Copa da Alemanha

Há 10 anos, o Dortmund vencia uma das mais célebres finais da Copa da Alemanha: 5×2 no Bayern, com três de Lewa

O Dortmund venceu a quinta partida consecutiva contra o Bayern e ampliou o amargor dos rivais naquela temporada

O Borussia Dortmund desfrutou de um biênio dourado em 2010/11 e 2011/12. A equipe dirigida por Jürgen Klopp atingiu o ápice num processo de reconstrução do clube, após grave crise financeira, e conquistou a Bundesliga por duas temporadas consecutivas. Uma das partidas mais emblemáticas do período, contudo, aconteceu paralelamente, para garantir a dobradinha nacional. Na decisão da Copa da Alemanha, o BVB encarou o Bayern de Munique e emplacou uma das maiores goleadas da história do Klassiker, com os 5 a 2 no Estádio Olímpico de Berlim. Seria uma noite marcante também por compor uma temporada de sofrimento para os bávaros, com o “tri vice”. Robert Lewandowski, então vestindo amarelo e preto, seria o herói daquele título com uma tripleta.

Aquela temporada não seria impecável para o Borussia Dortmund. Pelo contrário, a equipe teve momentos ruins durante o primeiro semestre, mesmo vindo de uma emblemática conquista na Bundesliga 2010/11. Os aurinegros não começaram bem a tentativa do bicampeonato em 2011/12 e venceram apenas duas partidas nas primeiras seis rodadas, com três derrotas no intervalo. Além disso, a participação na fase de grupos da Champions League foi catastrófica. O BVB somou míseros quatro pontos e terminou na lanterna da chave com Arsenal, Olympique de Marseille e Olympiacos.

Uma aguardada reação do Dortmund não aconteceu na Champions. Na Bundesliga, entretanto, ela se iniciaria ainda no fim de setembro. A partir da sétima rodada, a equipe de Jürgen Klopp somou 22 pontos em 24 possíveis. Do 11° lugar, passou a lutar pelo topo da tabela com o Bayern de Munique dirigido por Jupp Heynckes. Inclusive, no Klassiker do primeiro turno, os aurinegros ganharam dentro da Allianz Arena por 1 a 0. Mario Götze balançou as redes no segundo tempo e viu os bávaros sucumbirem na hora de tentar a reação. Todavia, por mais que o BVB tenha tomado a liderança ao bater o Schalke 04 no dérbi da rodada seguinte, empates consecutivos contra Borussia Mönchengladbach e Kaiserslautern deram o simbólico título de inverno ao próprio Bayern, três pontos à frente.

(PATRIK STOLLARZ/AFP/GettyImages/One Football)

O melhor daquele Dortmund estava por vir, porém. O segundo turno do time de Jürgen Klopp seria impecável e renderia não apenas o bicampeonato, mas também o recorde de pontos da Bundesliga até então. Os aurinegros venceram 15 das 17 partidas, com dois empates além disso. A lista de placares inclui algumas goleadas avassaladoras. A equipe assumiu a liderança no início de fevereiro e não saiu mais. Além disso, ganhou de novo o reencontro com o Bayern, dentro do Signal Iduna Park no meio de abril.

Naquele momento, restando mais cinco partidas, o Bayern estava três pontos atrás e poderia reabrir o campeonato com uma vitória. Não foi o que aconteceu, em tempos nos quais o Dortmund não se mostrava tão suscetível nos jogos grandes contra os rivais e venceu por 1 a 0. Seria uma partida equilibrada, com clima de decisão e chances para os dois lados. Os aurinegros preferiram se resguardar um pouco mais e segurar o empate. Isso até que, aos 32 do segundo tempo, o gol saísse. Na sobra de um escanteio, Kevin Grosskreutz bateu fraco e Robert Lewandowski apareceu no meio do caminho para desviar de letra. Um gol de pura malícia do artilheiro para vencer Manuel Neuer.

A cena mais lembrada daquela partida, no entanto, ficaria para depois disso. Aos 41 do segundo tempo, o Bayern ganhou um pênalti a seu favor. Arjen Robben cobrou e Roman Weidenfeller defendeu sem nem dar rebote. Enquanto o holandês se lamentava, com as mãos na cabeça, Neven Subotic correu até ele para gritar poucas e boas diante de sua cara. Antes do fim, Subotic quase marcou um gol contra e acabou salvo pelo travessão. O rebote caiu nos pés do abalado Robben, que isolou na pequena área. O bicampeonato dos aurinegros parecia decidido ali mesmo.

(CHRISTOF STACHE/AFP/GettyImages/One Football)

Com os seis pontos de vantagem, o Dortmund consumou o título duas semanas depois, ao vencer o Borussia Mönchengladbach por 2 a 0. Seria uma campanha de 81 pontos do time de Jürgen Klopp. A temporada, além do mais, ofereceu um grand finale para o BVB: a decisão da Copa da Alemanha. Seria também a chance de revanche ao Bayern, embora as expectativas fossem maiores para a decisão da Champions uma semana depois, em Munique. No Klassiker de Berlim, a equipe de Jupp Heynckes poderia esquentar os motores contra a pedra no sapato dentro da Alemanha.

A campanha do Borussia Dortmund naquela Copa da Alemanha não chamava grande atenção. A caminhada inteira se desenvolveu contra adversários das divisões de acesso: Sandhausen, Dynamo Dresden, Fortuna Düsseldorf, Holstein Kiel e Greuther Fürth. Foi necessário até passar pelos pênaltis contra o Fortuna e pela prorrogação na semifinal ante o Fürth. O Bayern tinha percorrido um caminho mais duro, até por precisar superar um embalado Borussia Mönchengladbach nos pênaltis durante as semifinais. Todavia, pelo histórico recente no clássico, o favoritismo era do BVB.

O Dortmund contava com uma escalação decorada por muitos torcedores. Roman Weidenfeller era o ídolo no gol. A linha defensiva tinha sua formação clássica com Lukasz Piszczek, Mats Hummels, Neven Subotic e Marcel Schmelzer. Sebastian Kehl e Ilkay Gündogan, este um dos reforços da temporada, protegiam a cabeça de área. A trinca de meias tinha os elétricos Jakub Blaszczykowski e Kevin Grosskreutz nas pontas, além de Shinji Kagawa vivendo a melhor fase de sua vida na armação. Já Robert Lewandowski era o centroavante e artilheiro do time na sua temporada de eclosão. No banco, o principal nome era Mario Götze, em temporada atrapalhada pelas lesões. Lucas Barrios vivia declínio, enquanto Ivan Perisic era outra novidade recente.

(PATRIK STOLLARZ/AFP/GettyImages/One Football)

O Bayern de Jupp Heynckes não era menos intimidador e nem menos histórico. A defesa alinhava Manuel Neuer, Philipp Lahm, Jérôme Boateng, Holger Badstuber e David Alaba. Bastian Schweinsteiger e Luiz Gustavo davam sustentação ao meio. Arjen Robben e Franck Ribéry eram as máquinas nas pontas, com Toni Kroos na armação e Mario Gómez na referência. O banco deixava um pouco a desejar, mas Thomas Müller era uma ótima opção. Contudo, não era uma equipe madura o suficiente.

O Dortmund não precisou de muito tempo para abrir o placar em Berlim, com o primeiro gol anotado aos três minutos. Luiz Gustavo deu um péssimo recuo, para Kuba sair de frente para o gol. O polonês rolou para o lado diante de Neuer e Kagawa estava na boa para conferir às redes. O Bayern empatou aos 25, num pênalti cometido por Weidenfeller sobre Mario Gómez. Desta vez, Robben converteu. E os problemas dos aurinegros se tornaram maiores aos 34, quando Weidenfeller saiu lesionado, dando lugar a Mitchell Langerak. Os companheiros de ataque, então, compensariam ao BVB.

O Borussia Dortmund retomou a vantagem aos 41, num pênalti sofrido por Kuba, que Hummels marcou. Já nos acréscimos, um ataque rápido garantiu o terceiro dos aurinegros. Kagawa deu um tapa por entre os zagueiros e Lewandowski escapou na área, batendo por baixo de Neuer. A situação era confortável e ficaria melhor aos 13 do segundo tempo, num passe de Grosskreutz para Lewandowski soltar uma pancada cruzada e anotar o quarto. Com a goleada desenhada, só um desastre tiraria o título do BVB. Até gritos de “olé” se ouviam a esta altura no Estádio Olímpico.

O Bayern daria um sopro de esperança à sua torcida com 30 minutos, num golaço de Ribéry. O francês se livrou da marcação dupla com um drible sensacional e chutou rasteiro de fora da área, longe do alcance de Langerak. Mas, seis minutos depois, seria a vez do Borussia Dortmund sacramentar o resultado em 5 a 2. Numa falha de Neuer, que soltou a bola nos pés de Piszczek, o lateral cruzou por cima do goleiro fora de posição e encontrou Lewa. O centroavante cabeceou com a meta aberta e completou sua tripleta. Coroou a noite perfeita de sua equipe.

O Borussia Dortmund desfrutava de sua glória, com a quinta vitória consecutiva no Klassiker. A equipe de Jürgen Klopp esbanjava qualidade coletiva, embora os destaques individuais chamasse atenção de outros times. Sob os olhares de Sir Alex Ferguson nas arquibancadas, Kagawa deixou o clube semanas depois rumo ao Manchester United. Quem ficou mais um tempo para ainda viver grandes momentos foi Lewandowski. A impressão deixada sobre os bávaros naquela noite, de qualquer maneira, certamente influenciou seu destino e a mudança que viveria em 2014.

Já o Bayern teria motivo maior para lamentar, com a derrota para o Chelsea uma semana depois, na final da Champions League. Aquelas dores certamente moldaram o caráter do time de Jupp Heynckes, que voltou muito mais forte para 2012/13. Do tri vice, os bávaros foram à Tríplice Coroa e o ponto alto ocorreu exatamente no Klassiker mais importante da história, a final da Champions em Wembley. Seria uma noite particularmente redentora para Robben. Enquanto aquele dia ainda não chegava, porém, o Dortmund teve seu tempo de desfrutar a hegemonia no clássico. Algo que se reverteria por completo tempos depois.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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