Libertadores. Em 2013, o Santa Fé eliminou o Grêmio nessa mesma instancia. O lateral Anchico, o volante Daniel Torres e o craque Omar”El Pelado” Perez faziam parte daquele elenco. Na semi, acabou parando na trave e no bom time do Olímpia que chegaria a decisão frente ao Atlético Mineiro. A jovem defesa conta com o zagueiro Francisco Meza, autor de um dos gols contra o Estudiantes, que foi convocado por José Pekerman para a disputa da Copa América.

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