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Ortigoza, o herói da Libertadores com aparência de tiozão da pelada

Você olha para Néstor Ortigoza, e a aparência não é muito a de um atleta. A barriga é avantajada, a coluna parece um pouco arqueada, os dentes estão para fora, o rosto é daqueles que se veem na esquina de um bairro qualquer de Buenos Aires. No máximo, se sugere um craque da várzea, não um jogador renomado em tempos de tanta força física. Pois o argentino é bem mais que isso. É um ídolo do San Lorenzo. O herói na conquista da tão sonhada Libertadores do clube, ao anotar o gol decisivo sobre o Nacional. Não poderia ser mais peculiar, em uma competição em que o óbvio esteve longe de imperar.

Ortigoza participou de toda a transformação recente vivida pelo Ciclón. Chegou a Boedo em 2011, antes que Matías Lammens assumisse a presidência do clube. Viu todo o investimento feito pelo clube nos últimos anos, embora tenha passado parte do tempo emprestado ao futebol árabe. Ao menos voltou a tempo para participar das grandes glórias dos cuervos. Foi peça fundamental na conquista do Torneio Inicial de 2013. E continuou como protagonista na Libertadores, recebendo até mesmo o prêmio de melhor da final.

O San Lorenzo pode não ser dos times mais brilhantes. Porém, foi o mais eficiente na competição continental. E essa virtude passa muito pelos pés de Juan Ignacio Mercier e Néstor Ortigoza. Os dois volantes são os grandes responsáveis manter a equipe de Edgardo Bauza tão protegida, ao mesmo tempo em que ditam o ritmo de um Ciclón sempre à espreita para o bote. Durante a primeira fase, parecia não ser suficiente para o sucesso na competição. Mas valeu quando o clube mais precisava, nos mata-matas, quando foi impecável.

Em meados deste ano, Ortigoza mal sabia se seguiria no San Lorenzo. Não se sentia valorizado pela presidência, por conta das dificuldades em renovar o seu contrato. Ficou para ter o peso de responsabilidade de cobrar o pênalti no parelho jogo contra o Nacional. Outra vez, os argentinos foram melhores em campo, mas os paraguaios poderiam surpreender em um lance, como em Assunção. Quando veio o fardo, o meio-campista o segurou. E nem o sentiu, como um qualquer alheio à toda pressão que corria a veia de sua fanática torcida.

Ao final do jogo, Ortigoza comemorou sobre o travessão. Girava uma camisa azul e grená, mas não a que vestiu no jogo, sem mostrar o porte físico de um homem comum. Que não faça muito mais em seus próximos anos de carreira, o paraguaio naturalizado de 30 anos já fez muito. Ajudou a quebrar o jejum continental mais sentido na Argentina. E não precisou de músculos para isso. Porque o futebol é feito principalmente de cérebro, coração e, principalmente, bola nos pés. Nada que uma barriguinha a mais possa atrapalhar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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