Da Arena Corinthians, em São Paulo

Um dos aspectos que mais vinha sendo destacado durante a Copa América é a relação entre a seleção brasileira e a torcida. Na Arena Corinthians, em Itaquera, o ambiente foi, enfim, muito favorável à Seleção, em uma vitória por 5 a 0 sobre o Peru. Mais do que uma questão geográfica, já que o jogo voltou a São Paulo, como foi a estreia, os gols cedo, a boa atuação e a goleada é que acabaram sendo fundamentais para que a Seleção se sentisse em casa. Algo que os próprios jogadores admitiram. Há, porém, outros elementos importantes: um setor mais popular no estádio e também um clamor popular atendido no time, a entrada de Éverton Cebolinha, que correspondeu em campo.

A estreia, no Morumbi, deixou uma péssima impressão: o comportamento dos torcedores tornou o estádio um freezer. Se imaginou que pudesse ser uma questão regional, São Paulo, afinal, a cidade leva sempre a fama de ser muito crítica à Seleção. Só que na Fonte Nova, em Salvador, o time foi vaiado depois do 0 a 0 com a Venezuela, como tinha sido vaiado no intervalo contra a Bolívia no Morumbi, quando o jogo estava 0 a 0. Havia o temor que a Seleção fosse mais uma vez vaiada e completasse a tripleta (valeria música no Fantástico?). A vaia, como sempre, incomoda os jogadores, que falaram sobre isso depois do jogo. A relação com a torcida era uma questão.

Clima foi surgindo perto do jogo

O ambiente em volta do estádio não lembrava em nada que haveria uma partida da Copa América, ou mesmo da Seleção ali em Itaquera. No metrô, nenhuma referência, nenhuma placa, nenhuma orientação, ao contrário do que acontecia na Copa. Nas ruas em volta, se via poucos ambulantes e não parecia haver sinal de um jogo por ali.

Em jogos do Corinthians em um fim de semana à tarde, como foi esse do Brasil, normalmente o entorno do estádio está cheio de camisas e as conversas nos bares ali estão palpitantes. A torcida chega antes, faz churrasco, se confraterniza. Isso demorou a acontecer desta vez. À medida que o jogo se aproximava, o entorno enfim foi ganhando cores do Brasil, mas só esquentou mesmo quando o início do jogo estava iminente.

Havia indícios de um ambiente diferente no estádio. O setor Norte da Arena Corinthians, onde ficam normalmente as torcidas organizadas, desde cedo estava mais cheio que os demais. Era o setor popular, com ingresso a R$ 60 (meia a R$ 30). Foi dali que surgiram mais gritos, desde bem antes do início do jogo – e também o setor que ficou mais rapidamente preenchido, já totalmente tomado antes da bola rolar.

O clima foi surgindo para a partida quando o telão mostrou a chegada do time do Peru: a torcida peruana celebrou, mas veio seguida de uma vaia dos brasileiros, em ampla maioria, claro. Quando foram mostrados os jogadores da seleção brasileira chegando ao estádio, a reação foi de festa e celebração. E este era só o começo. Porque algum tempo depois, os primeiros jogadores vieram a campo, os goleiros do Brasil. Alisson, Éderson e Cássio, em casa, foram muito aplaudidos e comemorados. Taffarel também, que respondeu aos acenos da torcida junto a Alisson.

Quando as escalações foram confirmadas e mostradas no telão, tivemos mais um indício de um ambiente melhor. A escalação do Peru foi mostrada e houve duas reações bem distintas: Christian Cueva foi bastante vaiado, certamente pelo seu histórico pelo São Paulo e por atualmente ser jogador do Santos, enquanto Paolo Guerrero, ex-Corinthians e Flamengo e atualmente no Inter, foi bastante celebrado por torcedores, peruanos e brasileiros – mas ele seria vaiado no segundo tempo, quando foi substituído e, com a bola rolando, era um adversário.

Foi quando a escalação da seleção brasileira apareceu que vimos um pouco mais sobre o que viria durante o jogo. Alisson foi um dos mais celebrados, assim como Gabriel Jesus, talvez por ser uma mudança no time titular. Ninguém foi mais comemorado que Éverton Cebolinha. O atacante do Grêmio suscitou uma festa quando seu nome apareceu no telão, com muitos gritos e aplausos. Estava claro que ele era o maior pedido do da torcida. Era um clamor popular por sua presença. Depois de entrar bem nos dois jogos anteriores, o jogador ganhava um lugar entre os titulares e isso já contou muito a favor para levar a torcida junto ao time.

A meia hora do início do jogo, havia muitos lugares vazios. A impressão era que o estádio, novamente, não lotaria. Quando a cerimônia de início do jogo começou, com a bandeira da Conmebol, muita gente ainda estava do lado de fora. Quando o hino peruano começou a ser tocado, indicando que o início do jogo estava iminente, muita gente estava correndo para entrar o mais rápido possível e buscar os seus lugares.

Os hinos, aliás, foram mais um episódio interessante, embora não inédito. Os peruanos cantaram alto o seu próprio hino, tocado primeiro. Em alguns lugares se falou sobre vaia ao hino, mas no estádio, não foi o que ouvimos. O som que tomava conta do estádio era dos torcedores peruanos, orgulhosos, cantando o hino do seu país. Os brasileiros não faziam barulho. Guardaram para o que viria em seguida.

Depois, o hino brasileiro foi cantado a plenos pulmões pelo estádio todo, inclusive com aquilo que se tornou uma certa tradição brasileira: seguir cantando à capela quando o hino é interrompido – a organização só toca um pequeno trecho. Uma espécie de haka à brasileira, como certa vez disse o Impedimento. Mas isso já tinha acontecido no Morumbi e também na Fonte Nova. Restava ver o que viria depois.

Com a bola posicionada no centro do campo, a impressão já era muito diferente de meia hora antes: os lugares estavam quase todos preenchidos. E, no final, os 45.067 presentes (sendo 42.317 pagantes) tornaram a Arena Corinthians uma casa cheia. A casa cheia, colorida de amarelo e com pinturas em branco e vermelho dos peruanos, estava pronta para gritar. Ainda um tanto desconexa, sem conseguir muitos cânticos, embora a tentativa de emplacar o canto nascido em 2014, “mil gols, mil gols” tenha acontecido várias vezes. Ao menos o “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” foi entoado poucas vezes e por pouco tempo.

Um dos mais celebrados antes do jogo começar – já que no jogo foi pouco acionado -, o goleiro Alisson comentou sobre o carinho da arquibancada. “Acredito que em parte é o reconhecimento do trabalho que foi feito durante a temporada. O fato de ter conquistado a Liga dos Campeões influencia também, dá mais confiança para o torcedor em cima do meu trabalho. E os resultados estão acontecendo dentro de campo, acredito que isso favorece também. Fico feliz em ter o carinho do torcedor no meu país, independente do estado que seja, independente da cidade que seja, é um orgulho vestir a camisa da seleção e é um orgulho jogar em qualquer cidade, seja São Paulo, Salvador ou Porto Alegre”, disse o jogador.

“O torcedor brasileiro quer ver espetáculo”

O começo do jogo contra o Peru foi equilibrado e tenso. Os peruanos tiveram a primeira chance de gol, em um cruzamento perigoso de Christian Cueva para a área. Os primeiros 10 minutos foram iguais. Passado esse equilíbrio inicial, a Seleção começou a jogar bem pelas pontas, a começar por uma jogada de Daniel Alves, de onde saiu um escanteio. E as coisas mudaram.

“Talvez a gente estivesse um pouco precipitado no passe, estávamos errando um pouco os passes e não estávamos conseguindo sair de trás e jogar no campo adversário. A partir do primeiro momento, que foi até o Daniel que fez a jogada, ele driblou e a gente conseguiu abrir a marcação deles e jogar no campo deles, tudo melhorou. Claro que o gol tira a ansiedade, o time pode jogar melhor, atacar com mais tranquilidade. Sabíamos que era uma questão de tempo e o mais importante era não deixar o Peru chegar perto da nossa área”, avaliou Filipe Luís, sempre muito bom em ler os jogos.

Na zona mista, Richarlison, um dos que perdeu o lugar no time, foi perguntado se algo mudou na preparação para o jogo contra o Peru para que o time jogasse tão melhor. “Não teve nada [de diferente]. Mantivemos o nosso ritmo. Claro que o Peru é uma equipe que sai para o jogo, não fica todo mundo lá atrás, então isso facilitou para a nossa Seleção. Nós continuamos no mesmo ritmo que estávamos lá em Salvador e hoje a bola entrou para o gol. Todo mundo está de parabéns pelo resultado”, avaliou o atacante.

“O torcedor brasileiro quer ver espetáculo. Quer ver gol, quer ver a vitória. Infelizmente às vezes a gente não vai conseguir dar o espetáculo por circunstâncias do jogo. Mas nós sempre vamos buscar a vitória, no jogo passado a gente não conseguiu, mas hoje sem dúvida fizemos uma grande partida e conseguimos uma grande vitória”, afirmou Willian na zona mista.

Ele comentou também o fato de ter feito um gol na casa do seu time de formação, o Corinthians, mesmo nunca tendo jogado no estádio pelo alvinegro – ele deixou o clube em 2007, o estádio só foi inaugurado em 2014. “Especial pelo fato de ter feito o gol, ainda mais com a camisa da seleção brasileira. Entrei no Corinthians aos 9 anos, passei a minha base toda ali no Corinthians, então realmente é um gol especial por ter feito aqui na Arena Corinthians pela seleção brasileira, eu realmente estou muito feliz, mas estou muito mais feliz pela vitória e grande atuação da equipe”, comentou Willian.

Alex Sandro fez a sua estreia pela Copa América, já que não entrou em campo nos dois primeiros jogos. Ele substituiu Filipe Luís. “Foi até que emocionante esse primeiro jogo na Copa América. A torcida também esteve hoje de parabéns. Aqueles que começaram jogando, aqueles que entraram depois, a torcida hoje foi um verdadeiro espetáculo”, disse.

“Na preparação para esse jogo, Tite falou: ‘Agora é a minha hora de mostrar para vocês a forma como vamos atacar’. Acreditamos no treinador e aconteceu o que aconteceu hoje”, contou Alex Sandro. “Cada jogo é um jogo, cada jogo tem uma estratégia diferente. A estratégia desse jogo deu certo”.

O lateral da Juventus negou que Tite restrinja muito a liberdade dos jogadores em campo. “A gente tem toda liberdade, os defensores, os meias, os atacantes. Todos jogadores têm toda liberdade, porque não pode tirar a liberdade dos jogadores. Todos os jogadores se sentiram à vontade e deu tudo certo”, explicou ainda Alex Sandro sobre as instruções de Tite. “Se você pegar cada clube e cada jogador, todos os jogadores são intensos. Unimos toda essa intensidade e colocamos toda ela junto”.

Phillipe Coutinho foi um dos que jogou bem na partida. Em campo, pareceu ter mais liberdade para chegar à frente e encostar nos atacantes, em vez de permanecer mais alinhado com Arthur – que ficou muito mais perto de Casemiro do que de Coutinho. Desde o primeiro tempo, participou bem do jogo e acabou substituído no segundo tempo, muito celebrado pela torcida na entrada de Willian.

“É claro que eu quero sempre jogar bem e quero sempre contribuir, mas não é toda partida que eu vou conseguir dar o meu melhor. Claro que não vai faltar entrega, não vai faltar atitude para poder tentar ajudar, mas não é sempre que eu vou jogar bem. Hoje a gente sai daqui feliz pelo apoio da torcida, pela partida que a gente fez hoje, todo mundo se dedicando ao máximo e é assim que tem que ser feito”, disse Coutinho na zona mista.

“Precisamos da torcida para sermos campeões”

Filipe Luís, do Brasil, acena para torcedores que o aplaudiam
Filipe Luís, do Brasil, acena para torcedores que o aplaudiam (Getty Images)

Filipe Luís foi um dos três substituídos na partida, o primeiro. Quando entrou Alex Sandro no seu lugar, ele deixou o campo pelo lado oposto e deu a volta por trás do gol brasileiro para voltar ao campo. Foi ovacionado pela torcida e o lateral agradeceu o apoio e carinho. Eram apenas 12 minutos do segundo tempo e o Brasil já vencia, àquela altura, por 4 a 0.

“É bom sempre, mas claro, isso só veio pela vitória, pela forma como o Brasil estava jogando, estava jogando bem, mas principalmente a torcida reconhece o esforço da gente. Mesmo que às vezes acontece que a gente não tá no nosso melhor dia, mas a gente não deixa de correr, de lutar, então é bom, dá ânimo, levanta a moral, dá confiança e o mais importante é que temos que saber que em Porto Alegre vai ser muito complicado, mas que o time vem crescendo cada vez mais”, disse Filipe Luís.

O lateral foi um dos que ressaltou que o apoio da torcida é muito importante e será ao longo da competição. “É claro que precisamos do apoio da torcida para sermos campeões da Copa América, precisamos que a torcida esteja do nosso lado até mesmo nos momentos que não foram tão bons, como foi em Salvador, mas que eles apoiem sempre e que não deixem de acreditar nessa Seleção que tem muito potencial”, continuou o camisa 6.

“É bom, falei já das outras vezes, nas últimas duas partidas, a vaia, é lógico, te deixa um pouco decepcionado. Porque a gente em campo luta, se dedica, às vezes o resultado não vem como a gente espera, que foi no caso contra a Venezuela. Falo nem da partida contra a Bolívia, que foi um placar de 3 a 0, recebemos vaias no intervalo. O torcedor é o reflexo daquilo que acontece dentro de campo”, afirmou o goleiro Alisson.

“Hoje a gente fez o gol no início, acredito que isso ajuda também, já dá uma empolgação maior para o torcedor, conseguimos jogar da maneira como a gente gosta, em virtude também de ter um gramado um pouco melhor. Um pouco não, muito melhor que o de Salvador. Com um toque de bola rápido, criando espaços, com muita movimentação. E também o fato de termos aproveitado as chances que criamos, isso é uma coisa que traz o torcedor para o nosso lado. É isso que a gente quer quando entra em campo, é isso que a gente espera também”, continuou o goleiro.

Setor popular protesta contra preço dos ingressos

O setor mais popular do estádio, o setor norte, protestou contra os ingressos altos. Abriram uma faixa em protesto que se lia: “Ingresso – facada”. A mensagem trazia mais coisas, mas não foi possível ler: rapidamente, quando a faixa se abria, funcionários da organização foram até lá para impedir e puxar a faixa. A Conmebol, como a CBF, não gosta de protestos e, mais do que isso, os impede. A faixa foi arrancada dos torcedores, até com alguma brutalidade, com a presença de seguranças. O protesto pelo preço dos ingressos vir do setor mais popular já é um indicativo importante para a Conmebol. E o preço dos ingressos foi comentado por Alisson.

“Acredito que vamos ter mais pessoas sim. A gente não sabe muito o que esperar, em virtude de muita reclamação em cima do preço dos ingressos, isso é uma coisa que… A gente também acaba comprando alguns ingressos para a família, então a gente também sente no bolso. As pessoas saem prejudicadas com isso. Agora, o que a gente espera é chegar lá na Arena [Grêmio], fazer um grande jogo, corresponder as expectativas, tanto dos torcedores, quanto do Tite, quanto o pessoal que trabalha com a gente e buscar a classificação, que é o mais importante”, disse Alisson na zona mista do estádio.

Com um setor mais popular no estádio, mais acessível – o ingresso mais barato com a metade do preço dos demais estádios, exceto pela Arena Grêmio, que também tem setor com esse preço -, o ambiente teve algo de diferente. O fato de Éverton Cebolinha ter entrado como titular, um clamor popular, também ajudou. Mas isso merece um texto à parte.

O que se viu em Itaquera é que dá para ter ambiente de estádio, mas ainda está muito vinculado ao desempenho, mais do que qualquer coisa. Vaiar durante o jogo, para este que vos escreve, é sempre um erro quando é feito durante o jogo. A relação de torcida com o futebol não deveria ser pautada apenas pelo desempenho. É diferente do resto do entretenimento, quando se paga por um espetáculo.

No futebol, não se paga por um espetáculo: se paga para ver um jogo. E um jogo que pode ser difícil, pode ser que o seu time (ou seleção) não jogue bem. A torcida tem um papel importante na participação do jogo, que pode influenciar negativa ou positivamente. Quando o preço do ingresso se torna tão alto e um fator tão importante, porém, é difícil que as pessoas que pagaram mais de uma centena de reais para estarem ali se contentem com pouco. Ainda mais se nem é o clube delas.

Há muita vontade de assistir e torcer para o Brasil. Mas é preciso que a Seleção, e a CBF, se preocupem em criar uma relação mais próxima para que o apoio venha quando as coisas também não vão bem. Porque para o torcedor que é tratado mal o tempo todo com uma organização ruim e muita distância, a exigência é só pelo jogo. E tem que ser sempre um grande jogo. Há sem dúvida interesse e carinho pela Seleção. Só que sem trabalhar isso, sem que, por exemplo, a Seleção atrapalhe os clubes porque o calendário da CBF atropela datas Fifa, sem jogos por aqui, a não ser os oficiais, sem uma política de preço de ingresso que aproxime quem sonha em estar ali, fica mais difícil.

Em um dia que tudo dá certo em campo, como contra o Peru, é tudo às mil maravilhas. O apoio é maciço, tudo vai bem. Dá para ser melhor. Ao contrário do que muitas vezes se diz, há muito interesse na Seleção. Pena que nem CBF, nem Conmebol, parecem valorizar isso. Quando é anunciado o público no estádio, no telão, o que parece é que a Conmebol se importa menos com o número do público e mais com o que vem em seguida: a renda. Dá para fazer melhor. Muito melhor. E o ambiente pode ser muito mais como foi desta vez do que como foi em outros momentos. Se não, continuará dependente de constantes grandes atuações, o que é muito mais complicado, para não dizer impossível.