A classificação de Madagascar à Copa Africana de Nações foi o ápice das surpresas no continente durante a última Data Fifa. E dá para dizer que mais novidades devem se concretizar rumo à próxima edição do torneio. Historicamente, há um equilíbrio notável entre as seleções da CAF. Algo que se vê potencializado em tempos recentes, nos quais os times se nivelam e buscam ainda mais jogadores com origens africanas que nasceram nos países europeus. A competitividade aumenta e a ampliação da CAN 2019, subindo de 16 para 24 equipes, pode repercutir com outros tantos estreantes. Basta ver o que aconteceu nesta terça, além dos malgaxes.

Uma prova deste equilíbrio está nos números. Das 21 partidas realizadas, nenhuma contou com um time vencendo por mais do que dois gols de diferença. Além disso, 43 das equipes que entraram em campo anotaram dois tentos ou menos. A exceção ficou para a Nigéria, que encontrou dificuldades para derrotar a Líbia por 3 a 2. De resto, apenas placares apertados e algumas zebras.

Um exemplo já mencionado aqui na Trivela de seleções que ascendem é Comores. O arquipélago de 800 mil habitantes sempre esteve na rabeira do Ranking da Fifa e nunca passou perto de se classificar à Copa Africana. Todavia, começou a recrutar filhos de imigrantes nascidos principalmente na França e colhe os resultados. Não deve avançar à fase final da CAN, na única chave que oferece apenas uma vaga, por conta da presença de Camarões – país-sede do torneio, mas ainda assim inserido nas eliminatórias. De qualquer forma, os resultados empolgam.

Os comorenses quase haviam vencido Camarões em setembro e, desta vez, fizeram Marrocos suar bastante. A melhor seleção africana da Copa de 2018 venceu com um magro 1 a 0 o compromisso em Casablanca, graças a um tento já aos 52 do segundo tempo. Nesta terça, no reencontro em Mitsamiouli, os Celacantos abriram o placar e, depois da virada marroquina, decretaram o empate por 2 a 2 aos 47 do segundo tempo. Destaque a El Fardou Ben Nabouhane, autor de ambos os gols da equipe e que joga no Estrela Vermelha. O acanhado estádio, lotado, contou com uma contagiante festa depois do tento decisivo. Pode ser considerado um dos melhores resultados da história da seleção comorense, mesmo sem os três pontos. As chances de classificação são remotas, mas a evolução é evidente.

No Grupo C, Burundi está fazendo frente a Mali e Gabão. Enquanto o Sudão do Sul é o saco de pancadas da chave, as três equipes estão emparelhadas na busca pelas duas primeiras posições e a definição só acontecerá na próxima Data Fifa. Invictos, os burundianos empataram os dois jogos com os malineses nestas rodadas recentes. Buscam sua primeira classificação continental. Entre os destaques está Saido Berahino, que optou pela nacionalidade de sua terra natal após crescer na Inglaterra e atuar nas seleções de base dos Three Lions.

O Grupo D vê Benin se intrometendo entre Argélia e Togo. Os Esquilos participaram de três edições da Copa Africana na década passada, mas eram mais dependentes de uma geração do que de um trabalho amplo de formação. Agora, voltam a demonstrar competitividade, como bem se viu nesta terça. Venceram a Argélia por 1 a 0 em Cotonou e se igualaram às Raposas do Deserto na liderança. O gol da vitória foi anotado por Sessi D’Almeida, após jogadaça do veterano Stéphane Sessègnon, nome mais conhecido do elenco.

No Grupo E, Seychelles protagoniza um caso similar ao de Comores. O arquipélago de 95 mil habitantes sempre foi um mero figurante na África e não deveria ser diferente desta vez, encarando Nigéria, Líbia e África do Sul na mesma chave. Quarto pior time africano no Ranking da Fifa, possui raríssimas vitórias em competições oficiais. Mas depois de tomar três traulitadas na primeira metade dos jogos do Grupo E, conseguiu segurar os Bafana Bafana. Apenas três dias após a goleada por 6 a 0, os sul-africanos não saíram no empate sem gols na visita ao Stade Linité. Já uma vitória aos Piratas, em tropeço que pode impactar na classificação final da chave.

O Grupo F é o mais equilibrado. A liderança está com o Quênia, que chegou a ser figurinha carimbada na CAN durante a virada dos anos 1980 para os 1990, mas não participa desde 2004. Estrelado por Victor Wanyama, as Estrelas de Harambee somam sete pontos. Venceram a Etiópia por 3 a 0, em resultado fundamental na disputa. Presentes na CAN 2013, após um hiato de mais de três décadas, os etíopes também estão na disputa e ocupam o segundo lugar. Pior para Gana, que vê suas condições ameaçadas e ainda está igualada a Serra Leoa, que busca retornar à competição continental após 23 anos.

O Grupo G tem a liderança de Zimbábue, ainda invicto, após somar quatro pontos nos dois jogos recentes contra a República Democrática do Congo. Pode ser a segunda participação consecutivas dos Guerreiros na CAN. E por mais que ocupe a lanterna, a Libéria tem totais condições de seguir na briga, com quatro pontos, depois de bater o Congo-Brazzaville por 2 a 1. As duas únicas participações das Estrelas Solitárias na CAN aconteceram nos tempos de George Weah, em 1996 e 2002.

Talvez não surjam surpresas no Grupo H, ponteado por Guiné e Costa do Marfim. Mas as duas seleções tradicionais tropeçaram nesta terça, diante dos empates contra Ruanda e República Centro-Africana, respectivamente. Mesmo com as presenças de Burkina Faso e Angola, o Grupo I é liderado pela Mauritânia, que nunca se classificou à Copa Africana. Os Mourabitounes venceram três dos quatro jogos disputados até o momento, derrotando os angolanos por 1 a 0 nesta terça-feira. Possuem um elenco reforçado por jogadores “europeus”, apesar da forte presença daqueles que atuam no norte da África.

Por fim, as duas últimas chaves são as mais propensas a reservarem novidades. O Grupo K tem sua liderança dividida por Guiné Bissau e Namíbia, ambos com sete pontos. A equipe lusófona figurou na CAN pela primeira vez em 2017 e conta com o talento de vários jovens que nasceram ou cresceram em Portugal, alguns com passagens pelas seleções lusitanas de base. Um exemplo disso é Pelé, que atualmente joga no Monaco. A vitória por 2 a 1 sobre a Zâmbia no último domingo permitiu que os Djurtus se distanciassem no topo. Já os namíbios podem ir para a sua terceira CAN, a primeira desde 2008. O elenco é composto por atletas em atividade principalmente no futebol da África do Sul. Celebraram a vitória por 1 a 0 sobre Moçambique, que corre por fora em busca da classificação.

Já no Grupo L, tudo aberto. A liderança é de Uganda, que esteve na CAN 2017 após hiato de quase 40 anos. Na segunda colocação, a Tanzânia, que tenta retornar ao torneio continental pela primeira vez desde 1980. O atual elenco conta principalmente com o destaque de Mbwana Samatta, antigo artilheiro do Mazembe que acumula gols no futebol belga, defendendo atualmente o Genk. E há espaço ainda para o retorno de Cabo Verde ou o ineditismo de Lesoto – este, roubando pontos dos principais adversários, com dois empates em seus dois primeiros jogos.

O favoritismo na CAN deve continuar se reproduzindo entre os mesmos. Além de Madagascar e do anfitrião Camarões, as outras três seleções classificadas por antecipação estiveram na Copa do Mundo: Tunísia, Egito e Senegal. Pela tradição do jogo nestes países e também pelos destaques individuais, já despontam para sonhar com a taça. O sonho, de qualquer maneira, não se concentra apenas no pódio. A mera presença na fase final também pode representar bastante a essas nações menores. É o que deverá acontecer nos próximos meses, com várias seleções buscando o seu ápice.


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