O campeão e o vice do Brasileirão 2019 se enfrentaram neste domingo. Santos e Flamengo atravessam momentos distintos em relação aos últimos encontros no ano passado, sobretudo pelas mudanças sensíveis no comando técnico, mas acabaram por entregar um bom duelo na Vila Belmiro. Entretanto, o confronto aberto e o futebol apresentado pelos times, mais uma vez, acabam sobrepostos por outras discussões além da bola rolando. No triunfo por 1 a 0 dos rubro-negros, com postura agressiva do Peixe e aparição decisiva de Gabigol, a pauta principal do debate é o árbitro de vídeo – não necessariamente pela decisão, e mais pela demora.

O VAR, antes de mais nada, não é infalível ou onisciente. É um recurso que deveria facilitar a avaliação dos lances, embora a decisão sempre caiba à capacidade da equipe de arbitragem. O que acontece neste Brasileirão, ainda assim, ultrapassa o aceitável. Como já tinha ocorrido no Botafogo x Internacional deste sábado, a demora na análise das jogadas tem sido gritante. Na Vila Belmiro, foram quase dez minutos de conversas e espera para definir duas jogadas logo no início do encontro. Independentemente se as decisões foram acertadas, é urgente diminuir este tempo para tomar a palavra final e não interferir no ritmo.

O Santos tem seus argumentos para se dizer prejudicado – não pelo primeiro dos dois gols anulados, mas pelo segundo, em que a interferência de Jobson no cruzamento de Marinho é interpretativa. Na transmissão, Sandro Meira Ricci avaliou como correta a decisão, em que o árbitro Wilton Pereira Sampaio avaliou que o braço erguido do santista atrapalha o movimento de Diego Alves. Mas indo além da decisão em si, a arbitragem atrapalhou o jogo de outra maneira. Os dez minutos impactaram no andamento do embate. Que seja necessário tomar uma decisão ponderada, cinco minutos para isso é exagero. O VAR é uma ferramenta essencial quando bem usada, o que não acontece no Brasileirão, porque também requer mais agilidade dentro da dinâmica do esporte – e isso dá margem aos críticos.

Até aquele momento, o Santos era claramente superior ao Flamengo. O Peixe tinha uma postura bastante ofensiva e abria buracos na defesa rubro-negra. Marinho era um pesadelo a Filipe Luís pelo lado direito do ataque e as principais jogadas santistas surgiam com o ponta. Foi assim que ele deu um lindo passe a Pará, que cruzou para Raniel no primeiro tento anulado, em impedimento mínimo só flagrado depois de alguns minutos para ajustar a posição do equipamento. E, depois, o próprio Marinho bateu a falta cruzada no referido lance de Jobson. Ainda que Michael tenha perdido um gol feito do outro lado, com a meta aberta, o Fla tinha dificuldades em sair jogando e sofria bastante para acertar a sua marcação.

O Santos não se recuperou imediatamente após o segundo gol anulado, embora mantivesse uma atitude mais agressiva em relação ao Flamengo, um tanto quanto acuado. As chances do Peixe eram bem mais constantes e perigosas na sequência do primeiro tempo. Diego Alves começou a se tornar decisivo aos cariocas, com uma série de boas defesas, especialmente em arremates de Raniel. Sem a mesma disposição de meses atrás para pressionar na marcação, o Fla ficava com as costas na parede e vacilava, especialmente pela incisividade dos santistas.

No final do primeiro tempo, contudo, o Flamengo cresceu e passou a construir boas jogadas com mais frequência. Os contra-ataques permitiram que os rubro-negros mudassem a história do jogo. Um bom passe de Gabigol acionou o apagado Bruno Henrique, que cruzou a Michael. Com liberdade, o ponta perdoou outra vez, ao parar em boa defesa de João Paulo. E nos longos nove minutos de acréscimos, Gabigol anotou o gol da vitória. O contra-ataque começou a partir de um passe interceptado pelo próprio artilheiro. A movimentação com Michael foi bastante inteligente e, enquanto o companheiro cortava ao meio, Gabriel passava pelas costas da marcação. De frente com João Paulo, o centroavante fuzilou.

Até pela situação ao redor da arbitragem, o primeiro tempo foi ríspido. Os jogadores de ambos os lados se estranharam e houve uma pequena confusão depois do gol, que rendeu o cartão amarelo a Gabriel. Após o apito rumo ao intervalo, dirigentes do Santos ainda foram questionar Wilton Pereira Sampaio. Mais do que acerto ou erro, o que gera ainda mais problemas é a forma como o VAR acaba conduzido, o que por si exalta os ânimos e interfere no campo. A sensação de incerteza pela demora afeta os jogadores, e isso precisa ser evitado ao máximo.

O segundo tempo começou com mais uma grande intervenção de João Paulo, tirando com a ponta dos dedos o arremate de Gabigol. O que não ajudava era a arbitragem, interferindo demais em lances pequenos. Melhor durante o início da etapa complementar, o Fla criou seus lances nos primeiros 15 minutos, até que o Santos respondesse. Raniel quase empatou num chute da entrada da área, forçando nova defesaça de Diego Alves. O goleiro buscou o chute no cantinho e sentiu o ombro. Terminou substituído por César.

O Santos tinha a pressa e a iniciativa, pressionando mais no campo de ataque. Carlos Sánchez perdeu uma chance de ouro neste momento. Enquanto isso, o Flamengo acionava seu banco e botava alguns medalhões que agora se revezam, como Everton Ribeiro e Willian Arão. Aos 20, também entrou o estreante Mauricio Isla, no lugar do improvisado Renê na lateral direita. Sobrava mais campo para o Fla contra-atacar e Gabigol seguia naquela que talvez tenha sido sua principal atuação desde a volta das competições. Faltou acertar o gol de novo, com duas chances abertas desperdiçadas antes dos 25 – incluindo uma com a meta vazia, após passe de Isla.

Gabigol sentiu e precisou sair aos 30, com a entrada de Diego, num time repleto de meias – e com Pedro no banco. Já as trocas do Santos não funcionaram tão bem e o time perdeu organização em seu ataque, pouco fazendo para assustar César. O Flamengo também acertou seu posicionamento defensivo no segundo tempo, precisando correr menos atrás dos adversários e concedendo raras brechas. Com a queda de ritmo, o Peixe não faria muito para arrancar o empate no final.

Do lado do Santos, Cuca conseguiu armar sua equipe de maneira vertical e viu como seus jogadores corresponderam, sobretudo na primeira etapa. Entre as defesas de Diego Alves e os lances do VAR, o gol (válido) não veio, mas foi uma boa exibição do Peixe apesar do resultado. Marinho, outra vez, sai como destaque. Já o Flamengo teve altos e baixos. Domènec Torrent não reproduz a grande virtude dos tempos de Jorge Jesus, a pressão sem a bola, e os rubro-negros sofrem para se acertar na defesa. Ofensivamente, a equipe foi bem para construir seus contragolpes quando acertou a saída, numa característica bem diferente de 2019. Como em outras partidas recentes, os gols perdidos se repetiram, mas sem impedir o triunfo. É um time que recupera sua forma física, mas não sua intensidade e muitos jogadores seguem abaixo do rendimento – até pelas escolhas do treinador, algumas contestáveis em meio a vários testes.

O Flamengo fecha a rodada na nona colocação, com oito pontos. Após as duas derrotas iniciais, o time não perde há quatro jogos, mas com dois empates no meio do caminho. E ambas as vitórias vieram pelo placar mínimo. Logo abaixo, o Santos acumula sete pontos e perdeu seus dois últimos compromissos. No meio da semana, enquanto o Fla visita o Bahia, o Peixe recebe o Vasco na Vila Belmiro.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore