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Quando Riquelme voltou aos seus para subir aos céus: As finais da Libertadores de 2007

Juan Román Riquelme. Um nome e a grandeza continental construída pelo Boca Juniors na última década se explica bastante. Os xeneizes firmaram sua dinastia contando com excelentes times, grandes técnicos, jogadores históricos. Todavia, em meio a tantos craques, o talento do camisa 10 ainda se sobressai. Tem um brilho particular, especial, único. Durante o bicampeonato em 2000 e 2001, o jovem maestro orquestrou a equipe de Carlos Bianchi, cheia de nomes tarimbados, à reconquista da América após quase duas décadas. Do outro lado do Atlântico, apenas acompanhou a glória em 2003. Mas retornaria. Voltaria justamente para ser o artífice do sexto título do clube na Libertadores. O ápice de uma lenda, que completa 10 anos nesta terça.

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A vida de Riquelme na Europa foi repleta de altos e baixos. Viveu grandes momentos em 2006, quando estrelou o Villarreal à semifinal da Liga dos Campeões e disputou a Copa do Mundo como protagonista da Argentina. Contudo, os meses seguintes novamente não foram felizes para o camisa 10. Sentia falta de sua casa, de sua gente. Do clube onde experimentou e proporcionou tantas alegrias. Assim, retornaria ao Boca Juniors no início de 2007, em empréstimo de quatro meses. Ficaria justamente para a disputa da Copa Libertadores, o torneio que compreendeu como poucos. Que jogou como pouquíssimos. E que honrará para sempre.

Ao longo da campanha, Riquelme colecionou atuações fantásticas. O Boca Juniors precisou se superar desde a primeira fase, quando enfrentou três adversários na altitude e sequer pôde atuar na Bombonera, suspensa. Avançou com dificuldades, na segunda colocação. Todavia, se Román cunharia em 2012 a frase “a Libertadores começa nos mata-matas”, certamente a experiência de 2007 teve grande peso em sua opinião. Primeiro, liderou os xeneizes no duelo local contra o Vélez Sarsfield, encaminhando a classificação graças a uma impecável vitória por 3 a 0 na volta à Bombonera. Diante de um forte Libertad, o camisa 10 arrebentou fora de casa. E nem a densa neblina em Buenos Aires impediu os portenhos de defenestrarem o Cúcuta na semifinal, revertendo com um 3 a 0 a derrota por 3 a 1 na Colômbia.

A decisão seria contra um renascido e embalado Grêmio, tentando se reafirmar no cenário continental após passar suas maiores penúrias. Os tricolores, entretanto, foram meros figurantes do espetáculo oferecido por Riquelme. Uma das maiores exibições individuais das finais da Libertadores em todos os tempos. No primeiro jogo, a Bombonera veio abaixo para reverenciar o seu grande ídolo. O meia simplesmente acabou com o duelo, participando diretamente dos três tentos xeneizes. Criou o primeiro em um lançamento, anotou o segundo em um chute de fora da área e ainda gerou o rebote no qual nasceu o terceiro, depois de lindo lance individual. Não havia o que abalasse a confiança dos argentinos. Não havia quem parasse Riquelme.

No reencontro em Porto Alegre, a torcida gremista tentou ressuscitar seu time. Fez uma festa belíssima no Olímpico, com um recebimento inesquecível na entrada dos times. O convidado de honra, contudo, vestia outra camisa. Riquelme jogou como quis naquele 20 de junho. Seguindo sua cartilha, não correu atrás da bola, e sim fez com que a partida girasse ao seu redor. Estava sempre no lugar certo para dar um toque de classe, para deixar o Boca mais próximo do gol. Ficou um tempo desaparecido entre o final da primeira etapa e o começo da segunda. Quando voltou a chamar a responsabilidade, decidiu.

O primeiro gol é de uma facilidade assombrosa, daquelas que provocam nos mais ingênuos a sensação de que o futebol é fácil, é apenas querer para fazer. Esperou a bola no lugar exato, à paisana na entrada da área. O transeunte se transformou no craque, ao dominar e logo soltar o balaço no ângulo, abrindo o placar. Sequer pareceu se esforçar. E depois, em um contra-ataque, serviria e seria servido, estufando as redes mais uma vez. Tinha que ser dele, o dono da noite e do campeonato. No agregado, 5 a 0 para os xeneizes. Cinco gols com a contribuição de Román.

“Foi o melhor Riquelme que vi. Tive a sorte de poder comandá-lo e também ajudá-lo. A maneira como atuamos, com Banega na proteção, fez com que ele se sentisse mais cômodo. Era uma equipe que ia adiante, a mais ofensiva que dirigi”, avalia o técnico Miguel Ángel Russo, dez anos depois, em entrevista ao Olé. “Foi a maior diferença global em uma decisão de Libertadores. Foi abismal a nossa vantagem no jogo e no placar”. Timaço que contava com Palermo, Palacio, Neri Cardozo, Banega, Ledesma, Ibarra. E, óbvio, Riquelme.

Aquele título se colocava como um presente de Riquelme em seu breve retorno à Bombonera. Afinal, logo teria que se reintegrar ao Villarreal para a temporada seguinte. História que tomou um rumo diferente. Sem clima no Madrigal, o camisa 10 acertou a sua permanência em definitivo no Boca Juniors. Passaria outros sete anos de idolatria junto aos seus. A conquista da Libertadores não se repetiria. Ainda assim, o que aconteceu naquelas noites de 2007 já valeu por uma eternidade. Para a exaltação eterna dos xeneizes a um gênio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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