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Tradição, torcida, paixão: O DNA em comum que torna Dortmund e Liverpool “clubes irmãos”

Quando Liverpool e Borussia Dortmund se cruzaram no sorteio da Liga Europa, logo nas quartas de final, muita gente lamentou. E não apenas pela força de ingleses e alemães, que certamente estavam em condições de realizar uma final histórica no St. Jakob Park. Mas também porque vermelhos e aurinegros parecem ter uma aptidão quase natural para atrair simpatia – especialmente além-mar, onde não há laços geográficos ou familiares que determinem a preferência por um clube. Os adversários desta quinta possuem diversas características em comum. Não à toa, acabam combinando um perfil parecido.

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Se analisarmos de uma maneira geral, Dortmund e Liverpool parecem mesmo versões diferentes de um mesmo clube, obviamente que influenciadas pelo contexto de seus países. O DNA muitas vezes se aproxima. Não seria, portanto, absurdo chamá-los de “clubes irmãos” – até pela boa relação que estabeleceram nos últimos dias para a promoção do jogo nas redes sociais. Abaixo, levantamos sete pontos que assemelham os dois times. Traços que fazem com que “nunca caminhem sozinhos”, como tanto gostam de cantar.

A tradição

Obviedade aqui. E também nada que seja tão exclusivo de Dortmund e Liverpool. De qualquer maneira, o peso da camisa tem influência imensa sobre a representatividade de ambas as equipes. É diferente pensar em um clube com sucessos esporádicos ao longo de seu passado e outra que possui décadas de grandes momentos. Assim acontece com a dupla. Há épicos a serem contados em diferentes períodos, com salas de troféus repletas. Episódios sobre como os times foram moldados pela realidade em seu entorno, mas também como a moldaram. As cicatrizes, verdadeiramente tornam um clube gigante, como Hillsborough ou a ameaça de falência dos aurinegros. Por mais que muitos tenham taças, a superação das dificuldades é uma marca profunda, que muda o curso da história. Representa a força histórica das camisas, que vai além dos resultados.

O desafio aos poderosos

Ao longo da década de 1990, Manchester United e Bayern de Munique se estabeleceram de maneira hegemônica em seus países. E não apenas por conta das conquistas, mas também pela soberania econômica em um contexto de transformação do futebol. Assim, Dortmund e Liverpool assumiram o papel de “oposição” – mesmo que tenham vivido períodos de igual ou maior sucesso na história recente, especialmente os Reds. Se havia uma máquina de produzir dinheiro e comprar craques do outro lado, o principal rival a nível nacional se colocava como uma alternativa de quebrar a dominância. Assim, natural que vermelhos e aurinegros atraíssem a simpatia, além de seus torcedores, também daqueles que acompanham outros clubes.

Dortmund

A gana continental

Aqui, um ponto relativo aos dois anteriores citados. Sim, Dortmund e Liverpool possuem enorme relevância nacional, entre os maiores campeões em seus países. Mas também escreveram seu passado além das fronteiras, e independente da competição. Mesmo que a Champions tenha uma aura diferente, ambos também registraram façanhas em outros torneios continentais. Os alemães têm título da Recopa (batendo justamente o Liverpool na decisão) e vice da Copa da Uefa no currículo. Já os ingleses podem chegar ao tetra se buscarem a taça continental nesta temporada – e sua última conquista da Copa da Uefa, em 2001, veio com a épica vitória por 5 a 4 sobre o Alavés em pleno Signal Iduna Park. Por isso mesmo, a Liga Europa tem um caráter peculiar, mesmo sendo secundária para outros grandes.

A torcida

Contar com torcedores apaixonados também não é nenhuma exclusividade da dupla. No entanto, é diferente a maneira como isso se manifesta. O fanatismo no comportamento dos torcedores nas arquibancadas do Signal Iduna Park e de Anfield salta aos olhos. O ambiente nas cidades certamente ajudou a moldar esse apego. Dortmund e Liverpool possuem enormes bases proletárias, em grandes berços industriais. A representatividade dos clubes para populações simples, especialmente como elemento cultural, pesa no simbolismo do clube dentro da realidade local. Transforma-se em paixão. E se faz notar através do engajamento e dos coros no estádio a cada partida – ou, no caso específico do Dortmund, nos famosos mosaicos e na maior média de público do planeta.

Protestos da torcida do Liverpool em Anfield Road, contra o Sunderland

O respeito à paixão

Dortmund e Liverpool têm plena consciência do que representam para os seus torcedores. Por isso mesmo, muitas vezes tratam de cultivar essa relação, ressaltando esse apreço. Tudo bem que, recentemente, a diretoria dos Reds caminhou na contramão dessa postura – e provocou uma reação espetacular nas arquibancadas de Anfield, com os protestos pelo aumento dos ingressos. Mas, no geral, o clube costuma protagonizar diversas ações interessantes para alimentar as paixões que suscitam. Ainda que um passo atrás do Dortmund, talvez o clube no mundo que melhor saiba trabalhar esses laços, com uma política de gestão voltada a valorizar o sentimento.

A canção

A tradição de You’ll Never Walk Alone começou em Anfield durante a década de 1960, tornando-se um hino diante do esquadrão que começava a se formar. Espalhou-se por outros países da Europa, especialmente para a Alemanha a partir dos anos 1990. E, curiosamente, o hábito no Dortmund se firmou em 1992, após uma partida contra o Celtic, outro clube que tradicionalmente entoa a música. De qualquer forma, não dá para negar que o Dortmund esteja passos à frente de seus compatriotas, sobretudo pela arrepiante homenagem após a morte de dois torcedores nas arquibancadas há um mês. Em 2001, antes de duelo contra os Reds pela Champions, um cantor puxou o hino no gramado do Signal Iduna Park. Já em 2014, durante amistoso, as duas torcidas se uniram em uma só voz em Anfield. Meses antes, em abril daquele ano, os aurinegros haviam prestado tributo aos 25 anos do desastre de Hillsborough e pedido justiça através da canção.

Os amistosos

Ao longo das quatro últimas décadas, Dortmund e Liverpool marcaram amistosos de pré-temporada entre si com certa frequência. O primeiro deles aconteceu em 1975. Nove anos depois, os Reds (então campeões continentais) foram convidados para participar do aniversário de 75 anos dos aurinegros. Já em 1992, ambos participaram de um torneio amistoso em Paris, para levantar fundos à tragédia no estádio do Bastia, que deixou 18 mortos e mais de dois mil feridos, depois que as arquibancadas cederam durante a semifinal da Copa da França. Por fim, em 2014, o Liverpool recebeu o Dortmund no supracitado encontro em Anfield, que marcou o primeiro contato de Jürgen Klopp com o estádio.

Bônus: Jürgen Klopp

E não dá para negar o elo atual que existe entre Dortmund e Liverpool, provocado pelo treinador. Se ainda tenta se firmar em Anfield, o comandante é idolatrado no Signal Iduna Park. Além disso, as entrevistas e a empolgação à beira do campo já ganham também o carinho dos Reds. Para brincar com o ex-técnico, os aurinegros resolveram colocar uma plaquinha indicando qual o vestiário correto para os visitantes em Dortmund.

kloppoo
“Eu sei que muitas pessoas estarão felizes em me ver novamente, mas não é a melhor situação para ver amigos. Mas eu não tenho problemas se alguém vier me abraçar – se eu conhecê-lo, claro! No fim das contas, isso é um jogo de futebol. Todos nós começamos jogando contra nossos melhores amigos quando éramos crianças e eu não me lembro do momento quando, porque era meu melhor amigo, eu não quis ganhar. Isso é absoluta besteira. Eu não tive momentos ruins no Dortmund, por nem um segundo, e ninguém precisa me mostrar nada. Eu conheço nossa relação. Podem vaiar se quiser”, declarou Klopp, em entrevista ao Guardian. “Eu lido bem com o sorteio, com o jogo, com tudo – mas não estou feliz com as histórias em torno de mim, pessoalmente. Não precisava disso, mas eu preferia evitar”.

O canal alemão Sport1 preparou a ‘Klopp Cam’ para a transmissão, com a qual acompanhará o treinador durante os 90 minutos. E ele promete não se conter à beira do campo, independente do passado que construiu no Signal Iduna Park.

“Se o time marcar um gol, claro que eu vou comemorar. Eu fiz isso quando voltei ao Mainz com o Dortmund, após 18 anos de clube. Se em sete anos eles não me conhecem bem o suficiente, o que posso dizer? Depende. Se for no primeiro minuto eu não sei, não irei sair correndo. Mas, se for importante, decisivo, veremos o que acontece. Não é algo que eu planeje, mas eu não tomarei pílulas para me controlar na comemoração. No Mainz eles sabiam disso. Era o que esperavam quando voltei. Eu fiz de tudo pelo Mainz, pelo Dortmund e agora pelo Liverpool – é como é. Meu pai me amava, mas sempre que jogávamos um contra o outro ele queria me vencer. Demorei 15 anos para batê-lo pela primeira vez, mas não foi problema e não havia dúvidas sobre nossa relação. Isso é um jogo, por mais que as pessoas nem sempre estejam cientes disso”, complementou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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