Alemanha

Os 80 anos de Seeler, o artilheiro implacável que se tornou lenda na Alemanha e nas Copas

Era um sujeito sui generis. Quando a Alemanha Ocidental entrava em campo pela Copa Pelé, o torneio de masters organizado por Luciano do Valle em 1987, o camisa 16 logo chamava atenção. O senhorzinho de 1,69 m já tinha passado dos 50 anos e apresentava uma forma um tanto quanto arredondada. Pois ali estava um dos maiores artilheiros da história do futebol. Uwe Seeler sempre foi um homem atarracado. Seu porte físico, na verdade, servia de trunfo. O veterano por anos foi o melhor exemplo do Panzer alemão, o tanque de guerra pronto para disparar o seu canhão e estufar as redes. Disputou quatro Copas do Mundo, justamente no jejum entre o primeiro título alemão e o segundo. Nada que diminuísse sua aura como ídolo incontestável do Nationalelf. Lenda que chegou aos 80 anos de idade no último sábado e foi homenageado em todo o país.

O sangue boleiro corria nas veias de Uwe. Ele era filho de Erwin Seeler, um dos jogadores mais adorados de Hamburgo, que defendeu times de trabalhadores e na década de 1940 fez sucesso no Hamburgo. Além disso, seu irmão mais velho, Dieter, também calçou chuteiras profissionalmente. Uwe ingressou nas categorias de base do Hamburgo em 1946, aos 10 anos. Nem precisou esperar tanto assim para chegar ao time principal. Aos 16, já disputava o seu primeiro amistoso. E a estreia aconteceu aos 17, em jogo pela Copa da Alemanha. Naquele momento, iniciava-se a maior história do futebol às margens do mar hanseático.

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Seeler reunia todas as características de um atacante letal. Posicionava-se bem, sabia usar o seu corpo, era eficiente nas finalizações, esbanjava potência. Nem por isso deixava de ter habilidade. E, mesmo baixinho, era famoso por sua capacidade no jogo aéreo, em especial pelos gols acrobáticos que conseguia marcar. Tornou-se titular absoluto do Hamburgo já em 1954/55. Além disso, o seu sucesso nas seleções de base acelerou a primeira convocação ao Nationalelf. Sepp Herberger apostou no centroavante em outubro de 1954, menos de dois meses depois de sua estreia oficial pelo clube. Saiu do banco em amistoso contra a França.

O histórico de Seeler pelo Hamburgo é fantástico. Não à toa, o Panzer é unanimidade como o maior ídolo do clube em todos os tempos. Em suas 10 primeiras temporadas no Campeonato Alemão, marcou 297 gols, com incrível média de 1,11 tento por jogo. Encabeçou os Dinossauros na conquista da antiga Oberliga, em 1960, marcando dois gols na decisão contra o Colônia. Em 1963, ergueu também a Copa da Alemanha. Já em 1963/64, na primeira edição da Bundesliga, o centroavante se consagrou como o primeiro artilheiro do novo campeonato. O tempo e as lesões diminuíram o rendimento do craque, que passou a atuar um pouco mais recuado. Mesmo assim, Seeler encerrou a carreira em 1972 com 404 gols pelo Campeonato Alemão, maior artilheiro da história entre as cinco grandes ligas europeias. Líder nato, também vestiu a braçadeira de capitão por anos.

A idolatria de Seeler em Hamburgo, entretanto, não se restringe aos gols ou aos títulos. Em 1960, ele ficou em terceiro na votação da Bola de Ouro. Passou, então, a ser fortemente assediado pelos clubes italianos. E recusou uma oferta astronômica da Internazionale de Helenio Herrera para permanecer com os Dinossauros. Pesou tanto o gosto por seguir servindo a seleção quanto o amor pela cidade. Pena que a maestria do artilheiro nunca tenha rendido um título além das fronteiras. O HSV caiu nas semifinais da Champions de 1960/61, para o ofensivo Barcelona – de Kubala, Kocsis, Evaristo, Suárez e Czibor na linha de frente. Já em 1967/68, foi derrotado na decisão da Recopa Europeia para o poderosíssimo Milan, de Schnellinger, Rivera, Hamrin e Trapattoni.

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Maior azar veio na seleção alemã. Seeler é, ao lado de Pelé e de Klose, um dos três jogadores a anotar gols em quatro Copas do Mundo. Disputou o torneio de 1958 a 1970, acumulando 21 partidas (a quarta maior marca) e nove gols. Foi o capitão em 1966, na dolorosa derrota para a Inglaterra na decisão, quando acabou eleito para o time ideal do campeonato. E, mesmo tendo declarado a aposentadoria da equipe nacional em 1968, voltou dois anos depois para reassumir a braçadeira. Preparou Gerd Müller como seu sucessor no ataque e Franz Beckenbauer como líder daquela geração, mas não resistiu ao “Jogo do Século” contra a Itália nas semifinais. O Panzer se despediu do Nationalelf com 72 aparições e 43 tentos.

Do lado de fora, Seeler viu seus ex-companheiros triunfarem em 1974, assim como o Hamburgo conquistar a Europa em 1983. Embora colecionando menos taças que seu talento merecia, continuou celebradíssimo na Alemanha. Em 2005, seu pé direito ganhou uma estátua gigante em bronze na frente do Volksparkstadion, casa do Hamburgo. Já neste sábado, voltou ao palco onde se consagrou. Recebeu um bolo pelos 80 anos e viu seu rosto reproduzido em centenas de máscaras nas arquibancadas. Lenda que, nem por isso, tira o sorriso do rosto a qualquer momento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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