O lateral esquerdo Alessandro Favalli, de 27 anos e que joga no Reggio Audace, da terceira divisão da Itália, contou como a COVID-19, doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, se manifestou nele. O jogador recebeu o diagnóstico no dia 6 de março e isso mudou a sua vida. Foi o segundo jogador italiano com a doença. Contratado pelo Reggio Audace em janeiro, ele voltou ao norte do país, onde nasceu, para ficar com a família depois de saber que estava infectado. Em entrevista, ele contou como é a sensação de estar isolado e quais os sintomas tem sentido.

“Eu acordei no dia 2 de março, segunda-feira, me sentindo desconfortável”, afirmou o jogador, em entrevista à BBC. “Eu tinha uma febre, uma dor de cabeça e meus olhos estavam queimando. Eu já tinha sintomas durante a noite, tremendo de frio”.

“Eu fiquei desconfiado. Eu já tinha tido gripe em janeiro. Eu liguei para a minha família e todos eles tiveram os mesmos sintomas. Nós tivemos um jantar de família juntos alguns dias antes. Já que o coronavírus já estava grande naquele ponto na mídia e as pessoas já estavam infectadas na minha área, eu soube de cara que todos nós tínhamos”, contou.

Apesar dos sintomas, ele disse que a sua febre nunca ficou muito alta. “A febre nunca passou de 37,8°C, eu tive por três dias e já estava me sentindo bem. Eu tive uma dor de cabeça dolorida, mas isso não durou muito também. Eu nunca fiquei assustado, eu nunca me senti tão mal. Eu estava mais preocupado com algum dos meus parentes, que sentiram mais do que eu, talvez pela diferença de idade e de preparo físico”, contou Favalli.

Depois de falar com a sua família, o jogador entrou em um auto isolamento. Casado, o jogador se trancou em um quarto, deixando o resto da casa para a esposa, Miriam. Ela faz a sua comida e leva para a porta do quarto, onde deixa para ele. “A Miriam não tem sintomas. Eu não queria causar mal a ele. Eu nunca tive problema com meu apetite, sempre consegui comer. Eu não conseguia sentir o gosto ou o cheiro de nada, mas eu sabia disso pela gripe comum”, contou.

“Isolamento é mentalmente muito difícil”

Um dos pontos críticos da doença é justamente ficar em completo isolamento. Se o distanciamento social recomendado para quem não está doente já é difícil, para quem está doente é ainda pior. “Isolamento é mentalmente muito difícil. Eu estou acostumado com uma vida mais social. Eu vivo com a minha esposa, tenho família e amigos aqui na área. Eu treino todos os dias com meus companheiros”, contou Favalli.

Como está isolado, o jogador está aproveitando o tempo livre para estudar educação física e ciência do esporte para a universidade. O principal é que todo mundo supere isso logo, o resto não é muito importante”, afirmou. “Durante as últimas semanas, eu senti muito carinho de companheiros atuais e antigos, amigos, técnicos, torcedores. As pessoas me ligam todos os dias, eu recebi milhares de mensagens”.

“Todas as pessoas estavam preocupadas comigo e minha família. Foi legal ver ver o quanto tantas pessoas cuidam de nós. Se nós realmente queríamos ver alguma coisa positiva nesse vírus, ele me ensinou como é importante as pessoas ao seu redor”, disse o jogador.

“Se um jogador da Serie A tivesse sido diagnosticado antes, eles teriam parado”

O jogador acha que uma das coisas que deveria ter sido feito antes é a paralisação do mundo futebol. Embora tenha sido diagnosticado no começo de março, a Itália ainda tentou continuar os jogos e a Serie A chegou a disputar jogos até o dia 9 de março. No dia 8, Juventus e Inter fizeram o clássico italiano sem público, em Turim, já em meio a uma epidemia.

Os primeiros jogos adiados foram a partir do dia 22 de fevereiro. No dia 3 de março, foi decidido que a Serie A seria jogada com portões fechados. Só no dia 10 de março que a liga foi oficialmente suspensa.

“Eu estava pessoalmente envolvido e estava surpreso em ver clubes profissionais e ligas querendo continuar jogando”, disse Favalli. “Mesmo jogando com portões fechados, foi a decisão errada. Um jogador tem uma vida pessoal também, ele pode ficar infectado fora de campo e levar para dentro”.

“Eu acho que a questão não foi levada suficientemente a sério. Eu tenho certeza que se um jogador de Serie A tivesse dado positivo naquela época, eles teriam parado imediatamente”, opinou o lateral esquerdo. “A única coisa que conta para nós é nós lutarmos contra o vírus juntos, sermos responsáveis e ficarmos em casa. Espero que possamos começar a jogar novamente em breve, mas isso é secundário e também é um pouco difícil imaginar agora”.