Por André Derviche, da Jornalismo Júnior

Ocorrida no início de agosto, a final do Campeonato Paulista de 2020 certamente será lembrada por diversos fatores. Arquibancadas vazias, empate no último minuto de jogo e fim de um tabu são só alguns deles. Porém, para uma pessoa específica, todas essas razões compõem a conclusão de uma trajetória especialmente mágica. Patrick de Paula, meio-campista do Palmeiras de 21 anos, foi o responsável por bater a última cobrança do alviverde na finalíssima e decretar um título histórico de seu clube no Paulistão em cima do maior rival, o Corinthians, depois de 12 anos de jejum no estadual.

A história de Patrick se assemelha a de muitos jovens que, logo nos primeiros anos de vida, nutrem o sonho de se tornarem jogadores de futebol. Originário da periferia do Rio de Janeiro, o atual jogador do Palmeiras começou a se destacar em 2016, quando defendia o Cara Virada Futebol Arte, clube da Zona Oeste do Rio, onde ganhou o título Amador da Capital Sub-17. 

Na época, os 18 gols na competição promovida pela Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), chamaram a atenção de um olheiro do Palmeiras, que convocou Patrick para testes em São Paulo. Depois disso, o Pogba Brasileiro, como Arlen Pereira, um dos seus diretores no Cara Virada, o apelidou, disputou a badalada Taça das Favelas, firmou contrato profissional com o alviverde e, como toda boa promessa do futebol brasileiro, já é cogitado em grandes clubes europeus como o Benfica, de Portugal.

Um dos adversários do Cara Virada em 2016 foi o Cruzeiro Futebol Clube (não confunda com o Cruzeiro Esporte Clube, o famoso clube de Minas Gerais). O treinador do equipe era Luciano Mattos. Apesar de não ter conseguido triunfar sobre o Cara Virada de Patrick de Paula e companhia, Luciano ainda conta com diversas histórias de sucesso em seus quase 15 anos de trabalho com o esporte. 

Atualmente, ele desenvolve o projeto Associação Desportiva Padre Miguel de Realengo, um trabalho social que volta o futebol para jovens de 14 a 23 anos. Foi reunindo antigos amigos que Luciano conseguiu fundar seu trabalho, localizado na Vila Vintém, comunidade da Zona Oeste da capital fluminense.

Boa parte dos projetos sociais voltados ao esporte, como o da Padre Miguel, possuem um diferencial: além de visar a formação de novos craques das quatro linhas, eles almejam principalmente a formação pessoal de crianças e jovens. “O projeto aqui salva vidas, damos oportunidade para os meninos buscarem o sonho deles. O futebol como projeto social é um trampolim para os garotos acreditarem que eles podem mudar a vida deles e sair da favela. Aqui não vendemos sonhos, ajudamos a realizá-los”, ressalta Luciano.

Ainda assim, o idealizador da Associação Padre Miguel não esconde o orgulho dos talentos formados em seus campos. Somente na conversa com a Trivela, Orelha, como também é conhecido por amigos mais próximos, citou 13 atletas que se formaram com seu trabalho nos últimos anos. Os destinos dos garotos e garotas treinados por Luciano vão desde clubes como o Valadares Gaia, em Portugal, até categorias de base de gigantes como o Flamengo.

O treinador também lembra da parceria com Pupo Fernandes, técnico da Seleção Brasileira de futebol social. A modalidade é composta por jogadores de projetos comunitários, aldeias indígenas e até mesmo de quilombos. E não é de hoje que os projetos de Luciano cedem jogadores para lá. “A gente dá oportunidade ao garoto que nunca pegou um avião, que nunca teve pretensão nenhuma de conhecer outro país, que só sabia ir da favela para o campo, do campo para a favela”, comenta Luciano lembrando das três vezes em que o Brasil venceu a Copa do Mundo de Futebol Social – em 2010, 2013 e 2017 no Brasil, Polônia e Noruega, respectivamente.

Suas aventuras pelo futebol, porém, não pararam por aí. Depois de ser campeão da Taça das Favelas no ano de 2018 com a equipe Caixa d’Água, ele foi chamado para treinar o Delfines Del Este, clube de média expressão da República Dominicana. Com um portunhol improvisado e uma vontade única de representar sua comunidade, Luciano lembra das várias semelhanças com seu país de origem quando se fala da relevância social do futebol.

Futebol, inclusão ou segregação social?

No Brasil, já não é novidade que o futebol passa – ou deveria passar – a ser cada vez mais visto sob a ótica do fenômeno social e cultural que ele é. Em seu artigo “Futebol na periferia: relações sociais e políticas”, Denner Eduardo dos Santos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), lembra que o esporte chegou no Brasil como materialização de uma segregação social. Localizados em São Paulo em fins de século XIX, os primeiros clubes do país foram fundados por estrangeiros e classes abastadas. Foi só na várzea que o futebol ganhou relevância entre camadas mais populares. Com times formados por classes marginalizadas, como a de operários e negros, as quatro linhas passaram a se expandir socialmente, não deixando de incomodar as elites nesse processo.

Passando para os dias atuais, a situação não mudou muito. O futebol ainda aparece como ferramenta de inclusão social. No entanto, isso reflete muito mais raízes desiguais do que o espírito acolhedor que o brasileiro alimenta. O jornalista Arthur Sales é dono do portal Indústria de Base, voltado à cobertura do futebol juvenil, e opina: “O esporte não deveria precisar ser isso [instrumento de inclusão social] antes de qualquer coisa. Nos países desenvolvidos, ninguém busca o futebol ou qualquer outro esporte para se salvar de uma realidade quase insuportável”. Também em entrevista à Trivela, Arthur lembrou dos garotos que sonham em jogar profissionalmente para melhorar a situação financeira da família.

Diante do fato de que a parcela de jovens que efetivamente convertem-se em jogadores profissionais é minoritária, Arthur completa: “No Brasil, temos um problema que extrapola o futebol que é a desigualdade, a pobreza. E não é futebol que resolverá esse problema estrutural. Ele é uma das possibilidades, mas no fim das contas, quando analisamos números mais friamente, descobrimos que essa possibilidade apresentada pelo futebol é muito mais imaginária e utópica”.

Se por um lado a realidade corporativa impede que os 64,5% de jovens de 15 a 17 anos que praticam o esporte – segundo dados do IBGE de 2015 – cheguem ao nível profissional, por outro, o futebol pode ser explorado de maneiras diversas. E essa é uma das principais finalidades da ONG Craques da Vida. Presidido por Franklin Ferreira, o projeto foi fundado em 1999 e tem por objetivo “lutar contra a desigualdade social através do futebol”, segundo o idealizador.

A Craques da Vida é localizada na comunidade Vila Aliança, no bairro do Bangu, Zona Oeste do Rio, onde Franklin desenvolveu laços estreitos. Na lista de seus grandes amores, certamente aparecem o futebol e a sua comunidade. “Eu amo a Vila Aliança. Quando eu era pequeno, achava que eu ia conseguir mudar o mundo. Mas quando você vê, o mundo é muito grande. Então eu posso mudar pelo menos a minha favela. E vou tentar mudar através do futebol”, comenta Franklin.

Franklin Martins e Patrick de Paula (Imagem: Craques da Vida/Divulgação)

 

Desde garoto, ele sempre quis viver do futebol, porém, à época ele não imaginava que isso se daria fora das quatro linhas.

“Se você não tiver amor pelo que você faz, independente do que você for fazer, nada vai caminhar”. Com essa filosofia em mente, Franklin formou-se em Educação Física, passando por diversas pós-graduações voltadas à gestão de projetos sociais. Além disso, possui a Licença C da CBF, que é voltada a profissionais que atuam ou desejam atuar no futebol na condição de treinadores, ou professores de escolas de futebol.

“Com esse know-how, eu poderia estar em qualquer clube. Mas eu não quero. O DNA do futebol brasileiro está nas periferias, nas vielas, nas favelas, nas quebradas. A minha missão como ser humano, e ambição profissional, é transformar os meninos da comunidade com o futebol”, ressalta o coordenador da Craques da Vida lembrando que a maioria dos craques do futebol brasileiro saíram das periferias.

Ao juntar uma paixão que independe da idade, como é o futebol, à educação, Franklin diz que “formar jogador profissional é consequência. Quando eu digo que tenho os ensinamentos para estar em um clube de futebol, eu quero usar esses ensinamentos para mostrar que o moleque pode persistir em algo muito maior do que ele pensa que pode chegar”.

Luiz Marcos dos Santos, também conhecido como Lula, coordena a Escolinha Catumbi, na comunidade São Remo, Zona Oeste de São Paulo, para crianças e jovens, e ressalta esse mesmo aspecto: “Uma das coisas que faz parte da influência é você falar para o  garoto que ele precisa estudar. Se você não conseguir ser um jogador profissional, um atleta profissional, você tem uma segunda opção, porque você estudou, você vai se qualificar para isso”.

As possibilidades, nesse sentido, são diversas: o jovem pode ocupar funções diferentes dentro do futebol, que passam pela figura do fisioterapeuta, preparador de goleiros, professor de Educação Física até chegar no cargo de treinador do clube. Sem falar que a qualificação permite aos jovens trabalhar em outras áreas, mesmo fora do futebol.

O intuito de desenvolver pessoal antes de profissionalmente parece ser uma das principais premissas de projetos sociais voltados ao esporte no Brasil. Não à toa que ela aparece estampada no nome de um deles. Renato Gomes coordena o Bom de Bola, Bom de Escola na comunidade Jardim Canadá, na zona Noroeste da cidade de Nova Lima, em Minas Gerais. 

O projeto funciona há 18 anos, mas Renato disse que, pela falta de incentivo do poder público e falta de visibilidade, ainda não conseguiu revelar um atleta de ponta. Apesar de esse ainda ser um dos seus principais objetivos, o idealizador do Bom de Bola, Bom de Escola se orgulha do trabalho desenvolvido até aqui. “O importante é que eles tentaram, eles fizeram a parte deles. Amanhã eles vão ter outra profissão, no que eles forem fazer, eles vão de cabeça erguida. Não vão ficar pensando e voltar pensando que poderiam ter sido um jogador de futebol por não ter tentado. Sem frustração nesse sentido”.

Um campo de dificuldades

Como ressaltou Renato, ainda existem diversos obstáculos nesse caminho. E isso é quase consenso entre aqueles que comandam o futebol nas periferias. A maioria dos projetos voltados a esse setor é feita de forma voluntária, sem cobrar nada dos alunos. Os materiais esportivos e alimentação ficam por conta de doações. A Associação Padre Miguel, por exemplo, consegue fornecer cestas básicas às crianças, o que “quebra o galho” daquelas que não conseguem ter uma alimentação completa em casa.

Renato Gomes como treinador da equipe de jovens (Foto: Renato Gomes/Acervo Pessoal)

 

E é justamente pela falta de recursos que esses projetos são vistos muitas vezes como risco, inclusive dentro das comunidades. O Projeto Loirinho se localiza no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Seu coordenador, Jorge Alves da Silva ressalta que pela carência de fontes como o patrocínio, ainda há uma desconfiança sobre esses projetos, pelo menos na fase inicial: “Eu vejo uma carência muito grande. Essas comunidades estão precisando, essa molecada está precisando de coisas que às vezes não tem, porque as pessoas não querem fazer, por conta do risco”.

No Projeto Loirinho, direcionado principalmente às meninas, não há muito limite de idade justamente para que a prática esportiva não seja restringida. Jorge conta que a idade vai de sete a 35 anos. “Futebol é mais uma ferramenta, nem todos vão jogar o futebol, mas vão ter uma perspectiva de vida ou um conhecimento”, destaca.

Ainda assim, para Luciano Mattos, o grande problema ainda é o incentivo à prática esportiva. Uma solução seria a montagem de mais centros de referência por parte do governo, que, ao espalharem-se pelas mais diversas regiões das cidades brasileiras, poderiam impactar a vida de mais crianças e jovens. “Eles [crianças e jovens] teriam uma alimentação na hora que chegassem para irem treinar. No mesmo local ia ter escola, eles iam sair de lá ‘jantados’ e iam paracasa, de segunda a sexta. Para o país seria muito bom, formar cidadãos e grandes jogadores”.

Em relação aos projetos menores, conhecidos como “projetos raiz”, Franklin Martins opina: “Se dependermos somente de projeto governamental, a gente não vai chegar a lugar nenhum. A maioria dos projetos governamentais têm interesse por trás. As políticas públicas tinham que ter espaço para esses ‘projetos raiz’”.

Apesar de a maioria seguir seus trabalhos de maneira paralela, coordenadores dos projetos de futebol concordam que o Estado seria essencial nesse caminho. Por essa razão, Jorge Alves da Silva tem como uma de suas maiores motivações, em meio a uma rotina corrida de trabalho com o futebol em escolas e projetos sociais, saber que ele pode estar ajudando na formação de um futuro político. “Um dia essas pessoas podem ser um presidente, um governador, um secretário do esporte… Por isso, eu tenho que passar essas ideias para eles: ‘O dia dia em que você estiver lá, pense aqui na comunidade’”.

Outra proposta fundamental na visão dessas pessoas seria um envolvimento maior por parte dos clubes brasileiros, que são quem futuramente se beneficiarão do surgimento de novos craques. Lula sugere que os clubes profissionais criem programas para que jovens pudessem frequentar suas dependências: “Hoje, para fazermos um pouco de mudança, teríamos que ter pessoas olhando o futebol dentro da favela, para que esse jovem tenha pelo menos 15, 20 dias dentro de um clube para fazer um teste, independente de ter dinheiro ou não, para ele sentir como é esse processo. No momento que ele sente como é, ele vai se dedicar mais ainda para chegar no alto nível”. Essa, por exemplo, poderia ser uma excelente oportunidade para que clubes de futebol cumpram com uma certa responsabilidade social que lhes é dada. 

Segundo levantamento da Sports Value, empresa especializada em consultoria esportiva, os 20 maiores clubes brasileiros em receita arrecadaram cerca de R$ 6 bilhões em 2019. Ainda assim, a quantia investida na formação de novos atletas deixa muito a desejar. De acordo com dados levantados pelo Correio Braziliense, em 2016, entre os três principais custos de uma equipe de futebol – formação de elenco, categorias de base e infraestrutura – aquele destinado às categorias de base foi o menor, representando somente 14,6% do total de investimentos dos clubes da Série A daquele ano.

Em instâncias estaduais, a situação não melhora muito. Para exemplificar, vamos utilizar a Federação Paulista de Futebol (FPF), uma das mais ricas do país. Em seu balanço de 2017, foi possível analisar que o gasto com Projetos Sociais foi o segundo menor dentro das Despesas Operacionais, correspondendo a R$ 391 mil. O gasto com Contribuições e Subvenções (que inclui premiações, arbitragem, promoções, cotas de participação e afins) foi de mais de R$ 17 milhões.

O fomento do esporte está no regulamento de grande parte das Federações estaduais do país. A FPF, por exemplo, inclui em seu regulamento o objetivo de “criar e participar, de forma direta, conjuntamente com órgãos oficiais e/ou organização não governamental, na elaboração e execução de projetos, incentivados ou não, que busquem instituir escolas de futebol em favor da comunidade carente”. A parte do incentivo, destacada no artigo 2º do Estatuto Social ficaria por conta da Lei do Incentivo do Esporte, dispositivo criado em 2006, mas que não vive seus melhores dias atualmente.

Nesse sentido, Denner Eduardo opina: “Eles [clubes profissionais] priorizam achar um ou outro jogador. Não há uma responsabilidade social. Eles não repassam esse valor que eles têm para a sociedade, não auxiliam com educação às crianças, com saúde. Seria mais útil para a sociedade e para o futebol se houvesse essa pulverização dos recursos”. Denner destaca que o desenvolvimento e manutenção de mais escolinhas oficialmente vinculadas a esses clubes seria um primeiro passo importante, mas lembra também que falta interesse e estrutura por parte das grandes instituições do nosso futebol, já que a maioria deles encontra-se endividada.

O palco das revelações

O calendário de equipes das periferias do Brasil é quase sempre cheio. Entre torneios amadores organizados pelas próprias federações estaduais e competições disputadas por uma ou mais comunidades, são várias as chances de um jovem mostrar seu talento dentro das quatros linhas. Ainda assim, para captar novos craques, a maioria dos clubes brasileiros opta por espalhar olheiros por esses campeonatos ao invés de fomentá-los, “sempre buscando um retorno financeiro, buscando um novo craque para ser vendido o mais rápido possível para Europa e para angariar mais recursos para o clube, mas não pensando em projetos sociais”, ressalta Denner. 

E esse é uma realidade bastante conhecida entre os fãs de futebol no Brasil: entre as dez maiores vendas do futebol brasileiro, a idade mais elevada de um jogador transferido foi 21 anos – época em que Neymar fora transferido do Santos ao Barcelona em 2013 por R$ 182 milhões e quando Lucas Paquetá saiu do Flamengo para o Milan em 2019 por R$ 150 milhões.

Somado a isso, é possível notar que os clubes da elite brasileira buscam cada vez mais contratar jogadores para suas categorias de base ao invés de captar novos talentos em projetos periféricos paralelos. O Goiás, por exemplo, usando competições como a Copa São Paulo de Futebol Júnior – um dos principais torneios de base do país – contratou nove jogadores para sua base. Enquanto isso, ainda em 2020, Palmeiras e Corinthians ganharam destaque por contratarem jovens da base do Flamengo, assim como o Fortaleza, que firmou vínculos com Thiago Magno, jovem atacante do Cruzeiro, para sua base.

Nesse sentido, a dimensão continental do Brasil certamente iria impor obstáculos para que todas as regiões fossem contempladas com o acesso do futebol. Porém, Denner lembra de um fator importante: “Por maior que seja o Brasil, o futebol é maior, ele é absoluto no nosso território. O futebol é um esporte de massa que atinge todas as classes sociais e todo o nosso território. Falta realmente investimento e interesse em ir lá e captar”.

Regionalmente, as distâncias também aparecem como um empecilho. Denner relata que não são muitas as escolinhas de clubes profissionais que possuem localidades em áreas periféricas. Aliado a isso, Jorge Alves conta que nem todas as famílias de seus jogadores podem pagar o transporte para a realização de testes em clubes maiores. Com isso, novas barreiras aparecem para o desenvolvimento esportivo de novos jogadores.

Além de possibilitar o surgimento de mais novos talentos que certamente impulsionariam a condição de vida de mais jovens e a própria qualidade do futebol brasileiro, o incentivo à prática esportiva estimula outros aspectos. “Acredito que o futebol tem essa capacidade de promover hábitos saudáveis e a socialização. É fundamental que, por meio do poder público, a gente invista de maneira sistemática na promoção da atividade física, do futebol. O que deveria ser buscado é essa oportunidade de experienciar no esporte, de ter disponível nos bairros a prática esportiva”, comenta Arthur Sales.

E a visibilidade?

“O Patrick de Paula tem que fazer um gol, uma semifinal para mostrar que na favela tem coisa boa”. Utilizando como referência a mais nova joia palmeirense, Luciano Mattos lembra de uma realidade ainda difícil no Brasil. Apesar de ser consenso entre o imaginário das pessoas que as comunidades brasileiras são verdadeiros celeiros de craques da bola, ainda há um longo caminho a ser percorrido quando o assunto é responsabilidade social. 

“Da ponte pra lá é uma realidade. Da ponte pra cá é outra. As favelas, ao meu ver, são invisíveis, as pessoas fingem ou não querem ver as favelas, a realidade da pobreza no Brasil, em um contexto geral”, opina Lula.

A Taça das Favelas – competição em que Lula foi finalista pela Favela 1010 em 2019, Luciano foi campeão no masculino e feminino em 2018 com a Caixa d’Água e Franklin em 2017 pela Vila Aliança – corrobora muito nesse sentido desde 2012, ano de sua criação. 

“A Taça das Favelas é uma oportunidade de visibilidade para quem é um pouco invisível, para aquele menino que fez a avaliação em um clube e não passou, aquele menino que sonha em jogar bola. Eu vejo como uma ponte que nos leva aos nossos sonhos”, relata Franklin. “A experiência é única”, lembra Lula. 

“A Taça das Favelas para a gente aqui é igual Copa do Mundo, o pessoal já vivencia, espera acontecer a próxima”, afirma Luciano. E edição de 2019, primeira vez em que foi realizada em São Paulo, ajudou pelo menos dez atletas a realizarem testes em equipes profissionais. Neste ano, o maior campeonato entre favelas do mundo não escapou das paralisações esportivas causadas pela pandemia do coronavírus.

A Taça das Favelas acaba sendo um recorte de uma realidade em todas as regiões do Brasil. Somente um recorte de diversas histórias que se convergem quando o assunto é futebol. Luciano, Franklin, Renato, Lula e Jorge são só algumas dessas pessoas que enxergam no futebol um meio para desenvolver e construir uma realidade melhor em um cenário desigual como o que vivemos.