Argentina

A lenda argentina de quando Perfumo chutou o peito de um jovem Maradona

Maradona carregava a bola, e depois de ziguezaguear entre os marcadores do River Plate, viu-se de frente com Roberto Perfumo, o Marechal. Perfumo, um dos maiores zagueiros que o futebol argentino já viu, não era conhecido pela sua sutileza e desferiu um chute no peito de Maradona, que voou “50 metros” para trás. Foi em direção à jovem promessa que despontava no Argentino Juniors e disse: “Tem certeza que não se machucou, bebê?”. Maradona respondeu: “Sim, Roberto. E o seu pé, está doendo?”.

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Acontece que Perfumo já tinha Maradona debaixo do seu radar antes mesmo da partida. Conta-se que ele perguntou se “aquele pibe” jogava bem ao companheiro Reinaldo Merlo, a enciclopédia do River Plate, possuidor de informações sobre todos os jogadores, do próprio time e dos rivais. “Sim, Roberto, serve” foi a resposta. O ex-zagueiro, anos depois, explicou que quando Merlo dizia “serve” sobre um jogador, era nível Zidane. Por isso, respondeu ao colega: “Bom, terei que lhe dar um ‘estatequieto’”. Ou seja, dar uma entrada mais dura para Maradona ficar esperto e perceber contra quem está jogando.

O causo sobre Perfumo, que morreu na última quarta-feira aos 73 anos, é maravilhoso e seria ainda mais se fosse realmente verdade. Apesar de Maradona contar a história às gargalhadas e com detalhes que atestariam a sua veracidade, e Perfumo tê-la confirmado e aprimorado, depois de negá-la na primeira vez em que falou no assunto, os registros históricos não a corroboram.

A imprensa argentina foi tentar encontrar essa partida e não conseguiu. Achou apenas dois confrontos do River Plate contra o Argentino Juniors no curto período entre o final de 1976, quando Maradona estreou, e 1978, data da aposentadoria de Perfumo. Em nenhum deles os dois estiveram em campo. Ao jornal Clarín, o historiador do Juniors confirmou que os dois craques nunca se enfrentaram em partidas oficiais e que não houve amistosos entre os dois clubes nessa época.

Talvez Maradona tenha confundido Perfumo com outro marcador, ou talvez tenha apenas usado a fama de dar umas botinadas que o colega tinha para, usando suas qualidades excepcionais de contador de histórias, criar uma anedota engraçada.

O próprio Perfumo contava uma. Estava na praia, em Mar Del Plata, parado e distraído, com o pé em cima de uma bola de plástico. Sua mulher apareceu por trás e deu um chute na redonda. Instintivamente, por reflexo, Perfumo girou “em um décimo de segundo” e acertou a moça com um chute e uma cotovelada, como se ela fosse um implacável atacante do Boca Juniors, durante um Superclássico acirrado, debaixo de uma tempestade e entre poças de lama.

Lendas que fazem parte de uma ainda maior, que foi a carreira e a vida de Roberto Perfumo, ambas encerradas na queda de uma escada, em um restaurante, na última quarta-feira. Ele marcou história no Racing, pelo qual foi campeão da Libertadores, no Cruzeiro, tricampeão mineiro na década de setenta, e no River Plate. Ainda disputou duas Copas do Mundo pela seleção argentina. Sem dúvidas, um gigante do futebol mundial.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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