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Borussia Dortmund, Hummels e quando o amor pelo capitão vira ódio

O desconforto já foi visível durante o aquecimento. Quando Hummels dirigia-se de volta aos vestiários, a sempre fiel torcida do Borussia Dortmund expressou a sua decepção. Tirou o que consideram ser uma traição da garganta e soltou em cima do capitão do time. Esta semana, foi anunciado pelo próprio Dortmund que Hummels pediu para voltar ao Bayern de Munique, clube em que foi formado e no qual seu pai trabalhou.

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Toda vez que Hummels tocava na bola na goleada por 5 a 1 sobre o Wolfsburg, as vaias começavam em setores do Signal Iduna Park. Depois do jogo, o zagueiro tentou minimizar a clara insatisfação da torcida. “Não eram torcedores de verdade”, afirmou, segundo o site sport1.de. “Era apenas um grupo de aproximadamente 300 pessoas que na verdade nunca gostaram de mim e aproveitaram isso para expressar sua raiva. Eu pude ver de onde vinham as vaias”.

O técnico Thomas Tuchel defendeu o seu capitão e disse que outra parte da torcida percebeu o que estava acontecendo e tentou apoiá-lo. “Foi uma atmosfera ambivalente”, analisou. “Seus toques na bola motivaram vaias e então uma maioria da torcida tentou minimizá-la com aplausos. Não é uma situação legal sentir esse tipo de atmosfera para o seu capitão no seu próprio estádio, mas Mats sempre soube que ele seria defendido pelo time, independentemente do que acontecesse”.

 

Na quinta-feira, o Borussia Dortmund emitiu um comunicado anunciando que Hummels avisou a diretoria do clube que deseja ser negociado com o rival Bayern de Munique. Acrescentou que não existe uma cláusula que prevê a sua saída e que qualquer negociação depende de uma proposta “extraordinária”. Caso contrário, ele terá que cumprir o seu contrato até o fim da próxima temporada, em junho de 2017.

No entanto, uma faixa da torcida pede que o zagueiro deixe o clube agora mesmo, uma vez que sua vontade de ir embora é tão latente. Muito da insatisfação vem da aparência de que Hummels procurou o rival para ir embora, mas o principal executivo do Bayern de Munique, Karl-Heinz Rummenigge, afirmou que a história não é bem essa. “Nós batemos na porta dele, não vice-versa. Hummels não nos procurou agressivamente”, disse. “Por isso, entendo a reação da torcida do Dortmund até certo ponto”. Com Benatia provavelmente voltando para a Itália, o Bayern está em busca de outro zagueiro de primeira linha para fazer dupla com Boateng. Hummels é a escolha perfeita, não só pela sua qualidade, mas porque já joga ao lado dele na seleção alemã.

Caso Hummels seja de fato negociado, isso representaria uma mudança de ideia significativa para o zagueiro, que em 2012 rechaçou uma tentativa do Bayern de comprá-lo de volta aproveitando uma cláusula em seu contrato. Hummels meses depois, ainda disse que “não dá a mínima” para o Bayern de Munique. “Eu perdi completamente minha ligação com o clube”, disse ao jornal Bild. Naquela época, ele estava contrariado porque os bávaros haviam demitido o seu pai, que era treinador das categorias de base.

Quando Götze aceitou a proposta do Bayern de Munique, Hummels soltou algumas declarações públicas reprovando essa decisão. Disse, também ao Bild, que não entendia por que ele desejava sair do Borussia Dortmund. “Todos conseguem ver como nosso time é bom. Não acredito que haja qualquer motivo esportivo para ir embora”, disse. Em 2014, quando renovou contrato, alfinetou novamente, afirmando que prefere “ganhar um título como uma peça central do que vários como coadjuvante”. E acrescentou: “Não preciso ganhar oito campeonatos nacionais até o fim da minha carreira. Eu prefiro algo especial”.

São palavras que soaram como música para a apaixonada torcida do Borussia Dortmund, que teve que se acostumar com as despedidas durante os anos dourados em que o clube foi bicampeão alemão e chegou à final da Champions League. Um grande jogador foi embora por temporada a partir de 2011: Sahin, Kagawa, Götze e Lewandowski. Os dois últimos, inclusive, foram para o Bayern de Munique. Os dois primeiros voltaram. É uma realidade que até mesmo o técnico Thomas Tuchel reconhece. “Temos que aceitar que há uma categoria de clubes acima de nós, e o Bayern pertence a essa categoria”, disse, na última sexta-feira.

Além disso, Hummels tem ligações com Munique e com o Bayern. Sua família é da cidade e foi lá que ele começou a sua carreira. Foi promovido ao time titular na temporada 2007-08, aos 19 anos, mas o máximo que conseguiu foi aparecer no banco de reservas duas vezes durante o primeiro semestre. Foi emprestado por 18 meses para o Borussia Dortmund pelo técnico Ottmar Hitzfeld. Quando esse contrato provisório terminou, o novo comandante era Jürgen Klinsmann, que também não queria aproveitá-lo, e ele foi vendido em definitivo por aproximadamente € 4 milhões (R$ 15 milhões).

São aspectos particulares que amenizam a decisão de Hummels para alguns torcedores, mas outros muitos ficam irritados, e por motivos compreensíveis. Houve uma mudança brusca de posicionamento em relação a abordagens anteriores do Bayern de Munique, que pega muitos fãs desprevinidos. O primeiro ano de Tuchel, depois de um campeonato sofrível com Klopp, foi animador e é grande a expectativa para as próximas temporadas. Seria muito ruim perder, neste momento, não apenas um dos principais jogadores do time, mas um símbolo, o capitão, talvez o homem que melhor represente o sucesso dos últimos tempos. E deve ser bem chato ver o Bayern de Munique contratar seus craques toda hora.

E evidentemente, porque amaram Hummels, e esse é um sentimento com grande potencial de se transformar em raiva diante do que se considera uma traição.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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