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O timaço da Colômbia dos anos 1980/1990 nasceu com uma vitória sobre a Argentina, e seis anos antes dos 5 a 0

Em 1987, o grande time da Colômbia, estrelada por Valderrama, desabrochava com uma vitória sobre a Argentina dentro do Monumental pela Copa América

* Texto publicado originalmente em junho de 2015

O encontro de Argentina e Colômbia remete a várias partidas que se tornaram clássicos. A mais lembrada, com motivos, é a goleada dos Cafeteros por 5 a 0 pelas Eliminatórias, que quase tirou a Albiceleste da Copa de 1994. Já pela Copa América, há a célebre noite dos três pênaltis perdidos por Palermo em 1999, assim como a escandalosa goleada da máquina argentina em 1945 por 9 a 1. Um jogo nem tão celebrado, contudo, permanece especial. Embora contemporâneos, Maradona e Valderrama só se enfrentaram uma vez com suas seleções. Em 1987, os maiores camisas 10 de seus países se cruzaram na decisão do terceiro lugar da Copa América. Ocasião marcante para a carreira do Pibe colombiano, assim como para o nascimento do melhor time da história da Colômbia.

Naquela competição, estava o embrião do grande time colombiano que se formou entre as décadas de 1980 e 1990. Francisco Maturana, ex-zagueiro que havia se tornado dentista ao fim da carreira, tinha começado a trabalhar como técnico no ano anterior e assumiu a seleção semanas antes, ao mesmo tempo em que treinava o Atlético Nacional. A partir daquele momento, começava a implantar o jogo ofensivo e de toque de bola – segundo suas próprias palavras, inspirado na alegria do povo colombiano. Deixava para trás a imagem de saco de pancadas que os Cafeteros tinham até então. E possuía como principal arquiteto Carlos Valderrama, que começava a estourar no Deportivo Cali. Ao lado do jovem de cabeleira loura, outros talentos, como Higuita, Leonel Álvarez e Luis Carlos Perea.

A Colômbia, porém, era só mais um time naquela competição. Todas as atenções estavam concentradas na Argentina, por razões óbvias. A Albiceleste de Carlos Bilardo tinha acabado de conquistar o bicampeonato mundial, e contava com boa parte de seus protagonistas na competição. Especialmente porque Maradona, voando com a camisa do Napoli, estava em campo para buscar o título continental. E, mais incentivo ainda, os argentinos disputavam o torneio dentro de casa, o que aumentava ainda mais o favoritismo.

Ao lado de Caniggia, Maradona comandou a classificação da Argentina na primeira fase, mas o time caiu dentro do Monumental de Núñez lotado na semifinal contra o Uruguai. E, se a decepção estava do lado albiceleste, a surpresa vestia amarelo. A Colômbia passou em sua chave jogando fino contra Bolívia e Paraguai, graças à maestria de Valderrama, aos gols de Iguarán e à loucura de Higuita. Só que também caiu nas semifinais, perdendo para o Chile (que já havia eliminado o Brasil) na prorrogação. A decisão do terceiro lugar não era a ocasião mais nobre para o encontro de Valderrama e Maradona, com apenas 15 mil pessoas no Monumental. Mesmo assim, serviu para um dos craques fazer o seu nome.

A torcida argentina exigia uma goleada de Maradona, especialmente depois da queda precoce. Mas não contaram com tanto empenho de seu craque. O que se viu no camisa 10 do outro lado do campo. Gabriel Jaime Gómez acertou um chutaço para abrir o placar, em jogada que começou com Valderrama. E o Pibe ainda deu um passe magistral para Juan Jairo Galeano anotar 2 a 0 antes dos 30 minutos de jogo. No segundo tempo, a Argentina pressionou. Acertou a trave e parou em boas defesas de Caniggia. Todavia, Caniggia diminuiu somente nos minutos finais, em um gol que nem de longe tirou o orgulho dos Cafeteros.

Ao final daquela competição, Valderrama acabou eleito o melhor jogador, deixando Maradona a sua sombra. Acima disso, o resultado também serviu para aproximar a seleção colombiana de sua população. Os Cafeteros se apresentaram ao mundo na Copa de 1990, e alcançaram seu grande feito no mesmo Monumental de Núñez, seis anos depois, mas sem Maradona pela frente – os 5 a 0, aliás, é que condicionaram a volta do craque para a repescagem das Eliminatórias. O grande capítulo de uma história gloriosa que começou a ser escrita em 1987.

Abaixo, reproduzimos um trecho do texto “Quando a Colômbia venceu Maradona”, assinado por Alejandro Pino Calad no site da Gol Caracol, que traduz a importância histórica daquele momento para o futebol colombiano

Esse foi o ponto de início para gerar a relação de identidade total entre o colombiano e sua seleção. Pela primeira vez, se tinha um estilo de jogo próprio e do qual podia se sentir orgulho. O sistema de ídolos que se via interrompido tradicionalmente a cada convocação estava se consolidando, sob a sombra do melhor jogador da América, El Pibe, e um séquito de jogadores que exemplificavam os valores e regionalismos.

O simbolismo não estava apenas no tricolor que vestiam os jogadores da seleção, mas na representação nacional que cada região e grupo social sentia que estava chegando, e que se via refletido no discurso imposto por Maturana de criar e manter uma identidade e um estilo. E este estilo não era só futebolístico, mas também estético, como as cabeleiras deram um estilo próprio e inconfundível à equipe.

Além do mais, pela primeira vez em muito tempo, as crianças de uma geração, ao jogar bola nos campinhos de seu bairro, não pediam para ser Maradona, Pelé, Falcioni ou Cabañas. Jogavam para ser um colombiano, Iguarán, Valderrama ou Higuita. Mas, sobre tudo isso, pesou algo que sempre importou aos colombianos: a imagem do país. A seleção de Maturana na Copa América de 1987 surgiu em um dos momentos mais obscuros da história da Colômbia.

Todos os colombianos se sentiam acusados de narcotráfico no exterior e os massacres ocultavam as boas atuações de ciclistas e boxeadores. E, se bem que o futebol nunca havia ganhado nada, naquele momento o esporte mais popular do país tinha uma carta de apresentação para o mundo que acreditava que o país era do diabo. Os colombianos encontraram que os triunfos dos esportistas eram os triunfos do país e a única forma de sentir que tinham uma imagem positiva no mundo.

Havia nascido uma nova era, a melhor seleção colombiana da história, e tudo começou na Argentina.

https://www.youtube.com/watch?v=uxkIhFRqq6o

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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