Argentina

Boca Juniors, 110 anos: o “12º jogador” existiu de verdade, e foi o primeiro fanático xeneize

O Boca Juniors possui uma coleção fabulosa de taças, principalmente internacionais, e contou com algumas das maiores lendas do futebol argentino– incluindo a maior delas, Maradona. No entanto, se alguém quiser pegar apenas um traço para definir a grandeza xeneize, não deverá recorrer à sala de troféus ou aos craques que vestiram azul y oro. O maior patrimônio boquense está nas arquibancadas. A torcida apaixonadíssima, que faz temer La Bombonera a cada partida. Que se multiplicou desde o nascimento do clube, há exatos 110 anos, para se tornar a maior da Argentina e uma das mais fanáticas do mundo.

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O surgimento do Boca Juniors aconteceu no seio do povo. Pelas mãos de estudantes, em um bairro portuário, proletário e repleto de imigrantes. Não demorou para que o novo time conquistasse a vizinhança. Era o seu verdadeiro combustível em tempos de amadorismo, no qual os xeneizes dependiam mais da solidariedade do que propriamente do dinheiro. E, assim, a camisa foi ganhando peso.

Um dos momentos mais marcantes da história xeneize aconteceu em 1925, quando o clube explodiu como um fenômeno popular. Após os Jogos Olímpicos de 1924, a AFA decidiu enviar uma equipe à Europa, para aproveitar o impacto dos uruguaios no continente. E o Boca Juniors se ofereceu para representar o país na turnê, que passaria por três países. O time contou com o apoio financeiro de três empresários e de um ilustre torcedor, que viajou junto com o elenco para apoiá-lo nas partidas. Victoriano Caffarena, o “jogador número 12” original.

Caffarena é o último agachado, da esquerda para a direita
Caffarena é o último agachado, da esquerda para a direita

Se a expressão atualmente é utilizada em todo o mundo, e batiza também a principal barra brava xeneize, ela nasceu a partir da dedicação de Caffarena. Neto de um imigrante genovês, o garoto nasceu em La Boca. Tinha apenas três anos quando o clube foi fundado, crescendo junto com a sua maior paixão. Já seu pai era um homem importante no bairro, professor e escrivão, que chegou a criar bibliotecas na região – e atualmente batiza uma escola e uma rua nas imediações da Bombonera.

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Aos 22 anos, Caffarena se aproveitou a boa situação financeira da família para acompanhar o time. A contragosto de seu pai, que não aprovou a viagem por “só causa de futebol”, mas acabou arcando parte dos custos de seu herdeiro. “Meu velho era um tipo muito especial e apaixonado pelo Boca. Ele bancou parte da turnê. As posses da família permitiam e ele, que estava estudando para ser escrivão e trabalhava, também tinha algum dinheiro guardado”, comentou o filho do torcedor, Agustín, em entrevista ao Olé.

Uma multidão se reuniu no porto de La Boca para se despedir. “Nunca se assistiu a uma ocorrência tão numerosa do que a de noite no porto. Voaram chapéus e lenços pelo ar”, escreveu o La Nación, na época. O time partia reforçado por cinco integrantes de outros clubes argentinos, além de Caffarena, dois dirigentes e um jornalista. De Buenos Aires, o Boca Juniors seguiu para Montevidéu, onde embarcou no Buque Formosa rumo à Espanha. Toto, como era apelidado, logo se enturmou com os jogadores – tanto que, tempos depois, se tornou compadre do atacante Antonio Cerotti. Durante os 22 dias de viagem atravessando o Atlântico, o escrivão passou a ser chamado de “jogador número 12” pelos próprios atletas.

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Toto não estava na Europa apenas para torcer. O xeneize se tornou uma espécie de faz-tudo para o clube: trabalhou como massagista, roupeiro e chefe de delegação. Ajudou no excelente desempenho do Boca Juniors. Em 19 partidas, a equipe venceu 15 e perdeu apenas três. Entre as vítimas, vários adversários de peso: Real Madrid (diante dos olhares do Rei Alfonso XIII), Atlético de Madrid, Espanyol, Deportivo, Eintracht Frankfurt. Além disso, foram 40 gols marcados e apenas 16 sofridos pelo boquenses. Na beira do campo, era possível notar solitário torcedor indo à loucura, gritando e sofrendo pelo azul y oro.

Caffarena é o segundo em pé, da esquerda para a direita
Caffarena é o segundo em pé, da esquerda para a direita

A volta a Buenos Aires aconteceu em julho de 1925, cinco meses depois da partida. O Boca Juniors foi recebido por centenas de pessoas no porto e ganhou até mesmo uma taça da federação argentina, a Copa de Honra. Já Caffarena se tornou bastante popular em La Boca, reconhecido como o torcedor xeneize mais célebre. “Era muito aberto, tinha muita personalidade e era carismático. Fazia muitas brincadeiras com quem quer que fosse”, complementa Agustín.

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As contribuições do Camisa 12, aliás, não pararam na viagem. Ele cuidou da composição do hino do Boca, convidando Ítalo Goyeneche e Fernández Blanco para criarem a música. Também assumiu uma posição de liderança no bairro, presidindo o grupo Amigos de la República de La Boca. No clube, Caffarena tinha um crachá de massagista para entrar no vestiário durante os jogos como visitante, enquanto mantinha um lugar cativo no estádio para os duelos em casa. De tão fanático, ele mesmo tratava de monitorar a alimentação dos jogadores e suas horas de sono.

Em 1955, aconteceu o maior reconhecimento a Victoriano Caffarena. Para comemorar os 30 anos da excursão, o Boca resolveu homenagear os jogadores presentes naquela viagem. Não deixou de se lembrar também do xeneize, que recebeu uma placa oficial com a alcunha de “12º jogador”. Em 1972, Toto faleceu aos 70 anos, deixando um exemplo e dedicação. Por mais que La Doce seja atualmente relacionada à violência e a relações criminosas, “El Doce” transcende a barra brava. É o seu espírito que se nota a cada vez que a Bombonera treme quando aconteceu um gol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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