Argentina

Diego Milito, o adeus do Cilindro e uma enorme lição sobre as vontades que regem a vida

A imagem, por si, já possui enorme significado. O garoto que usa a muleta como companheira de vida, diante da falta de uma perna, emprestou-a a um amigo. A partir daquele momento, os cilindros metálicos auxiliavam não mais uma luta diária, e sim a paixão pelo futebol. Equilibrando-se, os pequenos torcedores acompanhavam a festa que tomava o gramado. Amizade, vontade e fervor exalando em uma cena capaz de provocar múltiplas sensações.

No entanto, aquele não era um dia qualquer para Santi Fretes, menino conhecido em Avellaneda, que não se furta a bater sua bola nas quadras pintadas na geral do Cilindro. Nem para ele e nem para a nação de racinguistas. Todos se sentiram um pouco como aquele garoto, esforçando-se para oferecer um pouco de devoção no adeus de um dos maiores ídolos. Afinal, Diego Milito sempre foi um deles. E assim também agiu quando resolveu voltar ao Racing do alto de seus 35 anos. Para doar suas forças em busca de um sonho, vivido coletivamente em La Academia.

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Se quisesse se aposentar em 2014, aos 35 anos, Milito já estaria eternizado para o futebol. Ainda jovem, surgiu nas categorias de base do Racing em um momento duríssimo, no qual o clube se reerguia da crise que quase culminou em sua falência. Pois o jovem incorporou o espírito do renascimento racinguista, fazendo parte do elenco que reconquistou o Campeonato Argentino após um hiato de 35 anos. Seu sucesso se tornaria crescente. E sua venda, ainda mais em um momento financeiro delicado, era inevitável. Na Europa, Milito ganhou a adoração das torcidas do Genoa e do Zaragoza. Antes de se tornar um gigante pela Internazionale. Seus gols permitiram não só títulos nacionais, mas também a vitória na final da Champions de 2010. Despediu-se de Milão como lenda. Mas sentia que sua missão não estava cumprida. Restava um capítulo a se escrever. O mais apaixonado de todos.

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A gratidão da torcida do Racing, naquele momento, se referia apenas à atitude de Milito. O artilheiro quis voltar a sua casa. Desejou sentir aquela vibração novamente. Abriu mão do dinheiro para isso, aceitando apenas um salário simbólico. E, considerando a idade do veterano, nem se exigia tanto. Alguns gols decisivos já teriam satisfeito os albicelestes, algumas vitórias sobre o rival Independiente. Milito, todavia, voltou sabendo o tamanho da paixão racinguista. O que já seria suficiente a motivá-lo para reviver as grandes glórias do Cilindro. A encabeçar novas noites inesquecíveis.

Logo em sua primeira temporada, Milito recolocou o Racing no topo da Argentina, encerrando uma espera de 13 anos. Provocou uma convulsão em lágrimas, de alegria e orgulho, em Avellaneda. Que não fosse mais o centroavante decisivo de outrora, seguia um artilheiro de técnica muito acima da média. E responsável por gols decisivos. Ofereceu experiência para moldar um campeão. Para fazer os albicelestes terem certeza de que estavam diante de um dos maiores nomes de sua história. Para cumprir sua vontade a partir de seus sacrifícios.

Que não tenha valido a vitória, o gol contra o Independiente no Estádio Libertadores da América encarnou a gana de Milito por vestir a camisa do Racing. O camisa 22 comemorou de maneira explosiva, berrando diante das arquibancadas vermelhas. Beijando o escudo racinguista, ignorando os rolos de papel que eram atirados contra a sua direção. Aquele tento, ainda na quinta rodada da campanha do título, motivou o apoio incondicional dos Albicelestes ao craque regresso. E fez os Rojos se contorcerem de raiva.

Nos meses seguintes, Diego Milito não voltou a erguer taças. Mas também não poupou esforços pelo Racing. Auxiliou, inclusive, na conquista da vaga à Libertadores de 2016 contra o próprio Independente, batendo os rivais na Liguilla. O torneio continental, por fim, se colocou como a última ambição do veterano. Sem as melhores condições físicas, o camisa 22 pouco pôde fazer. Mas terminou sua trajetória em pé, até se despedir dos albicelestes sábado, diante do menino Santi Fretes e de outros 55 mil presentes no Cilindro. Seu último jogo em casa, por mais que ainda tenha o compromisso derradeiro nesta semana, pela Copa Argentina.

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A noite incrível começou desde a recepção de Milito ao gramado, com os jogadores em guarda de honra e as arquibancadas tremendo. Continuou perfeita logo nos instantes iniciais do primeiro tempo, quando o artilheiro abriu o placar na vitória por 2 a 0 sobre o Temperley, cobrando pênalti, e até perdeu outro chute na marca da cal, com Óscar Romero completando no rebote. Já um dos ápices se seguiu aos 22 minutos, em referência ao número do centroavante. Fogos de artifício queimavam nos céus de Avellaneda, acompanhados pelos cânticos da torcida e pela chuva branca formada por fumaça e papéis picados. O ídolo permaneceu em campo até o apito final. Quando, enfim, Milito não conteve as lágrimas no estádio onde só se via as luzes dos celulares e o bandeirão com seu rosto.

“Está claro que sempre se sonha com uma boa carreira. Sou um sortudo. Fiz uma carreira linda, me sacrifiquei muito e a encerro na minha casa, como queria. É o sonho que sempre tive”, declarou. “É algo muito forte o que estou vivendo. Voltar para me despedir do futebol no Racing foi um sonho muito especial que pude cumprir. Estou tranquilo, em paz e contente, porque me retirei com a camisa que amo. Gostaria de abraçar um por um que está aqui. Estou quase sem dormir, foi um dia inesquecível, especial. Eu estava muito cansado. Foi difícil de jogar, pelo físico, pelo emocional, não pude me abster por nenhum momento. Tentei não me emocionar, mas não pude, diante de tantas mostras de afeto”.

O cansaço de Milito, aliás, não era sem motivo. Na madrugada anterior, o atacante deixou a concentração às pressas para visitar o hospital. Para desfrutar a alegria de ser pai pela terceira vez, com o nascimento da filha Morena. Mais uma racinguista no mundo. Uma vida nova, justamente em um momento tão importante para o jogador. Se não poderá mais gastar suas energias em campo no Cilindro, poderá se dedicar à criação da menina. Esperança e alegria em momento tão oportuno.

Quanto aos torcedores do Racing, nunca ficarão órfãos de Diego Milito. Sabem o quanto devem agradecer ao ídolo por tudo o que construiu no clube. O veterano não quis nada em troca para iniciar uma nova etapa em Avellaneda. Sem receber fortunas, deixa enorme herança não só a um time que voltou a brigar por títulos na Argentina e reapareceu no cenário continental, como também reacendeu as alegrias de sua torcida. Aliás, não dá para dizer que Milito jogou de graça. Não há pagamento mais valoroso no futebol do que o amor de uma massa inteira de torcedores. Uma multidão na qual, como sempre quis, o artilheiro é mais um, mas também único.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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