Argentina

O estádio se tornou supermercado, mas a história de Sanfilippo nunca foi demolida

Durante mais de cinco décadas, o San Lorenzo amargou o quase. A chacota de todos os rivais argentinos, que já haviam conquistado as Américas, e se deliciavam com a virgindade do clube argentino mais antigo na Copa Libertadores. O jejum acabou-se em 2014, com o título inédito dos cuervos, sob a benção de Papa Francisco e dos milagres do time de Edgardo Bauza. Que não apagou o gosto das antigas participações dos cuervos na competição. O sabor final poderia não ser o mais doce, mas naquelas primeiras participações eles poderiam apreciar o futebol refinado de José Sanfilippo, que completa 80 anos nesta segunda.

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A lenda de Boedo não precisou da taça da Libertadores para se eternizar como o maior ídolo da história do San Lorenzo. Mesmo sem chegar ao topo do continente, derrotado de maneira mais dolorida no jogo de desempate contra o Peñarol nas semifinais de 1960, Sanfilippo colecionou feitos com a camisa azul e grená. Por quatro anos consecutivos foi o artilheiro do Campeonato Argentino, erguendo a taça em 1959. Após quase uma década de adoração, o atacante deixou o Gasómetro para rodar por outros clubes. Fez muitos gols também por Boca Juniors, Nacional de Montevidéu, Banfield, Bangu e Bahia. Voltou a tempo de se despedir em 1972, com mais dois títulos argentinos, na chamada “época dourada” do Ciclón.

A grandeza de Sanfilippo, no entanto, não pode ser medida pelos 207 gols, que ainda hoje o fazem o maior goleador da história do San Lorenzo. É mais singela. Vem na própria história do garoto que cresceu nas arquibancadas e encarnou a paixão dos cuervos. O apelido de “Nene” veio por causa do próprio pai, que se esgoelava na beira do campo para incentivar o menino que ganhava espaço nas categorias de base. No Viejo Gasómetro, deslumbrou gerações de torcedores do Ciclón. E, como muitos deles, tornou-se um saudoso do campo dos sonhos.

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O gol mais célebre de Sanfilippo aconteceu ao final de sua primeira passagem pelo clube, em 1962, contra o Boca Juniors. Tão lembrado porque o futebol tornou-se literatura graças a Eduardo Galeano. Aquele tento se tornou um capítulo de “Futebol ao Sol e à Sombra”, no dia em que o já veterano Nene retornou à velha cancha, demolida e transformada em um supermercado, para reencenar o seu golaço entre prateleiras e caixas. Nos 80 anos de Sanfilippo, aquele tento segue fazendo parte da memória coletiva da torcida do San Lorenzo, mesmo em meio a vidros de maionese e lâminas de barbear. Sob a esperança de que, em breve, ele ou outro possa comemorar o golaço no “novo” Viejo Gasómetro – a verdadeira casa do Ciclón, hoje limitada às lembranças.

Gol de Sanfilippo

Querido Eduardo:

Te conto que dia desses estive no supermercado Carrefour, onde antigamente era o campo do San Lorenzo. Fui com José Sanfilippo, o herói da minha infância, que foi goleador do San Lorenzo quatro temporadas seguidas. Caminhamos entre as prateleiras, rodeados de caçarolas, queijos e résteas de linguiça. De repente, quando nos aproximamos das caixas, Sanfilippo abre os braços e me diz: “E pensar que bem daqui meti um gol de bate-pronto no Roma, naquela partida contra o Boca…”. Passa diante de uma gorda que arrasta um carrinho cheio de latas, bifes e verduras, e diz: “Foi o gol mais rápido da história”.

Concentrado, como esperando um corner, ele me conta: “Eu disse ao número cinco, que estreava: assim que começar a partida, manda a bola para a área. Não se preocupe, que não vou te deixar mal. Eu era mais velho e o rapaz, que se chamava Capdevilla, se assustou, pensou: se eu não obedecer, estou frito”. E aí, de repente, Sanfilippo me mostra a pilha de vidros de maionese e grita: “Ele colocou a bola bem aqui!”. As pessoas nos olham, assustadas. “A bola caiu atrás dos zagueiros centrais, atropelei, mas ela foi um pouco para lá, ali onde está o arroz, viu só?” – e me mostra a estante de baixo, de repente corre como um coelho apesar do terno azul e dos sapatos lustrosos: “Deixei-a quicar, e plum!”. Dispara com a esquerda. Nos viramos, todos, para olhar na direção da caixa, onde há trinta e tantos anos estava o gol, e parece a todos nós que a bola entra por cima, justamente onde estão as pilhas para rádio e as lâminas de barbear. Sanfilippo levanta os braços para festejar. Os fregueses e as caixas quase arrebentam as mãos de tanto aplaudir. Quase comecei a chorar. O Nene Sanfilippo tinha feito de novo aquele gol de 1962, só para que eu pudesse vê-lo.

Osvaldo Soriano

Para conhecer a biografia completa de Sanfilippo, vale conferir também o excelente apanhado feito pelos amigos do Futebol Portenho.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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