América do Sul

Apenas agora o Colo-Colo tirou de Pinochet o título de presidente honorário do clube

Entre 1973 e 1990, o Chile viveu um período de muita repressão e violência sob o regime de Augusto Pinochet. A ligação mais evidente do ditador com o futebol foi a utilização do Estádio Nacional do Chile para a prisão e tortura de opositores do regime, mas sua ligação com o Colo-Colo também foi uma forma de relação que o general estabeleceu com o esporte. Relação essa encerrada apenas neste sábado, durante uma assembleia geral dos sócios do clube.

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Em reunião considerada histórica pelos torcedores, centenas de sócios estiveram presentes no Estádio Monumental para debater uma série de temas relacionados à administração do clube, o principal deles sendo a exclusão da categoria de presidente de honra na instituição. O assunto gerou bastante interesse desde março, com um abaixo-assinado criado no site www.FueraPinochet.cl. Na assembleia, a maioria votou pela eliminação da categoria, com apenas dez votos contrários.

Atual presidente do Colo-Colo, Fernando Monsalve defendeu a instituição e negou que Pinochet fosse de fato presidente honorário. Mas a hesitação nas palavras coloca em xeque a veracidade de sua versão, sobretudo pelo próprio empenho dos torcedores na questão. “O ditador Pinochet jamais foi sócio honorário, muito menos presidente honorário, do Colo Colo, porque os estatutos do clube jamais contemplaram essa figura.  Mas se alguém, em algum momento, teve a ideia de designá-lo como pertencente ou próximo ao clube, a assembleia de sócios deste sábado, 30 de maio, que defino como histórica, pela quantidade de participantes, decidiu por maioria absoluta declarar que o ex-governante de fato nada teve ou tem a ver com nossa instituição”, afirmou o dirigente.

Segundo o Colo-Colo Para Todos, Pinochet teria recebido a designação em 1984. A ligação do general com o clube, aliás, vai além, com o ditador tendo oferecido ao clube dinheiro para a conclusão das obras do Estádio Monumental dias antes do plebiscito em que o povo chileno decidiu pelo fim do regime militar, em 1988. Embora a versão do Colo-Colo seja de que o próprio clube bancou a reta final da construção, o neto do general, Augusto Pinochet Molina, revelou em março deste ano que seu avô foi fundamental para a finalização dos trabalhos. “A ideia é sempre manter a polêmica viva, lhes convém. Sobretudo quando há turbulência política. Já é um reflexo condicionado. Mas há um antecedente: o Estádio Monumental não teria sido possível sem o aporte (financeiro) de meu avô”, contou o neto do ditador, em entrevista ao jornal HoyxHoy.

É difícil cravar as motivações completas por trás da decisão deste sábado, mas certamente há elementos da tentativa do clube de desassociar sua imagem da de Pinochet. Entre os rivais, conseguir fazer isso parece missão impossível. Até hoje torcedores de La U, por exemplo, chamam a casa dos Caciques de “estádio do Pinochet”. No entanto, isso não anula a constatação de que devia ser incômodo demais para muitos dos próprios torcedores do Colo-Colo ter seu clube ligado de qualquer maneira que seja a um ditador que causou terror a alguns de seus amigos e familiares. O desligamento deveria ter acontecido há muito tempo, com o ex-general ainda em vida, é verdade, mas a maneira como a torcida comemorou a decisão mostra a importância do tema mesmo após tanto tempo. “Antes tarde do que nunca” é um clichê que vale, e muito, nesse caso.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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