“O futebol é um esporte muito simples, no qual 22 homens correm atrás da bola e a Alemanha sempre vence no final”. A frase de Gary Lineker se transformou em um clássico do futebol e, segundo algumas fontes, teria sido cunhada há exatos 30 anos. Em 4 de julho de 1990, Inglaterra e Alemanha Ocidental travaram um dos maiores embates da história da rivalidade, valendo uma vaga na final da Copa do Mundo. Lineker estava em campo e até marcou gol em Turim, contribuindo à grande partida dos Three Lions, melhores naquela noite. Melhores, mas não vencedores. Como bem definiria o artilheiro, a Mannschaft se valeu do empate por 1 a 1 (no qual também teve suas chances de ganhar) e avançou nos pênaltis, graças ao triunfo por 4 a 3. Talvez o jogo mais emblemático em sua caminhada ao tricampeonato mundial na Itália.

A Alemanha Ocidental era um dos melhores times da Copa do Mundo e cumpria seu favoritismo nos mata-matas. Superou outra potência nas oitavas, com o triunfo por 2 a 1 em cima da Holanda, quando a estratégia dos alemães funcionou muito bem. Depois, em outra partida sem sobressaltos (mas sem brilhantismos), eliminaria a Tchecoslováquia por 1 a 0 na etapa seguinte. Lothar Matthäus, em particular, gastava a bola no meio-campo germânico. A Inglaterra, por outro lado, sofreu mais nas fases eliminatórias. Passou aperto contra a Bélgica, precisando vencer com um gol no penúltimo minuto da prorrogação. Já diante de Camarões, mais sofrimento até que a vitória por 3 a 2 se consumasse em novos 120 minutos. Mas era um time capaz, com bons jogadores.

A Inglaterra repetiu praticamente a mesma escalação das quartas de final para encarar a Alemanha Ocidental. Sir Bobby Robson trocou apenas o machucado John Barnes por Peter Beardsley na linha de frente. O destaque ficava para a trinca talentosa formada por Paul Gascoigne, Chris Waddle e o ascendente David Platt na faixa central, além de Gary Lineker como referência ofensiva. Já Franz Beckenbauer mudaria bastante a equipe alemã do meio para frente. Rudi Völler voltava de suspensão e formaria novamente o ataque com Jürgen Klinsmann, relegando Karl-Heinz Riedle ao banco de reservas. No meio, só Matthäus e os alas seguiriam. Os lesionados Uwe Bein e Pierre Littbarski saíam, para as entradas dos dinâmicos Olaf Thon e Thomas Hässler.

As formações de Alemanha Ocidental e Inglaterra (Fonte: Revista Blizzard)

Durante o primeiro tempo, a Inglaterra surpreendeu ao ser mais consistente que a Alemanha Ocidental. O Nationalelf não conseguiu superar a trinca de zaga inglesa e se limitou a chutes de longe, sem muito perigo ao goleiro Peter Shilton. Parecia até um bocado nervosa a equipe alemã. Bodo Illgner, do outro lado, teve muito mais trabalho. Gascoigne dominava o meio-campo e vencia o confronto com Matthäus no setor, aplicando dribles até mesmo no craque alemão. O camisa 19 organizava o jogo e também arriscava os chutes mais perigosos. Exigiu duas boas defesas do goleiro durante os primeiros minutos. A Inglaterra pressionava mais os defensores adversários, tomando a iniciativa e saindo com velocidade.

A Alemanha Ocidental ainda precisou se virar sem Völler, que se lesionou aos 33 minutos e deu lugar a Riedle. Enquanto a troca não acontecia, quase a Inglaterra abriu o placar num lance monumental. Waddle estava um pouco mais à frente do círculo central, quando arriscou um chute de primeira. Quase encobriu Illgner, que saltou para trás e espalmou uma bola dificílima. O goleiro precisou contar com o auxílio do travessão, que barrou de vez a tentativa. Uma falta havia sido apitada pouco antes e o lance não valeria, o que não exclui a genialidade e o milagre. Só depois disso, às portas do intervalo, que Shilton faria sua primeira intervenção. Klaus Augenthaler bateu de longe e o veterano desviou para fora.

Na volta ao segundo tempo, a Alemanha melhorou. Matthäus avançava mais em campo, Andreas Brehme acelerava pela ala esquerda e os meio-campistas encostavam no ataque – por mais que andasse difícil de invadir a área, com a sólida zaga inglesa em ótima atuação, especialmente Des Walker. Thon já tinha esquentado as luvas de Shilton, antes que a Mannschaft abrisse o placar aos 15 minutos – com uma dose de sorte, é verdade. Em cobrança de falta pela direita, Brehme chutou em cima de Paul Parker, que corria para abafá-lo. A bola ganhou altura e caiu exatamente no ponto para encobrir Shilton, morrendo nas redes. O goleiro ainda tocou na pelota, sem conseguir salvar.

A Inglaterra precisava pressionar e saiu ao ataque na meia hora restante. Empurrava a Alemanha contra a sua defesa e os germânicos recorriam às faltas – com direito a uma reclamação de pênalti dos britânicos não atendida pelo árbitro José Roberto Wright. Aliás, podia ser um duelo intenso e batalhado, mas não desleal, e os times diversas vezes indicavam sua cordialidade quando a bola parava. As bolas cruzadas geravam as melhores chances dos Three Lions, ainda sob a batuta de Gascoigne. O empate aconteceu aos 35, graças a um erro da defesa adversária. Jürgen Kohler rebateu mal um cruzamento de Parker, que sobrou para Lineker. O centroavante tirou Thomas Berthold e Augenthaler apenas no domínio com a coxa, antes de chutar no contrapé do imóvel Illgner. O tento que forçou a prorrogação.

Pela terceira partida consecutiva, a Inglaterra jogaria mais 30 minutos. Era a primeira prorrogação da Alemanha Ocidental, mais inteira fisicamente. O time de Franz Beckenbauer melhorou e até o apagado Jürgen Klinsmann aparecia mais. O artilheiro quase marcou nos primeiros minutos, em cabeçada que Shilton salvou com uma defesaça à queima-roupa. O Nationalelf concentrava as chances de gol, mas a melhor oportunidade do primeiro tempo extra seria dos ingleses. Waddle chutou cruzado com muita potência. Illgner, com a pontinha dos dedos, desviou o suficiente para que a bola se estatelasse contra a base da trave. De novo, o goleiro salvava sua equipe.

Pouco antes, um momento bastante emblemático daquela partida aconteceu. Gascoigne deu um carrinho com as travas altas no meio-campo, que não pegou em cheio Berthold, mas foi um tanto quanto desnecessário. O meia tentou se desculpar com o lateral, mas o excesso de força não passaria batido por Wright e rendeu o cartão amarelo. Gazza chorou, porque sabia que estaria suspenso de uma eventual decisão se a Inglaterra vencesse. Continuou em campo, dando toda a sua garra pelos Three Lions. Mas, depois, pediria para não cobrar um dos pênaltis ingleses.

“Eu me levantei e virei para o juiz. Ele botou a mão no bolso. De repente, não consigo ouvir nada. O mundo simplesmente para além do homem de preto. Meus olhos seguem a mão dele, para o bolso, então fora com o cartão. Olhei a torcida, a Lineker, e não pude segurar. Naquele momento, eu só queria ficar sozinho. Não queria falar com ninguém ou ver ninguém. Meu lábio inferior era como uma hélice de helicóptero. Fique devastado”, definiria Gascoigne, em sua autobiografia.

Sir Bobby Robson também relembraria aquele momento: “Meu coração apertou no momento em que o árbitro tirou o cartão amarelo. Meu coração foi ao chão. Percebi instantaneamente que era o fim para Gascoigne. E isso era uma tragédia – para ele, para mim, para o time, para o país, para o futebol inteiro. Ele era tão bom e estava excelente naquela partida, em particular. Quanto maior o jogo, melhor ele fica. Gascoigne sabia também, no momento em que recebeu o cartão. Vi o rosto dele mudar, de agressivo, lutando pela bola, a perceber que cometeu um erro. As lágrimas começaram a brotar em seus olhos. E Lineker foi muito esperto, viu imediatamente e disse a mim para ficar de olho em Gazza”.

No segundo tempo da prorrogação, Brehme pegou Gascoigne na lateral e também recebeu amarelo. O lance gerou uma falta perigosa à Inglaterra e Waddle cruzou à área. A defesa da Alemanha parou para fazer linha de impedimento e Platt cabeceou sozinho, rumo às redes. Wright assinalou o impedimento, por causa do posicionamento adiantado de Gascoigne, mas Platt estava na mesma linha do último defensor. Às recomendações da época, em que a falta de interferência de Gazza era vista como infração do mesmo jeito, a marcação não criou polêmicas. Apesar do susto, a Mannschaft seguia botando bem mais pressão e arriscando chutes da entrada da área. Shilton pegou firme uma batida de Thon, mas só torceu em bomba de Augenthaler que também estalou a trave. O destino das equipes seria definido nos pênaltis.

 

Lineker e Brehme começaram convertendo as primeiras cobranças. Beardsley e Matthäus também cumpriram a missão na segunda série. Illgner tocou no chute de Platt, mas não evitou o gol, enquanto Shilton acertou o canto pela terceira vez no tiro de Riedle e não alcançou a bola no alto. A história começaria a mudar na quarta cobrança da Inglaterra, quando o lateral Stuart Pearce encheu o pé no meio e acertou as pernas de Illgner, que defendeu. Thon chutou a penalidade seguinte, Shilton esperou e pela quarta vez chegou atrasado no canto certo. Até que o drama acabasse nos pés de Waddle, que exagerou na força e mandou por cima do travessão.

Não apenas Gascoigne chorava, com a eliminação da Inglaterra. Stuart Pearce era outro muito abatido, e desde antes do erro de Waddle. Matthäus, como um digno capitão, consolava seus adversários. Enquanto isso, a Alemanha Ocidental comemorava efusivamente no Estádio Delle Alpi. A Mannschaft teria uma chance de revanche na final contra a Argentina de Maradona, após a derrota de quatro anos antes. O vencedor na decisão em Roma seria mais um tricampeão do mundo, ao lado de Brasil e Itália. E, naquele momento, o time de Franz Beckenbauer parecia bem mais pronto para dar a volta por cima.

Depois do jogo, Beckenbauer preferiu exaltar as duas equipes: “Eu me recordo de poucas partidas emocionantes como esta. Inglaterra e Alemanha foram iguais em tudo. Na técnica, na vontade de vencer e, principalmente, no preparo físico. Felizmente, fomos vencedores”. Não era pouco, a quem havia vivido de dentro do campo a decisão em 1966 e as quartas de final em 1970. Já Sir Bobby Robson se resignava com a eliminação dolorosa nos pênaltis, depois de tanta valentia de sua equipe: “É uma situação cruel, mas é preciso aceitá-la. O jogo foi muito igual e qualquer time poderia se classificar, que não seria injusto”.

As notas dadas pelo jornal O Globo

A partida recebeu diversos elogios nos jornais do dia seguinte. Em sua coluna no Jornal do Brasil, João Saldanha classificou aquele como o “mais bonito, bem jogado e disputado jogo da Copa”. Já Armando Nogueira escreveu no mesmo jornal: “Até que enfim o belo Estádio Delle Alpi teve o prêmio que não lhe deram os quatro participantes do Grupo C [o do Brasil]: Alemanha e Inglaterra nos deram um dos mais bonitos jogos do Mundial. Uma partida rica de lances vistosos, de troca de passes precisos, de bravura e de correção de todos os jogadores”.

A Inglaterra perderia para a Itália na decisão do terceiro lugar, mas a campanha na Copa de 1990 ainda representou um orgulho ao país – seu melhor desempenho desde o título de 1966, bem-vindo também por todos os problemas extracampo que se enfrentavam, do hooliganismo às tragédias como Hillsborough. Foi um marco à paixão dos ingleses pelo esporte, renovando-a. Mas aquela geração não daria tantos frutos à equipe nacional: nenhum dos jogadores de 1990 voltaria a outro Mundial, com o fracasso nas Eliminatórias de 1994. O limite seria a Euro 1996, sediada no país. De novo caíram nos pênaltis diante da Alemanha na semifinal, com Platt, Pearce e Gascoigne em campo.

Já à Alemanha Ocidental, tinha algo melhor por vir. Sobreviventes do jogaço, os germânicos estavam bastante confiantes para encarar a Argentina. Sabiam que possuíam uma equipe melhor, apesar das armadilhas que a Albiceleste poderia apresentar. De fato, a partida esteve nas mãos da Mannschaft durante a maior parte do tempo, embora a arbitragem (ruim como um todo) tenha dado motivação aos argentinos para reclamarem do pênalti que valeu o gol de Brehme, no triunfo por 1 a 0. Mas os méritos dos alemães não se negavam, forjados tricampeões também por toda a provação em Turim e por saírem vitoriosos da inesquecível batalha.