Numa partida consideravelmente difícil, o Bayern de Munique contou com um grande facilitador na semifinal da Champions League: Serge Gnabry. Talvez o ponta merecesse a mesma consideração durante o embate com o Barcelona, mas o placar elástico reduziu seu impacto no começo do jogo. Desta vez, não: o camisa 22 sai como o melhor em campo e ainda mais respaldado pelo golaço que abriu a contagem, num momento em que os franceses eram melhores. Se o jovem de 25 anos não tem muita “grife”, sua reputação como estrela vem sendo construída desde que chegou de vez à Baviera na temporada passada. E essa atuação, a um triunfo do título continental, vale demais à sua aclamação.

Não fosse um tal de Robert Lewandowski, Serge Gnabry competiria seriamente ao prêmio de melhor jogador do Bayern nesta Champions. E não que o centroavante o atrapalhe. Na verdade, Lewa se beneficiou tantas vezes da parceria com o ponta para acumular números avassaladores. Gnabry, entretanto, não se limita como um garçom nesta equipe de Hansi Flick. Ele também é um dos jogadores mais decisivos, sem receio de chamar a responsabilidade. Assim aconteceu em diversos momentos ao longo da temporada, sobretudo na competição europeia.

Quando Gnabry chegou ao Bayern de Munique, em 2017, se sugeria apenas uma boa peça na rotação de Carlo Ancelotti, em meio ao eterno dilema da sucessão de Arjen Robben e nas pontas. O histórico não pesava muito a favor do alemão. Renegado pelo Arsenal, mal jogou quando esteve emprestado ao West Brom. Mas ganhou moral com a prata olímpica e, de volta à Alemanha, virou o principal jogador do Werder Bremen. Carregou o time em diversos momentos ao longo da campanha de 2016/17 e, das expectativas de lutar contra o rebaixamento, quase alavancou os Verdes à Liga Europa. O contrato de três anos, acertado por €8 milhões, não oferecia muitos riscos aos bávaros. Até por isso, preferiram emprestá-lo ao .

O ano que passou na Rhein-Neckar Arena foi importante para Gnabry. O ponta mostrou como seu sucesso não se limitava a uma temporada isolada e passou ileso aos últimos meses turbulentos de Carlo Ancelotti. Voltou para ter mais espaço, no ano em que a dupla Robbéry se despedia. E virou muito mais que apenas um reserva. Na bagunçada equipe de Niko Kovac, em que as individualidades eram fundamentais, o novato contribuiu bastante à conquista da Bundesliga 2018/19. Sua capacidade para decidir partidas prevaleceu, sobretudo na reta da campanha. Sairia como um dos melhores em campo nos 5 a 0 sobre o Borussia Dortmund que definiram a Salva de Prata a favor dos bávaros.

Sem mais Robben ou Ribéry, o Bayern sabia que poderia contar com Gnabry. O camisa 22 seguiu garantindo os últimos suspiros ao trabalho de Kovac, com sua furiosa atuação nos 7 a 2 sobre o Tottenham – quando balançou as redes quatro vezes e deu uma assistência. Mas, quando o treinador caiu, melhor para o ponta. Se o seu futebol preponderava naquele catado, evoluiria com a organização coletiva garantida por Hansi Flick. O alemão passou a ter mais gente com quem se associar. Lewandowski não era mais seu parceiro único. O futebol dos bávaros cresceu como um todo e assim aconteceu com o jovem.

Gnabry teve um impacto enorme nos primeiros meses de Flick à frente do Bayern, em especial antes da pandemia. A partir da chegada do novo treinador, contribuiu com nove gols e seis assistências em 14 aparições na Bundesliga. Foi o momento no qual os bávaros saíram da sétima colocação para se consolidarem na liderança. Já na Champions, o ponta saiu como um dos melhores em campo nos 3 a 0 sobre o Chelsea em , mais uma vez dando uma alegria por tabela aos antigos torcedores do Arsenal. Só ficava mesmo atrás de Lewandowski em grau de importância ao momento do clube.

Após a paralisação dos torneios, Gnabry voltou bem, mas não tão efetivo na Bundesliga. Isso até a hora da verdade chegar: importante na final da Copa da Alemanha, reapresentou seu melhor na Champions. A participação direta nos três primeiros gols contra o Barcelona foi vital não apenas pelo momento da partida ou pela frieza do fato, mas pela forma como o ponta os construiu – dando passe, movimentando-se, brigando pela bola, buscando o jogo. Algo que se repetiu mais uma vez diante do Lyon, com um peso muito maior ao confronto.

O primeiro gol do Bayern, logo após a bola na trave do Lyon, é um selo da qualidade de Gnabry. Depois do lançamento excepcional de Joshua Kimmich, o camisa 22 dominou e partiu para cima. O cerco dos adversários era feito por dois, três, quatro homens. O alemão seguiu em busca das frestas, conduzindo a bola colada ao pé. Achou a porta aberta na entrada da área e desferiu o chute de esquerda, indefensável, rumo ao fundo da rede. Lembrou até mesmo aquele Robben de seus melhores tempos – da jogada mais manjada e mais difícil de se conter.

O segundo tento, por sua vez, não se limita a aparecer na pequena área para aproveitar a sobra de Lewandowski. A jogada de Gnabry começou bem antes, na intermediária, quando fez o desarme e se sentiu livre para avançar até o lado esquerdo, tocando para Ivan Perisic – como foi no gol do croata contra o Barcelona, aliás. Desta vez, o companheiro cruzou rasteiro e Lewa escorregou, mas Gnabry estava bem posicionado para cutucar para dentro. Nem precisava de mais, embora o jovem tenha continuado como um escape ao seu time. E, mais importante, também ajudando bastante pela pressão que exerce sem a bola.

Gnabry é um jogador completo. Tem passe, tem , tem finalização. É um dos homens mais criativos da equipe, mas também um dos mais gabaritados para resolver as partidas em um lampejo. E talvez a carreira tortuosa que teve resulte nesta postura sempre disposta, de brigar pela bola e ajudar os companheiros. A promessa do Arsenal não vingou. O que surgiu foi um jogador de equipe ainda melhor, mas com sua pitada de talento para brilhar em diversas partidas. Faz a diferença não só para o Bayern, como também à , como se viu seguidas vezes nas eliminatórias da Eurocopa.

O Bayern renovou o contrato de Gnabry em março de 2019, estendendo seu vínculo até 2023. Atualmente, não se concebe um projeto do clube sem considerá-lo como um dos principais jogadores. Alguns podem até acusar os bávaros de, mais uma vez, concentrarem em si os talentos de outros clubes da Bundesliga. Porém, até pelo seu histórico, o camisa 22 não era das apostas mais óbvias. Aqueles €8 milhões se multiplicaram bastante em três anos. E se alguém ainda acha que falta grife ao ponta depois desta atuação na semifinal da Champions, ele é um dos jogadores que fazem crescer as expectativas de um novo título continental após sete anos. Para ninguém questionar seu destaque num dos melhores times das últimas temporadas.