Bundesliga

Os 30 anos do segundo tri do Bayern, um timaço nos anos 1980 menos lembrado do que deveria

Quando se listam os grandes times do Bayern de Munique, a referência básica quase sempre se concentra naqueles que conquistaram a Champions. Os tricampeões continentais, que também acumularam um tricampeonato nacional na década de 1970. Os responsáveis por recuperar a glória em 2001, em outro período de três títulos consecutivos no país. E os redentores de 2013, iniciando o pentacampeonato da Bundesliga, feito inédito – e que talvez se amplie ainda mais nos próximos anos. Raros se lembram do segundo tricampeonato do Bayern, faturado nos anos 1980. O time que ficou no quase além das fronteiras pode não ser tão brilhante quanto os outros citados. Ainda assim, possui seus craques e merece as devidas reverências, pela maneira como recolocou a Alemanha sob seus pés, depois de anos bastante difíceis na Baviera. Retomada do clube que completou 30 anos de seu ápice nesta terça.

O Bayern de Munique enfrentou uma crise na primeira metade da década de 1980. A geração de ouro já tinha se desmanchado e os sucessores, protagonizados por Karl-Heinz Rummenigge e Paul Breitner, até conseguiram recuperar a Salva de Prata. Depois de cinco anos de jejum, o maior intervalo sem títulos do clube desde sua primeira conquista na Bundesliga, os bávaros foram bicampeões alemães em 1979/80 e 1980/81. Sucesso que antecederia uma séria derrocada financeira, com dívidas se acumulando e o risco de quebra. A solução veio na transferência de sua grande estrela. Em 1984, Rummenigge foi vendido à Internazionale, como segunda maior transação da história do futebol até então. Um dinheiro bem-vindo para que se contornassem os débitos em Munique, assim como para iniciar um processo de renovação no elenco, baseado em jovens jogadores.

A aposta para o novo momento do Bayern seria trazida do Borussia Mönchengladbach. Lothar Matthäus tinha 23 anos e uma bagagem já considerável, presente na Copa do Mundo dois anos antes. O escolhido para protagonizar a reformulação dos bávaros, que não tinham passado da quarta colocação nas duas temporadas anteriores. Seria a liderança técnica de um elenco moldado basicamente nos anos anteriores, sem grandes transações estelares. Exceção feita a Sören Lerby e a Jean-Marie Pfaff, de resto o grupo reuniria muitos jovens talentos, formados na base ou pinçados em clubes de menor expressão.

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Além disso, um grande diferencial estava no banco de reservas. De volta ao clube em 1983, após um hiato de oito anos, Udo Lattek tinha a clara missão de levar o Bayern de volta ao topo. O treinador responsável por elevar o esquadrão de Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Sepp Maier e tantos outros mirava uma nova identidade à equipe em sua segunda passagem pelos bávaros. Precisava recobrar a aptidão do time às vitórias, o que não se viu com a irregularidade e a dependência da dupla “Breitnigge” nos anos anteriores. Tarefa árdua, mas que não demoraria a ser cumprida.

O Bayern de Munique sobrou naquela Bundesliga para reconquistar a taça. A sequência de nove vitórias nas primeiras dez rodadas garantiu a folga na liderança, mantida até o final da campanha. O Werder Bremen de Otto Rehhagel foi o principal perseguidor, mas sem encurtar a distância. Matthäus, como esperado, cumpriu o papel de estrela da companhia. O meio-campista anotou 16 gols e somou mais minutos em campo do que qualquer outro. Ao seu lado, mais um grande destaque trazido no início da temporada foi Roland Wohlfarth. O centroavante de 21 anos, comprado do Duisburg, foi o vice-artilheiro da equipe, com 12 gols. Na zaga, o líbero Klaus Augenthaler se colocou como grande referência, ao lado de Norbert Eder. Já o talento de Lerby no meio também fez a diferença, rendendo 11 tentos.

Naquela temporada de reconquista, o Bayern ainda ficou no quase em outras duas competições. Perdeu a decisão da Copa da Alemanha para o Bayer Uerdingen e parou nas semifinais da Recopa Europeia, caindo para o Everton. Decepções que seriam refeitas em pouco tempo. Mais estáveis em suas finanças, os bávaros ainda assim não cometeram loucuras no mercado de transferências, priorizando a manutenção do elenco. No máximo, alguns reforços pontuais, mas apenas para somar ao banco de reservas.

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Para conquistar o bicampeonato, o Bayern teve muito mais trabalho. Afinal, o Werder Bremen parecia pronto para reerguer a Salva de Prata após 20 anos. Mesmo perdendo Rudi Völler durante parte da campanha por lesão, os Verdes contavam com os gols de Manfred Burgsmüller e Frank Neubarth para se manter na liderança. O time de Otto Rehhagel assumiu a primeira colocação na segunda rodada e só a deixou por uma semana até o fim de abril. Enquanto isso, os bávaros oscilavam, apesar das muitas goleadas aplicadas. Faria diferença a sequência invicta dos comandados de Udo Lattek na reta final. Na penúltima rodada, o empate no confronto direto evitou que o Bremen levasse o título por antecipação. Assim, a reviravolta se consumou no último compromisso. O Stuttgart deu uma ajudinha, derrotando os Verdes (que só dependiam do empate) por 2 a 1. Já o Bayern cumpriu sua parte goleando o Borussia Mönchengladbach por 6 a 0, em atuação inspirada de Wohlfarth. Com os dois times somando 49 pontos, graças ao saldo de gols, a comemoração aconteceu mesmo no Estádio Olímpico de Munique.

Anotando 82 gols, o ataque do Bayern brilhou. Matthäus, Wohlfarth e Lerby pesaram novamente à produtividade ofensiva. Nesta campanha, também despontaram dois irmãos mais novos e menos notáveis: Michael Rummenigge e Dieter Hoeness. Já aos 32 anos, o irmão de Uli Hoeness foi o artilheiro do time, com 15 gols. O caçula de Karl-Heinz, por sua vez, balançou as redes 10 vezes. Vale ressaltar, no entanto, que a defesa acabou sendo mais preponderante. Como o Werder Bremen anotou um gol a mais, a solidez da zaga teve maior influência no critério de desempate. E, neste setor, se sobressaiu o excelente Jean-Marie Pfaff. Disputando posição com Raimond Aumann, o belga se consolidou na meta, contribuindo com grandes defesas.

O Bayern abrilhantou ainda mais aquela temporada com a dobradinha na Copa da Alemanha. Os bávaros não tiveram piedade dos “amigos” do Stuttgart, goleando os suábios por 5 a 2. Wohlfarth e Michael Rummenigge anotaram todos os tentos da equipe, enquanto Jürgen Klinsmann e Guido Buchwald descontaram para o bom time dos alvirrubros. Só não deu para sonhar mais alto na Champions, com nova queda nas fases finais. O algoz desta vez foi o fortíssimo Anderlecht, revertendo a derrota por 2 a 1 em Munique com um 2 a 0 na Bélgica.

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Já para 1986/87, o grande reforço do Bayern foi o ascendente Andreas Brehme, trazido a peso de ouro do Kaiserslautern. Enquanto isso, os principais concorrentes mudaram, diante da queda de produção do Werder Bremen. O Bayer Leverkusen se colocou como uma ameaça até o início do segundo turno, antes de acumular maus resultados. Já o Hamburgo tentou perseguir os bávaros no segundo turno, sem muito sucesso. De qualquer maneira, mais do que a derrocada dos oponentes, é preciso destacar a ótima forma do time de Udo Lattek. O Bayern sofreu uma mísera derrota nos 34 jogos, para o Leverkusen, em novembro. Além disso, foram 20 vitórias, que impulsionaram o tricampeonato alemão.

Durante o tri, o ataque não conseguiu ser tão produtivo. Marcou 67 gols, 15 a menos se comparado com a campanha anterior. Já a defesa, liderada por Pfaff e Augenthaler, manteve a regularidade, com 31 gols sofridos. Matthäus viveu outro ano mágico, recuperando a artilharia da equipe, com 14 gols anotados. E, além dos nomes já mencionados, cabe destacar também a participação de Hans Pflügler. O lateral com aptidões ofensivas dominava o lado esquerdo, enquanto Brehme aparecia pelo meio. Eder, Hoeness, Rummenigge e Wohlfarth permaneciam entre os demais destaques no elenco de Udo Lattek – já Lerby foi a principal venda naqueles anos, negociado ao PSV, onde também faria história.

O empate por 2 a 2 com o Bayer Uerdingen em 6 de junho, que selou o tricampeonato, serviu também para suplantar a frustração do Bayern na Copa dos Campeões. Os bávaros fizeram uma campanha impecável na competição continental. Eliminaram PSV, Austria Viena, Anderlecht e Real Madrid (com direito a goleada por 4 a 1 sobre os merengues no Estádio Olímpico) até alcançarem a final. Mas não foram páreos ao Porto no embate do Estádio Ernst Happel. De virada, os portugueses buscaram o triunfo por 2 a 1. A atuação de Rabah Madjer, com direito a um golaço de calcanhar para empatar o confronto, entrou para os anais da competição.

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O sonho do tetra ruiria em 1987/88. Udo Lattek deixou o comando do time para Jupp Heynckes, que não conseguiu extrair a mesma produtividade de seus jogadores. Melhor para o Werder Bremen, enfim cumprindo as expectativas de sua torcida, ainda sob as ordens de Otto Rehhagel. Os verdes encerraram a campanha com quatro pontos a mais, contando demais com a segurança de sua defesa. Nem mesmo a adição do atacante Mark Hughes, contratado junto ao Barcelona para substituir o aposentado Dieter Hoeness, ajudou os bávaros. Já na Champions, outra campanha encerrada precocemente, caindo para o Real Madrid nas quartas de final.

Uma profunda reformulação se deflagrou no Bayern em 1988/89. Matthäus e Brehme rumaram à Internazionale, enquanto outros nomes importantes também saíram, como Pfaff, Eder e Rummenigge. Por outro lado, chegaram Olaf Thon, Stefan Reuter e Johnny Ekström. A taça voltou ao Estádio Olímpico de Munique, com Jupp Heynckes comandando uma conquista folgada, antes de faturar ainda o bicampeonato na temporada seguinte. Estas, porém, histórias para serem contadas em outra ocasião.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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