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Chile x Argentina traz à tona disputas territoriais, rancor e uma rivalidade quase bélica

Houve uma época, duzentos anos atrás, que Chile e Argentina juntaram suas forças militares e políticas para enfrentar o Império Espanhol. Foi uma exceção no relacionamento entre os dois países, naquela época ainda muito novos para guardarem rancor. Dividindo mais de 5 mil kms de fronteiras, as disputas territoriais foram a semente das desavenças e criaram uma forte rivalidade entre chilenos e argentinos que será transferida para os gramados, neste sábado, na final da Copa América.

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A linha divisória da Cordilheira dos Andes serviu perfeitamente para delimitar as fronteiras entre os países, mas a região sul mostrou-se um problema mais espinhoso, que exigiu 150 anos de tratados, mediações e cenários quase bélicos para ser resolvido. A disputa essencial do conflito era o Estreito de Beagle, um canal que abrange as ilhas Picton, Lennox e Nueva, liga o Atlântico ao Pacífico e separa as grande ilha da Terra do Fogo de outras pequenas ilhas ao sul. Além da importância estratégica, havia o interesse por recursos naturais como urânio e petróleo.

No século 19, a Argentina foi ficando incomodada à medida que o Chile avançava na região, o que culminou em um tratado de paz firmado em 1856, que estabelecia a posse dos territórios a quem os houvesse ocupado em 1810. Não serviu para muita coisa porque os dois lados continuavam a divergir nas interpretações. Em 1881, um novo tratado deu a soberania do local para o Chile, mas 25 anos depois, os argentinos voltaram a reinvindicá-lo.

Ignorar acordos de paz foi uma constante durante o conflito porque a resolução de 1960, que colocava as ilhas de Picton, Lennox e Nueva sob comando chileno, também não foi ratificado. Ele surgiu de uma série de conflitos entre os dois países na região, principalmente o da ilha de Snipe, onde o Chile construiu um farol para facilitar a navegação. Os argentinos destruíram-no e construíram um que eles pudessem chamar de seu. Os chilenos, naturalmente, destruíram o farol argentino para levantar mais um com as suas impressões digitais. Como você pode adivinhar, a infantaria naval argentina mais uma vez derrubou a construção chilena. Essa brincadeira quase levou as nações a entrarem em guerra, mas elas concordaram com uma trégua.

Como os papéis não estavam sendo respeitados, apelaram para a realeza. A Rainha Elizabeth II foi chamada para ser a mediadora do conflito e definiu, em 1977, que as três ilhas, mais Snipe, seriam chilenas, dando à Argentina a ilha de Becasses mais a livre navegação no canal. A decisão pró-Chile não foi aceita pelo outro lado. No ano seguinte, os argentinos declararam a decisão inválida e começaram a esboçar as vias de fato. De um lado, Rafael Videla. Do outro, Augusto Pinochet. As frotas estavam posicionadas em dezembro, e a argentina Operação Soberania estava com hora marcada. Começariam os bombardeios e as invasões ao Chile.

Mas a intervenção de João Paulo II, uma das primeiras ações do seu papado, colocou panos quentes nos impulsos bélicos de dois países muito católicos. Os argentinos chegaram a ocupar 5 kms de terras chilenas antes de recuar. O Acordo de Montevidéu foi firmado em 1979, mas a resolução final veio apenas em 1984, com o Tratado de Paz e Amizade, assinado na presença do papa. Nesse intervalo, o governo militar argentino precisava de outro inimigo para unificar o país e olhou para algumas ilhas que há anos eram território britânico.

A Guerra das Malvinas também serviu para acirrar os ânimos porque os chilenos, apesar de uma postura oficial neutra, ficaram ao lado do Reino Unido. Um ex-oficial da Força Aérea Real enviado ao Chile para negociar com Pinochet chegou a dizer que “sem a ajuda do Chile, teríamos perdido a guerra”. O rancor pelo que os argentinos consideram uma traição fica claro na versão da torcida argentina de “Decime que se siente”, cantada várias vezes durante essa Copa América.

ENTENDA: A versão rancorosa de “Decime que se siente” para o Chile na Copa América

As autoridades chilenas estão naturalmente preocupadas com o confronto deste sábado, até porque a maior tragédia do futebol do país aconteceu justamente em um clássico envolvendo as duas seleções. Há 60 anos, a Copa América, também disputada no Chile, foi decidida por elas, que chegaram à última rodada empatadas em pontos. A organização decidiu vender ingressos no dia do jogo, o que causou muitos tumultos nos arredores do Estádio Nacional. Os portões cederam, e cerca de 20 mil pessoas invadiram as instalações, muitos ignorando e pisoteando colegas que tropeçavam. Houve 500 feridos e pelo menos sete mortes.

Essas lembranças continuam vivas na memória dos chilenos e a esperança é que nada de parecido aconteça no reencontro do Chile, em busca do seu primeiro título, com a Argentina, que precisa quebrar um longo jejum sem troféus. Que a grande rivalidade entre os países fique restrita ao campo e às arquibancadas, sem violência e exageros.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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