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Marcelo Bielsa é o técnico certo pelos motivos errados

Marcelo Bielsa é o Felipão da vez. O Luxemburgo da vez. Com uma diferença: ao contrário dos outros, o argentino, sinônimo máximo de sofisticação e intenções grandiosas, até aqui não foi seduzido por nenhum clube brasileiro. Eu, pessoalmente, duvido que seja por algum, pelo menos pelos que o têm procurado. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é: por que, meu Deus do céu, de uma hora para outra, a moda deixou de ser tomate seco, abacaxi com raspa de limão e passou a ser Marcelo Bielsa?

Desde que deixou o Athletic, no final do primeiro semestre, o argentino já foi “assuntado” por Santos e Palmeiras. Não é difícil entender os por quês. Em primeiro lugar, Bielsa é grife. É grife e as pessoas conseguem não achar ridículo falar em contratá-lo – ninguém teria coragem de anunciar que o Palmeiras quer José Mourinho ou Arséne Wenger. Além disso, Bielsa tem fama de “ofensivista”, de fazer seus times jogarem um futebol “bonito” e “para frente” E quando se trata de enganar o torcedor brasileiro, um ar de sofisticação “gringo” só tem um rival: a promessa de futebol “bonito”, o que quer que isso possa significar.

Ao que parece, entretanto, ninguém se deu ao trabalho de analisar a carreira do argentino para ver se ele se encaixaria em algum dos times que o corteja. Mesmo quando contratam “grifes” como Felipão ou mesmo Leão, os times brasileiros pelo menos sabiam atrás do que estavam indo. No caso de Bielsa, alguém sabe?

Não me interpretem mal, sou fã de Bielsa. O problema é que o que eu gosto nele é justamente o que deveria afastar qualquer cartola: o cara não está nem aí para o resultado. Pensa em implantar um modelo, e se esse modelo levar a goleadas históricas – contra -, azar. Como torcedor, principalmente porque não é no meu time, eu curto. Como cartola, eu teria receios.

Teria receios de ver meu time fazer o que fez a Argentina na Copa de 2002, só para começar. Do que fez a mesma Argentina na final da Copa América de 2004, aquele jogo do Adriano, lembra? Pois é. Teria receio ao lembrar todos os Brasil x Chile nos quais ele dirigiu os chilenos. Ao constatar que, grife por grife, Bielsa até hoje conquistou exatos três títulos nacionais, o último deles em 1998. E teria um grande receio ao perceber que, mesmo ganhando, o argentino jamais passou muitos anos no mesmo trabalho.

Aí você vai ver quais são os clubes que se mexeram para contratá-lo. Não foram Flamengo, Fluminense, Corinthians, São Paulo, Inter, Grêmio, enfim, nenhum dos nossos “milionários”. Também não foi o Atlético Mineiro, campeão da América, nem o Cruzeiro, campeão brasileiro. Foram o Santos, time que tem a segunda maior torcida da cidade de Santos, e o dinheiro equivalente a isso, e o Palmeiras, equipe que, ao que eu me recorde, disputa a segunda divisão do futebol brasileiro e não tem nenhuma chance de disputar a Libertadores no ano que vem.

Vamos pegar leve com o Santos por dois motivos: o time precisava dar um sinal ao mundo de que pretendia, mesmo sem Neymar, continuar “pensando grande”, por mais ridículo que isso fosse; e o Santos pelo menos tinha dinheiro. Mas, e o Palmeiras?

O Palmeiras não tem dinheiro, o Palmeiras não ganha nada demais desde o século passado e, desde então, já esteve duas vezes na segunda divisão. Durante esse período, teve TODOS os técnicos estrelados do Brasil: Luxa, Felipão, Muricy. Nenhum deu jeito. Se Luxa hoje não daria jeito nem no time de pelada da F451, Felipão ainda tem uma lenha para queimar, como demonstra na seleção, e Muricy, depois de sair do Palmeiras, foi campeão brasileiro, da Libertadores e promoveu a reviravolta que promoveu no São Paulo.

Ainda assim, o Palmeiras continua achando que nome de técnico pode resolver problema, e olha que a gestão do clube mudou quase tanto quanto o técnico nos últimos anos.

É fácil elogiar o que parece “irresponsavelmente bonito”. O Athletic de Bielsa era um time que dava gosto jogar, e, se não ganhou mais, é porque não tinha mesmo tamanho para ganhar. As condições objetivas para um bom trabalho, porém, estavam lá, e, entre elas, a falta de qualquer expectativa de título era uma das mais importantes. O exato contrário do Palmeiras, que pode não saber direito o que quer, mas quer ganhar. Sua torcida quer títulos.

Se o Palmeiras quer fazer uma declaração de princípios, que compre jogadores decentes, jogadores de primeira divisão. Se quer ser levado a sério, que se leve a sério, que pare de se comportar como o baixinho que chama todo mundo para a porrada para se sentir maior.

E se alguém quer contratar Bielsa no Brasil, que o faça. Mas que lhe dê tempo e condições para trabalhar. Eu adoraria ver. Claro que não no meu time.

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