Paolo Guerrero sustenta um laço raríssimo de se ver com a seleção peruana. Há uma relação recíproca de adoração e de dedicação sem muitos paralelos no futebol atual. A suspensão às vésperas da Copa do Mundo serve como grande símbolo desta história, mas são diversos os episódios em que a paixão aflorada se sentiu ao redor do artilheiro. E esse contexto é essencial para entender o tamanho da atuação do goleador nesta quarta-feira decisiva pela Copa do Brasil. Guerrero recusou uma convocação da Blanquirroja, com seus motivos, para defender o Internacional. Guerrero anotou dois gols que valeram a classificação em cima do Cruzeiro.

A CBF possui grande parcela de culpa pelo calendário sempre problemático, que prejudicou diversos clubes por não respeitar a Data Fifa da maneira devida. Amistosos fúteis das seleções acabam afetando uma sequência decisiva no país. Guerrero avaliou que era muito mais importante seguir no Beira-Rio neste momento do que se apresentar a Ricardo Gareca para os jogos contra Equador e Brasil. Contou com a compreensão do treinador e a devida dispensa da federação peruana.

De certa maneira, Guerrero não só reafirmou seu compromisso com o Inter nesta atitude. Ele agradeceu também o apoio oferecido pelo clube durante sua suspensão por doping, quando indicava um final de carreira bastante incerto. É natural questionar a postura do próprio peruano durante o término de sua passagem pelo Flamengo, assim como os rubro-negros, diante dos desgastes que geraram a separação litigiosa. No Beira-Rio, em contrapartida, as duas partes trataram de manter um trato mais franco desde o início. Isso já vinha se correspondendo na forma de gols, com a excelente fase atravessada pelo veterano ao longo de 2019.

Guerrero não será sempre o centroavante infalível. Possui suas carências e também suas virtudes – que, se bem aproveitadas, podem se tornar mortais. É o que se nota muitas vezes pelo Internacional. O craque não foi suficiente para prevalecer contra o Flamengo, em duelos no qual o próprio sistema de jogo colorado terminou inutilizado pelos adversários. Porém, quando o time consegue encaixar seu estilo, é difícil imaginar que o centroavante não vá balançar as redes. Aconteceu por duas vezes contra o Cruzeiro, enfatizando a atuação muitíssimo efetiva dos gaúchos no Beira-Rio.

Guerrero potencializa o jogo vertical do Inter, pela maneira como explora bem os espaços e contribui ao avanço dos companheiros. Além do mais, seu senso de oportunismo é privilegiado. Isso ficou escancarado nas jogadas de ambos os gols. Ao longo do primeiro, em contra-ataque construído por Edenílson e Nico López, o centroavante tentou se desmarcar para receber. Depois do cruzamento de D’Alessandro, aproveitou o desleixo da zaga para cumprimentar de cabeça. Já no segundo, depois do lindo passe de Nico, Guerrero exibiu seu máximo talento dentro da área. Matou a bola no peito com estilo e nem deixou ela cair para emendar o sem-pulo, com força, fora do alcance de Fábio. Das grandes atuações do peruano no Beira-Rio, nenhuma outra possui este peso, valendo vaga na final da Copa do Brasil.

“Fico feliz pela classificação. Os gols aconteceram graças ao trabalho do time, fico contente pela maneira como jogamos. Como nos jogos em casa, conseguimos colocar nossa intensidade e contamos com o apoio de nossa torcida. É muito gratificante marcar os gols, me sinto muito honrado e orgulhoso”, declarou Guerrero, na saída de campo. “A dispensa tinha que valer a pena. Graças a Deus estamos na final. Estamos fazendo um grande trabalho e continuamos batalhando depois da desclassificação na Libertadores. Pelo sacrifício do dia a dia, estou muito feliz por todos os companheiros”.

Guerrero teve outras boas fases em clubes, as melhores no Brasil. Nada que se compare à imagem que construiu na seleção peruana. Ele foi a grande liderança da Blanquirroja nas Eliminatórias e, antes da repescagem, contribui bastante para que a espera de 36 anos longe do Mundial se encerrasse. Além do mais, também sustentou o orgulho do país na Copa América, com artilharias e campanhas além das expectativas, exemplificadas pela decisão recente no Maracanã. Essa dedicação se paga com o respeito dos peruanos por seu ídolo. E a dispensa aumenta um pouco mais a torcida do Internacional, com os compatriotas que sabem como este momento é importante ao veterano. Não à toa, a reta final da Copa do Brasil recebe uma cobertura especial no próprio Peru.

A dispensa já valeu pelos gols na semifinal. E poderá valer ainda mais, com o primeiro jogo da decisão contra o Athletico Paranaense marcado para a próxima semana. Guerrero é uma face essencial neste momento relevante que o Internacional atravessa. Mesmo que a idade não prometa uma passagem longa pelo Beira-Rio, ele tem grandes condições de ser considerado um ídolo ao se despedir dos colorados. Essa semifinal de Copa do Brasil garante a gratidão da torcida. A possível conquista do título seria seria o passo definitivo à memória.
 

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