“Existem apenas duas coisas em um lateral: ou ele é um ponta que fracassou ou um zagueiro que fracassou. Ninguém quer crescer e ser um lateral, ninguém quer crescer e ser um Gary Neville.” A brincadeira de Jamie Carragher com o companheiro de Sky Sports, Neville, virou um clássico instantâneo na Inglaterra há três anos. Apesar do ponto principal ser a piada, a fala de Carragher carrega um pouco de verdade, mas, agora, se aproximando de sua segunda final de Champions League seguida pelo Liverpool, um novo garoto local quer mudar isso. Trent Alexander-Arnold quer tornar a lateral uma posição popular.

“Assim como o Ashley Cole fez quando eu estava crescendo, eu quero mudar a maneira como pensam sobre os laterais junto com o Robbo (Andrew Robertson). Queremos mostrar que os laterais muitas vezes influenciam o jogo muito mais do que posições que são tradicionalmente vistas como as mais prestigiosas”, disse Alexander-Arnold em entrevista à ESPN norte-americana.

“É um papel valioso, como disseram Klopp e Guardiola, e certamente um dos mais exigentes. Somos medidos igualmente por como atacamos e como defendemos mais do que qualquer outra posição. Você precisa dar assistências e precisa também não ser vazado. Temos a obrigação de ir à frente, e é inegociável voltarmos – você precisa fazer os dois igualmente bem. Espero que possamos mudar essa ideia de que nenhuma criança quer crescer e ser um lateral”, completa o scouse.

A cria da base do Liverpool, com apenas 20 anos, pode ter certeza de que está no caminho certo para alcançar seu objetivo. Na mais recente campanha da Premier League, em que os Reds alcançaram incríveis 97 pontos para, ainda assim, verem o Manchester City campeão, Alexander Arnold contribuiu enormemente para o sucesso do clube. Nenhum outro defensor criou mais gols para seus companheiros na temporada da elite inglesa: foram 12 assistências.

Ao longo do campeonato, e também das competições paralelas, o garoto crescido ao lado do CT de Melwood e membro das categorias de base desde os seis anos foi sedimentando sua importância ao time de Jürgen Klopp. Dois capítulos na atual temporada talvez destaquem com mais contundência a sua relevância.

No fim de fevereiro, após uma lesão tirá-lo de três jogos na Premier League e fazê-lo atuar por apenas 13 minutos em um total de cinco partidas, Alexander-Arnold foi, mais uma vez, titular pelo Liverpool. Os Reds recebiam o Watford em Anfield e, com três empates nos quatro jogos anteriores sem seu lateral-direito titular, precisavam dar uma demonstração de força para não parecerem ainda mais enfraquecidos na briga pelo título contra o Manchester City. Alexander-Arnold então correspondeu. Com 20 minutos de jogo, já havia colocado dois cruzamentos com precisão para Sadio Mané abrir 2 a 0 no placar. Encerrou aquele jogo com três assistências, servindo também Virgil van Dijk, em triunfo de 5 a 0 dos comandados de Klopp.

Avancemos pouco menos de três meses até o confronto de volta pela semifinal da Champions League entre Liverpool e Barcelona. Os catalães haviam vencido por 3 a 0 no Camp Nou, em partida em que o lateral ficou apenas no banco. Na Inglaterra, os Reds precisariam do jogo perfeito para avançar – e isso incluía a atenção a todo e qualquer detalhe. E ninguém esteve mais ligado a tudo o que acontecia do que o garoto de Melwood. Alexander-Arnold já havia servido Wijnaldum no primeiro tempo com um de seus cruzamentos milimétricos. Agora, aos 34 do segundo tempo, ia deixando a bola para Shaqiri cobrar o escanteio quando percebeu a defesa do Barça desajustada, ainda tomando seus postos na área. Viu também Divock Origi livre próximo ao gol. Em um movimento agora chamado de “Trent” na Inglaterra, bateu rápido o escanteio para o belga fazer o gol da classificação. Um lance de “gênio”, como definiu Klopp. Um lance de puro improviso, mas de anos de preparação.

“Sempre tento estar um passo à frente dos meus adversários, porque é assim que você tira o melhor de si e deles também. Pensei nisso (no lance) e trabalhei nele desde que comecei nas categorias de base, mas é extremamente difícil mostra-lo regularmente no futebol de alto nível. Você está competindo contra grandes equipes, muito bem preparadas, e a chance de pegá-las desprevenidas é limitada. Naquele instante de segundo contra o Barça, notei a oportunidade e a aproveitei”, explica o jogador à ESPN.

A aptidão ofensiva está no futebol de Trent Alexander-Arnold desde muito tempo. Mas seu lado defensivo precisou ser trabalhado. Na pré-temporada de 2017, Klopp emitiu o alerta ao jogador. “Trent, que potencial! Mas ele precisa melhorar sua defesa agora. Sim, ele é um garoto, mas no momento em que ele conseguir defender como um homem, ele poderá jogar regularmente na Premier League. Enquanto ele defender como um garoto e atacar como um homem, então teremos apenas metade de seu incrível talento. Não posso mudar isso, só ele pode. Ele sabe disso e está animado pelo progresso que pode fazer”, definiu o treinador há quase dois anos.

“O técnico tirou tanto de mim. Ele é exigente e nunca permite que você fique confortável. Ele espera consistentemente mais de seus jogadores, o que encaixa bem comigo, porque quero ir além dos meus limites”, diz Alexander-Arnold, que começou sua transição para a lateral justamente assim.

Originalmente um jogador de meio-campo, Trent precisou passar por um duro período nas categorias de base para começar a explorar seu potencial na posição em que hoje já é um dos melhores do mundo. Alex Inglethorpe, diretor das divisões inferiores do Liverpool, e Neil Critchley, comandante do sub-18 à época, enxergaram a vocação do jogador para a lateral. Mas, antes, precisavam trabalhar a mentalidade do atleta.

“Eu odiava. Eram as piores condições de treinamento que tive que aguentar. Eu sempre amei jogar futebol e fazer todas as sessões, porém, durante aqueles três meses, eu tinha pavor. Eu sabia que ia para o treino para ser atacado, que teria os melhores jogadores correndo para cima de mim repetidamente, que gritariam comigo. Eu fazia um contra um todos os dias e, na época, sentia que não era bom o bastante para lidar com aquilo. Então, eu chegava sabendo que não teria uma sessão positiva e ia para casa irritado. Foi frustrante, porque foi o mesmo ciclo por tanto tempo, e eu não estava tendo o desempenho no padrão que esperava de mim mesmo, porque minha mentalidade não estava certa. Eu estava de mau humor o tempo todo, e não era saudável para mim. Mas funcionou. Funcionou maravilhas.”

Alexander-Arnold diz que Inglethorpe e Critchley entenderam exatamente aquilo de que ele precisava e lhe ensinaram que ele atingia a melhor versão de si quando tornava o duelo com o adversário pessoal. “Era uma questão de orgulho não deixar alguém passar por mim.”

Aos 20 anos, Trent deverá se tornar o jogador mais jovem a ser titular em duas finais de Champions League consecutivas. Ele olha para a decisão do ano passado, contra o Real Madrid, sem ressentimento. Isso porque, segundo o próprio atleta, o caminho trilhado pelo Liverpool sob Jürgen Klopp lhe conferiu a confiança de que aquela não era sua única oportunidade de vencer a Orelhuda.

“Sendo sincero, acreditei que teria a oportunidade novamente. Ela veio bem cedo, mas não duvidei de que viria. Nada indicava que aquela seria minha única chance. Senti que o clube estava em uma posição forte e saudável, e não foi como se tivéssemos chegado à final por sorte e tivéssemos que ser gratos só de chegar lá. Merecemos. Pensei: ‘É aqui que merecemos estar como clube’. E estava convencido de que seria dali para melhor, que melhoraríamos e voltaríamos mais sólidos.”

Alexander-Arnold vê o Liverpool pronto para ser campeão, tanto da Premier League quanto da Champions League. Para ele, assim que a primeira taça vier, as próximas acompanharão. Neste sábado, e nas temporadas por vir, os cruzamentos e a contribuição defensiva do jogador serão trunfos dos Reds para atualizar sua sala de troféus. E, certamente, um caminho certo para, ao lado de Robertson, realizar seu desejo de fazer as crianças sonharem em ser laterais.