Argentina

Taça na mão: Boca Juniors se coroa no Argentino como um campeão incontestável

A multidão já lotava o Obelisco, tradicional ponto de encontro em Buenos Aires. O Boca Juniors só entrará em campo nesta quarta. Independentemente disso, o título do Campeonato Argentino poderia ser confirmado nesta terça, com uma rodada de antecedência, caso o Banfield não vencesse o San Lorenzo no Nuevo Gasómetro. E assim aconteceu, graças à forcinha do Ciclón com o triunfo por 1 a 0. Permitiu que a alegria xeneize tomasse conta das ruas de Buenos Aires, na primeira conquista desde 2015. Enquanto isso, os jogadores festejaram no próprio hotel em Bahía Blanca, onde enfrentarão o Olimpo, antes de voltar para casa e se misturar à massa boquense. Comemoração ampla e merecida, diante da maratona que o time dos gêmeos Schelotto precisou superar para ficar com a taça. Teve a regularidade que nenhum de seus concorrentes desfrutou, com vários times subindo e descendo na tabela ao longo da campanha de 30 rodadas.

O Campeonato Argentino começou há quase dez meses, no final de agosto. O Boca Juniors ainda tinha o gosto amargo pela eliminação para o Independiente del Valle na Copa Libertadores e tentava reerguer o projeto caro que se iniciou na competição continental. Carlos Tevez era a estrela da companhia, mas estava claro que o time precisaria de alguns reforços pontuais. E muita coisa mudou ao longo de tanto tempo. De qualquer maneira, a consistência xeneize se viu desde as primeiras rodadas. Após a derrota para o Lanús na estreia e alguns tropeços de início, o time engrenou a partir de novembro.

O momento decisivo aconteceu justamente na sequência mais preocupante da tabela, com três clássicos consecutivos. Primeiro, a vitória sobre o San Lorenzo em pleno Nuevo Gasómetro. Depois, na Bombonera, amassaram o Racing por 4 a 2. E o ápice aconteceu justamente no Monumental de Núñez abarrotado, diante do River Plate. Uma tarde inesquecível de Tevez. Criticado, o camisa 10 chamou a responsabilidade de maneira brilhante. Deu a assistência para que Walter Bou abrisse o placar no primeiro tempo, até a virada dos Millonarios antes do intervalo. Já no segundo tempo, Carlitos carregou o time balançando as redes duas vezes, incluindo um golaço em chute no ângulo. Possibilitou o triunfo por 4 a 2, em duelo que acabou marcado também pelas lágrimas de Andrés D’Alessandro, fazendo seu último Superclássico.

benedetto

A vitória em Núñez valeu bem mais que o moral do Boca Juniors. Também colocou o time na liderança do Campeonato Argentino, ultrapassando o Estudiantes. De lá não sairia mais. A venda de Tevez para a China e a longa pausa na virada do ano, ampliada pela greve dos jogadores no país, ameaçava a soberania xeneize. Mas a equipe manteve o embalo no retorno da competição, com quatro vitórias em cinco rodadas. A desconfiança aconteceu mesmo de abril a maio, em sequência ruim que incluiu a derrota para o River Plate na Bombonera. Todavia, o baque acordou o elenco boquense, enquanto os rivais passaram a derrapar. Desde então, os líderes buscaram triunfos vitais sobre Newell’s Old Boys e Independiente. Na rodada passada, golearam o Aldosivi na visita a Mar del Plata. E selaram a conquista nesta terça, na frente da televisão.

Tevez possui sua parcela de contribuição no título, sobretudo por aquilo que fez no Superclássico, mas há outros tantos protagonistas. Reforço de peso para a Libertadores passada, Darío Benedetto mostrou a que veio. O centroavante manteve a sede de gols, além de acumular pinturas, combinando oportunismo e técnica. Foram 18 tentos em 23 aparições, deslanchando na segunda metade da campanha. Teve ajuda de outros nomes importantes na linha de frente, como o promissor Cristian Pavón e o renascido Ricardo Centurión. Já no banco de reservas, Walter Bou se colocou como um digno substituto, essencial na sequência de clássicos.

Ainda que o físico seja um problema recorrente, Fernando Gago ofereceu sua liderança ao meio de campo. Rodrigo Betancur confirmou sua qualidade, embora não tenha sido tão preponderante, antes de seguir à Juventus. O veterano Pablo Pérez serviu de motor em vários momentos, enquanto o colombiano Wilmar Barrios acertou a marcação e despontou como um excelente reforço, após chegar sem tanta repercussão do Deportes Tolima. Por fim, a linha defensiva sofreu suas críticas em vários momentos, mas ganhou solidez nas últimas semanas. Gino Peruzzi, Santiago Vergini, Juan Insaurralde e Frank Fabra formaram a base do setor.

mellizos

No banco de reservas, Guillermo Barros Schelotto se confirmou como um técnico de ponta. Auxiliado pelo irmão Gustavo, o ‘Mellizo’ já tinha desfrutado de grande sucesso em sua passagem pelo Lanús, quando faturou a Copa Sul-Americana de 2013. Desta vez, o desafio e a cobrança eram muito maiores, especialmente após a saída conturbada de Rodolfo Arruabarrena. O início não foi tão simples, especialmente pela eliminação na Libertadores. Contudo, o comandante tem grande contribuição. Bancou nomes criticados e ofereceu variações táticas à equipe, ofensiva. As míseras três derrotas na campanha sublinham a excelência.

Com o título, o Boca Juniors adiciona mais uma estrela ao seu escudo e chega às 32 taças no Campeonato Argentino, apenas quatro a menos que o River Plate. Mais importante, de qualquer forma, é o retorno à próxima edição da Copa Libertadores da América. Após um ano de ausência nas competições continentais, os xeneizes podem dar força ao seu projeto de reconquista continental. Esperanças que renascem em um momento sugestivo, justamente no dia em que o clube relembra os 10 anos de sua última taça, em noite magistral de Juan Román Riquelme. Memórias que se misturam à euforia do presente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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