Poucas pessoas no mundo do futebol conhecem o funcionamento da cabeça de Pep Guardiola como Mikel Arteta. Durante três anos, o hoje técnico do Arsenal atuou como assistente do catalão no Manchester City, deixando o clube para se juntar os Gunners há pouco mais de seis meses. Na semifinal da Copa da Inglaterra neste sábado (18), ele certamente tirou muito proveito de todo esse conhecimento. Em atuação convincente, o Arsenal surpreendeu os Cityzens e, com dois gols de Aubameyang, venceu por 2 a 0 para se classificar para a final da FA Cup.

Entre entender a teoria e colocá-la em prática, existe uma montanha, sobretudo quando você está no comando de uma equipe irregular como o Arsenal e diante de um oponente pesado como o City. Para isso, Arteta precisaria de comprometimento e crença irredutíveis de seus comandados, e foi isso que os atletas tiveram.

Seja na obediência tática, na aplicação defensiva ou no espírito guerreiro para lutar por cada bola, algo que tanto faltou nas últimas temporadas dos Gunners, os jogadores entregaram o necessário. No fim, o plano deu certo, a equipe de Pep foi anulada, e o talento de Aubameyang foi a peça final para a heroica classificação à final.

Os primeiros dez minutos de jogo, no entanto, não foram bom presságio ao Arsenal. O City veio escalado com a mesma equipe que, na partida que deu reinício à temporada inglesa no mês passado, havia vencido por 3 a 0. O domínio quase absoluto dos Cityzens, em um jogo de ataque contra defesa no início, apontava um favorito.

Quando perdia a bola, o Manchester City se aplicava para recuperá-la ainda no ataque e, assim, estendia os momentos de perigo. Sufocava também a saída com a bola nos pés do Arsenal. Em um desses momentos, Sterling roubou a bola de Mustafi na pequena área e quase abriu o placar, mas foi bloqueado.

Depois de 15 minutos ruins, o Arsenal começou a se soltar. Aos 16 minutos, David Luiz apareceu mais avançado e, do meio da rua, acertou lindo passe em profundidade, cortando as linhas, para Aubameyang. O gabonês preferiu força a jeito, mas parou em cima de Ederson. A próxima oportunidade ele não desperdiçaria.

Dois minutos mais tarde, insistente em sua estratégia de sair da defesa com a bola no pé, o Arsenal foi recompensado pela fidelidade à ideia. De sua área até a do City e à finalização, foram 17 passes. Antes disso, ela passou por Pépé. O costa-marfinense recebeu pela direita, ajeitou o corpo e cruzou para Auba, que se atirou à bola e mandou no contrapé de Ederson, contando com a trave para fazer o 1 a 0.

Vindo de uma vitória sobre o Liverpool, campeão da Premier League, os Gunners tiveram uma injeção de confiança com o gol. Aos poucos, foram equilibrando o duelo antes desigual. Os erros ocasionais na saída de bola ainda aconteciam, como quando Bellerín tentou um passe para trás e entregou no pé de Jesus, mas a aplicação para formar uma barreira na frente do gol era enorme, como o bloqueio subsequente no chute de De Bruyne comprovou.

Do outro lado, o City também vacilava. Aos 30 minutos, Ederson saiu jogando com De Bruyne, que estava apertado na entrada da área. Xhaka travou e deu a bola à Auba, que ajeitou para a chegada de algum companheiro, mas sem força suficiente, entregando de volta à defesa dos Cityzens.

Com o segundo tempo, voltou o domínio inicial do City. Aos quatro minutos, um erro de passe de Ceballos virou ataque do time de Guardiola. De Bruyne, pela esquerda, esperou o momento certo, tocou no meio da área, e Sterling bateu rasteiro. A bola poderia perfeitamente ter entrado, mas passou rente à trave esquerda de Emiliano Martínez.

Cinco minutos mais tarde, Mahrez recebeu pela direita, deu seu drible costumeiro para dentro e bateu com força, rasteiro, para grande defesa do goleiro argentino, que segurou a bola. Aos 16, em cobrança de falta, De Bruyne acertou na altura, na força, mas não na direção, e a bola foi na rede pelo lado de fora.

Empurrado pelo adversário, o Arsenal pouco saía ao ataque, mas foi eficaz quando o fez. Aos 25 minutos, em contragolpe, Tierney, pela esquerda, lançou para Pépé, ainda na altura do meio do campo. O ponta protegeu, voltou para o lateral improvisado como terceiro zagueiro, e este arremessou agora por cima para Aubameyang. Em condição legal graças à desatenção de Mendy lá na outra ponta, o gabonês recebeu, avançou em velocidade e bateu na saída de Ederson para ampliar.

O City já dominava as ações no segundo tempo. Depois do segundo gol do Arsenal, ainda mais. Os Gunners recuaram para defender com tudo que podiam. Em determinado momento, chegaram a ter todos seus 11 jogadores na área. O City girava a bola de um lado pro outro, buscava espaço para o passe, mas não existia. Sem criatividade, passou a recorrer, nos 20 minutos finais, a cruzamentos, e foi aí que David Luiz coroou sua grande atuação com ações providenciais de cabeça para afastar qualquer perigo.

Com os sete minutos de acréscimo devido à pausa para refrescar e ao atendimento a Mustafi, o Arsenal teve que suar para segurar o resultado, mas o fez sob medida. A frustração no rosto de Pep sempre que aparecia na tela traduzia o sucesso dos Gunners.

Quase exatamente um mês depois de levar um passeio pela Premier League, o Arsenal deu a resposta na partida que mais importava. O 2 a 0 sobre o City vem na esteira de uma vitória sobre o Liverpool, uma sequência que dá o impulso certo a um time que ainda está no início de um projeto e que, agora, já tem sua primeira chance de conquistar uma taça. Do outro lado, estará um grande rival que deverá impor um desafio tremendo, seja este rival o Chelsea ou o Manchester United.