É injusto continuar lembrando a atuação de Loris Karius na final da Champions League da temporada passada, em Kiev, e esta talvez seja a última vez. Médicos nos EUA diagnosticaram uma concussão, após choque com Sergio Ramos, e todo mundo tem o direito a um dia ruim sem que isso marque sua carreira. Mas, a clareza das falhas em um momento tão importante deixou escancarada a principal fraqueza do Liverpool naquele momento, e o que Alisson fez, neste sábado, em Madri, contra o Tottenham, comprovou a diferença que faz ter um grande goleiro.

Jürgen Klopp demorou para procurar uma solução definitiva para a posição. Karius foi uma das suas primeiras contratações, um jovem do Mainz para disputar a titularidade com Simon Mignolet. E, mesmo depois de Kiev, quando se imaginava que a primeira ação do Liverpool no mercado seria contratar um goleiro, o primeiro reforço foi Fabinho. A ideia de Klopp ainda era pelo menos manter Karius no elenco.

Mais erros durante a pré-temporada evidenciaram que Karius estava totalmente sem confiança, e o Liverpool não teve alternativa a não ser intensificar a busca por um goleiro. E como todo mundo sabia que o clube precisava de um, a Roma vendeu caro. Por € 62,5 milhões, durante algumas semanas, Alisson foi o goleiro mais caro do mundo.

Muito rapidamente, o brasileiro mostrou que era a peça que faltava para fortificar a defesa do Liverpool. A chegada de Van Dijk, em janeiro, havia representado uma grande melhora. O plano de Klopp para a temporada era colocar o seu time para jogar de uma maneira mais cadenciada, mais segura, sem deixar tantos espaços quanto nos anos anteriores. Alisson jogou mais protegido do que seus antecessores, mas, quando acionado, foi muito bem. Terminou a Premier League com 21 partidas sem ser vazado.

Foi claríssima a evolução defensiva do Liverpool em Kiev. O gol de Salah, cobrando pênalti, no segundo minuto, condicionou o restante da partida. Com vantagem tão precoce, os Reds não tiveram urgência para ir à frente e tentaram controlar o jogo por meio da defesa, enquanto o Tottenham, com a bola, tentava criar chances. A estratégia deu tão certo que Alisson não precisou fazer defesa no primeiro tempo.

Difícil dizer que em algum momento o jogo deixou de ser morno, mas, por volta dos 25 minutos, o Tottenham começou a levar algum perigo em sequência. E foi naquele momento que Alisson mostrou a que veio: não fez nenhuma defesa sensacional ou milagrosa, mas interveio bem para impedir o empate do adversário, na bomba de Son de fora da área, no rebote com Lucas, na cobrança fechada de Eriksen e no chute cruzado do sul-coreano, nos acréscimos.

Esse é o grande lance com os goleiros. Além de defender todas as bolas fáceis e a maioria das difíceis, o grande jogador da posição tem a capacidade de desequilibrar a balança da pressão: de um lado, a sua defesa fica mais tranquila sabendo que não precisa necessariamente bloquear todas os chutes; e, do outro, o adversário sabe que precisa finalizar melhor do que o normal para superá-lo.

Alisson não faz muitas daquelas defesas que viram fotos, embora uma delas, contra o Napoli, nos minutos finais da última rodada da fase de grupos, tenha sido responsável por manter viva a campanha do Liverpool. Mas passa segurança, falha pouco e aparece quando o seu time precisa. Em uma final de Champions League, isso faz toda diferença.

.