O torcedor do Flamengo tem poucos motivos para se empolgar neste início de ano. A temporada começa oficialmente no sábado, quando o rubro-negro estreia no Estadual do Rio diante do Bonsucesso. Mas fora de campo, as coisas estão cada vez mais confusas. Apesar da carência em algumas posições, a diretoria anunciou somente dois reforços: o lateral-esquerdo Magal e o atacante Itamar.

Enquanto isso, Thiago Neves, cujo contrato se encerrou em 31 de dezembro, ficou no meio de um “Fla-Flu de bastidores”, que culminaram com duas entrevistas coletivas nesta segunda-feira: uma, do empresário do jogador, Leo Rabello; e a outra, da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim.

A novela envolvendo o jogador, cujos direitos federativos pertencem ao Al-Hilal, da Arábia Saudita, é a que mais tem ocupado os noticiários, mas não é a única no Flamengo. A situação entre Ronaldinho e a Traffic, empresa de marketing esportivo com a qual o Flamengo tem um compromisso, ainda está indefinida. O jogador tem cerca de R$ 4 milhões a receber e ameaça não jogar contra o Real Potosí, da Bolívia, na próxima semana, na altitude de San Luis de Potosí, a 4 mil metros acima do nível do mar.

Além disso, o zagueiro Alex Silva também é mais um envolvido nas confusões rubro-negras. No primeiro dia de trabalhos, o jogador não apareceu para treinar no Ninho do Urubu, centro de treinamentos do clube. Nesta segunda-feira, Alex decidiu não viajar para a fase de aclimatação que o Flamengo fará na Bolívia. A atitude irritou a presidente Patrícia Amorim que anunciou, na entrevista coletiva, que o zagueiro está afastado por tempo indeterminado do elenco.

Vou tentar fazer uma análise breve dos principais problemas deste início de ano caótico no clube da Gávea.

Thiago Neves – o Flamengo tem 10% dos direitos econômicos do meia. Os outros 90% são do Al-Hilal, que pediu 7 milhões de euros (cerca de R$ 17 milhões) para liberá-lo. O Flamengo não exerceu o direito de prioridade na compra do atleta até 30 de novembro por duas razões: não havia a totalidade do dinheiro para a concretização do negócio e o clube naquela data ainda não havia garantido a vaga para a Libertadores deste ano.

Além disso, depois do término do contrato, São Paulo e Fluminense enviaram propostas ao clube saudita. A proposta do tricolor paulista foi rejeitada, mas a do tricolor carioca foi aceita. O fato do Fluminense ter feito uma proposta direta ao Al-Hilal irritou a presidente do Flamengo, que falou em “falta de ética” na sua entrevista coletiva, além de criticar o presidente do coirmão, Peter Siemsen.

Além do alto valor para a sua contratação – ainda que paga parceladamente – o salário de Thiago Neves, estimado em R$ 700 mil, foi outro empecilho para a negociação. Com isso, o jogador acabou fechando mesmo com o Fluminense, que o anunciou nesta terça-feira.

Ronaldinho – A indefinição em relação ao compromisso envolvendo Flamengo e Traffic respinga diretamente no atacante. Depois de um ano inteiro, ainda não foi assinado um contrato entre o clube e a empresa. Afinal de contas, a maior parte dos salários do R10 deveria ser paga pela Traffic. Como não foram até agora, o agente-irmão Roberto Assis entrou em ação e, com seu jeito peculiar e sutil de negociar, deu um ultimato: se o dinheiro não aparecer antes do jogo na Bolívia, Ronaldinho não joga.

Vale a pena manter R10? – Thiago Neves e Ronaldinho não conseguiram manter em 2011 o nível de atuação esperado para jogadores deste gabarito, com atuações de excelência aqui e ali. Ainda assim, oscilando muito, os dois foram, ao lado de Deivid, os artilheiros do Flamengo na temporada. Não foram poucos os jogos resolvidos com jogos e gols de Thiago e Ronaldinho.

No entanto, eu acho o esforço que o Flamengo está fazendo para manter Thiago Neves desproporcional. Ainda que eu entenda que os valores estão muito inflados no mercado nacional atualmente, investir pouco mais de R$ 25 milhões em um ano no jogador é algo fora de propósito. É bem mais do que ele vale. O Flamengo não gastou e TN7 deverá virar TN10 novamente no Flu.

A situação de Ronaldinho é ainda mais complicada, porque até agora ninguém sabe quem é que paga o grosso de seus salários – e essa salgada conta pode sobrar pro Flamengo. O ano passado foi embora e nenhuma ação de marketing foi feita com o camisa 10. A esperança de se conseguir um bom patrocinador máster também ficou só na esperança e o clube se viu obrigado a adotar a estratégia de pulverizar os espaços publicitários do uniforme, transformando o mesmo em um abadá – aliás, fato que vem se tornando corriqueiro no futebol brasileiro.

Falta de reforços – Em 2011, o Flamengo conquistou apenas o Campeonato Estadual. O time acabou alijado da disputa da Copa do Brasil nas quartas de final, perdendo a vaga para o Ceará; e no Brasileiro, a sequência de dez jogos sem vencer acabou tirando o time da disputa do título. O quarto lugar conquistado nas últimas rodadas deu uma vaga na Libertadores, mas ainda na primeira fase eliminatória, antes da tão sonhada fase de grupos.

Quando todos esperavam reforços de peso para 2012, nada aconteceu até agora. A diretoria insistiu nos nomes de sempre, mirando no zagueiro Juan, da Roma; e no atacante Vagner Love, do CSKA Moscou, ainda que os cofres estejam supostamente vazios. Não fechou com nenhum dos dois – e também não trouxe jogadores para serem titulares. Sem Thiago Neves (pelo menos até que ele renove), com Ronaldinho em dúvida e agora, com o afastamento de Alex Silva, o time fica bem mais fraco que o do ano passado. Como reforços, Magal e Itamar, pouco para a sempre exigente torcida rubro-negra.

O elenco de 2011 já não era nenhuma maravilha, com fragilidade nas laterais, na zaga e no ataque. Esse ano se apresenta ainda mais frágil, apostando (por falta de grana e de planejamento) na molecada para suprir as posições carentes.

Real Potosí, o novo Tolima? – Em condições normais, o Flamengo não deveria ficar preocupado em disputar uma vaga em dois jogos contra um time boliviano, ainda mais com o segundo jogo acontecendo no Rio. Porém, o jogo de ida acontece em condições desfavoráveis para o time carioca, com a altitude sendo um grande aliado do Real Potosí.
O medo maior de boa parte da torcida é que um revés muito grande no “alto do morro”, somado à instabilidade vinda de fora das quatro linhas, inviabilize uma virada no Engenhão. O exemplo do Corinthians no ano passado, quando foi eliminado pelo modesto Deportes Tolima, da Colômbia, ainda está bem vivo na memória de todos – basicamente matou o primeiro semestre do alvinegro de Parque São Jorge, ainda que o clube tenha, depois, conquistado o título nacional.

Patrícia Amorim – 2012 será um ano decisivo para as pretensões da presidente do Flamengo. Vereadora pelo terceiro mandato consecutivo, Patrícia ainda não definiu se concorre a mais uma reeleição em outubro ou se tenta alçar vôos mais altos – o nome da dirigente já foi ventilado para ser companheira de chapa do atual prefeito do Rio, Eduardo Paes. Além disso, no fim do ano acontece também a eleição no Flamengo e, naturalmente, a atual mandatária é candidata à reeleição.

Eleita no dia seguinte ao título brasileiro de 2009, Amorim teve, a rigor, pouco o que comemorar no futebol até agora. Em 2010, nenhum título e o escândalo envolvendo o goleiro Bruno, que acabou preso. No ano passado, o estadual invicto foi o triunfo solitário entre os profissionais.

Na entrevista coletiva de segunda-feira, Patrícia Amorim foi, mais que nunca, Patrícia Amorim: falou que a situação no clube está “ótima” e “sob controle”; falou que o clube demorou a contratar porque “o mercado está inflacionado” (apesar de elogiar as vindas de Magal e Itamar) e desancou o presidente do Fluminense, dizendo que o clube agiu com falta de ética, “atravessando” a negociação. Quando pressionada, desconversou, como de praxe, com evasivas.

Para a eleição de dezembro, Patrícia aposta, claro, na melhora do desempenho do time de futebol. Porém, a base eleitoral da dirigente se baseia nos esportes olímpicos e nos associados que freqüentam o clube – o que, em um colégio eleitoral tão restrito como o do Flamengo, pode ser importante. Apesar da grita da torcida, são poucos os que efetivamente podem interferir nos destinos do clube.

Com isso tudo, seguindo a linha de “nada está tão ruim que não possa piorar”, a situação no clube tem desagradado ao técnico Vanderlei Luxemburgo, e o que parecia pouco provável no ano passado, mesmo quando o Flamengo teve uma sequência de dez partidas sem vitória no Campeonato Brasileiro, pode acontecer neste início de temporada: a saída do treinador, que tem contrato até dezembro. Tudo indica que, pelo andar da carruagem, Luxa vai deixar o clube nos próximos dias, classificando ou não o time para a fase de grupos. Enfim, o alerta vermelho está ligado no Flamengo – e não há sinais de que as coisas vão melhorar em um curto prazo.

E começam os Estaduais

No fim de semana, a bola rolou em Alagoas, no Pará e em Pernambuco para o início dos Campeonatos Estaduais. No meio de semana, começa o campeonato cearense; e no sábado, boa parte das demais competições regionais, dentre os quais os do Rio e de São Paulo.

Em Pernambuco, jogando em casa, o Santa Cruz passou, de virada, pelo Belo Jardim, 2 a 1. No interior, o Náutico passou pelo Porto em Caruaru (2 a 0). O Sport empatou em Araripina com o time da casa, 1 a 1. O líder do campeonato pelo saldo é o Serra Talhada, que goleou o América por 4 a 0.

Em Alagoas, os cinco mandantes venceram seus jogos, com três 2 x 0 (Corinthians no Penedense, Murici em cima do Sport Atalaia e CSE no Coruripe, com direito a um gol do infindável Túlio). No clássico em Maceió, o CRB passou bem pelo CSA (3 x 0) e em Arapiraca, o ASA venceu o CEO por 2 a 1.

No Pará, começou a disputa da Taça Cidade de Belém, com os oito times se enfrentando em turno único e classificando os quatro melhores para as semifinais. Cametá e Tuna Luso venceram fora de casa pelo mesmo placar (2 a 1, respectivamente sobre Paysandu e Independente). O Remo venceu o Águia de Marabá por 1 a 0. São Raimundo e São Francisco empataram em  1 a 1.

No Rio e em São Paulo, as federações (em conjunto com a televisão) vetaram alguns estádios para jogos transmitidos em rede aberta. Em São Paulo, Amaros (Itápolis), Gilberto Siqueira Lopes (Lins) e Sílvio Salles (Catanduva) estão na lista de proibição. No Rio, a lista é ainda maior – e fica mais fácil falar onde pode ter jogo transmitido: Engenhão, São Januário, Moça Bonita, Claudio Moacyr (Macaé) e Raulino de Oliveira (Volta Redonda).

Atual bicampeão paulista, o Santos estréia fora de casa, contra o XV de Piracicaba, de volta à série A-1. No Rio, o campeão Flamengo faz seu primeiro jogo com um time reserva enfrentando o Bonsucesso.

CURTAS

Mais uma vez, os preços do Estadual do Rio assustam os torcedores. Para Flamengo x Bonsucesso, no sábado, o ingresso mais barato é o da torcida do clube de Teixeira de Castro: R$ 20 no setor norte do Engenhão.

A torcida do Flamengo, que ficará no setor leste, terá ingressos a R$ 30 (superior) e R$ 40 (inferior). Considerando que o rubro-negro entrará com um time reserva, acredito que teremos no máximo 2 mil torcedores no estádio.

O goleiro Renan, que apareceu bem no Avaí e se transferiu para o Corinthians foi anunciado nesta terça-feira como reforço do Vitória. Aos 21 anos, o jogador chegou a ser convocado por Mano Menezes na primeira convocação, contra os Estados Unidos, em 2010. Renan foi emprestado até o final do ano.

Recém-contratado pelo Vasco, o atacante equatoriano Carlos Tenório – ou “Demolidor”, como prefere ser chamado – já chegou prometendo rivalizar com Loco Abreu no quesito “entrevistas bacanas”. Falou que quer jogar com a camisa 11, a mesma que foi imortalizada por Romário.

“O mais importante para um jogador é ter confiança, caso contrário, não serve de nada. E eu tenho a confiança para usar essa camisa aqui no Vasco”, declarou Tenório, o Demolidor.