Entre um intervalo e outro do workshop que ministrava, sobre técnicas de filmagem, José Mojica Marins tinha um só interesse: “Quanto tá o jogo do Corinthians?”. Campeão da Libertadores e do Mundial meses antes, o clube de Parque São Jorge não empolgava tanto naquele início de 2013. O compromisso pelo Paulistão, aliás, não terminaria nada feliz aos alvinegros: de virada, Leandro Brasília e João Sales garantiram a vitória do Linense por 2 a 1. “Até desanimei!”, foi a expressão usada por Mojica, ao tomar conhecimento do placar, através de um repórter da revista Rolling Stone. “O time tem um baita elenco, mas quando a coisa começa a dar errado, não para!”.

Mojica comemoraria o título do Campeonato Paulista de 2013, semanas depois. E se o cinema era a grande paixão de sua vida, que o consagrou como um dos cineastas mais populares do país, o Corinthians também ocupava uma parte importante de seu coração. O paulistano era alvinegro doente, desde a infância. “Meu corintianismo já vem de berço. Meu pai era um toureiro, espanhol e corintiano. Vem desde essa época”, declarou, em entrevista à Gazeta Esportiva. “Gosto de futebol, mas só quando tem seleção brasileira ou Corinthians. Assisto a algum outro jogo só quando o ganhador vai jogar com o Corinthians. Se não tiver seleção brasileira ou Corinthians, não tenho interesse”.

A notoriedade aproximou Mojica do Corinthians. Afinal, quem não conhecia o Zé do Caixão, o maior personagem dos filmes de terror brasileiros? A carreira nas telonas foi grandiosa, dirigindo 40 produções e atuando em mais de 50 filmes – que também incluíam outros gêneros, do faroeste às aventuras. Sua contribuição ao cinema do país é marcante.

Através de sua fama, Mojica conheceu muitos de seus ídolos. Tornou-se amigo até mesmo do folclórico presidente Vicente Matheus: “Eu me dei muito bem com o Vicente. Primeiro, porque ele era espanhol, a gente sempre conversava sobre a Espanha. Saíamos muito, principalmente a restaurantes espanhóis. Tivemos uma amizade forte. E realmente não era só um cara que gostava do Corinthians, era absolutamente fanático. Quando o Vicente encontrava um corintiano de raça como eu, que gosto e acompanho, ele gostava”.

Em 1977, Mojica experimentou uma de suas maiores emoções como torcedor, na incomparável conquista do Paulistão que encerrou o jejum: “Eu me lembro: ninguém mais punha fé no Corinthians e de repente a gente renasceu. A verdade é que o Corinthians já renasceu várias vezes. O que temos de recordação amarga é a queda para a segunda divisão. Pegou uma época em que eu estava terminando a ‘Encarnação do Demônio’. A gente tinha que fazer uma cena violenta, colocando uma mulher dentro de um porco, quando de repente soubemos do rebaixamento. Todos os técnicos que estavam trabalhando comigo eram corintianos”.

E a quem incluía Sócrates entre seus maiores ídolos, José Mojica teve uma grande honra: fazer uma das últimas entrevistas com o craque. O Doutor era convidado do “Estanho Mundo de Zé do Caixão”, antigo programa do Canal Brasil. Sócrates falou sobre o tratamento de seu câncer com otimismo e sobre os sonhos peculiares que teve durante o processo. Também deu suas costumeiras opiniões fortes sobre o país e sobre o futebol brasileiro. No entanto, menos de um mês depois daquele bate-papo, num domingo de dezembro de 2011, Mojica viu seus sentimentos se misturarem. Celebrou mais um título corintiano no Brasileirão, mas numa tarde de luto, repleta de tributos a Sócrates, que falecera horas antes.

Mojica seguiu vivendo a paixão pelo Corinthians depois disso. Até mesmo rogou uma de suas famosas pragas sobre os rivais dos alvinegros em 2013, durante uma participação no Sportv. E se o clube representou um sentimento tão importante na vida do cineasta, o Corinthians também não se esqueceu de tamanha dedicação na despedida ao artista. Aos 83 anos, o eterno Zé do Caixão faleceu nesta quarta, vítima de uma broncopneumonia. Em suas redes sociais, os alvinegros lamentaram a notícia e desejaram condolências à família. Valorizaram a memória daquele que, em todo o bando de loucos, foi um dos malucos mais geniais.