O acaso sempre esteve ao lado de Amarildo. O Possesso tinha, é claro, muita técnica e um faro de gol impressionante. Porém, não fosse o destino, talvez nunca vivesse o grande momento de sua carreira. A lesão de Pelé na Copa de 1962 assustou o Brasil, mas não o seu potencial substituto. O atacante assumiu a responsabilidade de entrar no lugar do Rei e brilhou. No duro jogo contra a Espanha, mais lembrado pela malandragem de Nilton Santos, Amarildo anotou os dois gols da virada por 2 a 1 depois dos 27 do segundo tempo. Ainda brilharia na decisão, empatando contra a Tchecoslováquia. Deixou o Chile como um dos grandes heróis do bi mundial. Teve a coragem e o talento para triunfar. E, hoje, pode recontar essa história com orgulho, no dia em que completa 75 anos.

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Pois o imprevisível sempre ajudou Amarildo. Desde o início. O craque que se consagrou no Botafogo era, na verdade, uma promessa das categorias de base do Flamengo. Nascido em Campos, começou a carreira no Goytacaz, antes de ser levado para a capital. E, por causa de um cigarro que nem era dele, o garoto de 18 anos acabou dispensado da Gávea, com somente seis partidas pela equipe principal. Ordem do rígido Manuel Fleitas Solich, um dos maiores técnicos rubro-negros, mas que perdeu um goleador por causa de sua intransigência.

“Eu cheguei ao Botafogo em 1958. A minha saída da Gávea foi meio conturbada, por causa de um cigarro que eu nem fumei. Um companheiro de time estava fumando, na concentração, enquanto esperava por um telefonema da namorada. Quando ele foi atender, eu fiquei segurando o cigarro. Justamente nesta hora, o treinador passou. Ele não gostava que ninguém fumasse ou bebesse. Não teve bronca, mas quando eu fui passar a folga de Natal em casa recebi o recado que não precisava mais voltar”, declarou Amarildo, ao livro ‘O artilheiro que não sorria: Quarentinha, o maior goleador da história do Botafogo’, de Rafael Casé.

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Sem clube, o Possesso viu o acaso mais uma vez trabalhar ao seu favor. Além de, é claro, aproveitar a chance de ouro que recebeu: “Assim que saí do Flamengo, fui prestar serviço militar. O time do batalhão era cheio de jogadores que atuavam em clubes, entre eles o Paulistinha. Ele reparou que todo mundo saía para treinar, menos eu. Eu expliquei o que tinha acontecido e o Paulistinha foi falar de mim para o João Saldanha e o Paulo Amaral. Acabei conseguindo um teste no Botafogo. Dei sorte, fiz dois gols no treinamento e surgiu o interesse pela contratação. Eu tinha que tentar uma vaga num time que tinha acabado de ser campeão. Tinha Didi, Garrincha, Paulinho Valentim, Quarentinha… Jogadores já famosos, que tinham acabado de ser campeões do mundo. Era um sonho para um garoto que, como eu, chegava para jogar com os aspirantes”.

Amarildo não demorou muito para encontrar o seu espaço na grande equipe do Botafogo. Em uma linha de ataque fabulosa, o jovem conquistou dois Campeonatos Cariocas, o Torneio Rio-São Paulo e a Taça Brasil. E a importância em um período tão glorioso dos alvinegros valeu a convocação para a Copa do Mundo de 1962. Fez jus à oportunidade, para voltar a General Severiano ainda com mais moral. E, ainda aos 22 anos, também atrair o interesse de clubes europeus.

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Depois da Copa de 1962, Garrincha era o principal alvo das especulações na Itália. O camisa 7 negociou com a Juventus, mas a transação que também envolvia Amarildo não decolou. Já em 1963, depois de se frustrar na tentativa de levar Pelé, o Milan escolheu justamente o Possesso como alternativa. O atacante deixou o Botafogo com uma história grandiosa. Em apenas quatro anos com a camisa alvinegra, marcou 136 gols em 231 partidas, tornando-se o oitavo maior artilheiro do clube naquele momento.

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No Milan, Amarildo também se tornou ídolo de um esquadrão. Chegou logo após a conquista da Champions de 1963, mas seus gols não foram suficientes para bater o Santos no Mundial Interclubes ao final do ano. Apesar de ir muito bem em suas duas primeiras temporadas, só conquistou um título quando já perdia espaço, levando a Copa da Itália em 1967. Logo depois partiu à Fiorentina, vivendo glórias maiores no Artemio Francchi. O atacante era uma das referências na Viola que faturou a Serie A em 1969. Ainda teve uma breve passagem pela Roma, antes de voltar ao Brasil para encerrar a carreira no Vasco.

Amarildo ainda trabalhou como técnico, comandando principalmente equipes pequenas da Itália. Voltou a morar no Brasil em 2007, chegando a treinar o America por um jogo. Sua grande contribuição ao futebol, entretanto, veio em sua participação na entrega da Bola de Ouro em 2014: “A torcida pode apoiar, incentivar, dar força, mas não tem o poder de ganhar o jogo. Quem tem essa obrigação são os jogadores, dando aquilo que eles sabem, dando amor, sangue. Futebol se ganha dentro de campo. Os nossos torcedores precisam ser mais disciplinados. O que tem acontecido nos campos de futebol tem nos preocupado. Isso não pode acontecer na Copa do Mundo”. Palavras que arrancaram risos da plateia de gala, mas se fizeram verdadeiras meses depois. Um sortudo, sim, mas que sabia das coisas. Não fosse sua competência, Amarildo também não teria triunfado tanto.