A Inglaterra sediou a Eurocopa de 1996. Chegou às semifinais contra a Alemanha. A partida terminou em 1 a 1 e foi aos pênaltis. Os dez primeiros cobradores acertaram. Mas o décimo primeiro, um inglês, errou. E Andreas Möller eliminou a dona da casa. O homem que errou aquele chute e decretou mais um fracasso da seleção inglesa em disputa de pênaltis foi Gareth Southgate. Nada mais justo que essa maldição seja quebrada pela equipe que ele treinou e levou para a Copa do Mundo da Rússia.

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A campeã mundial de 1966 havia participado de três disputas a partir da marca do cal em Copas do Mundo: 1990, 1998 e 2006. Houve outras três decepções em Eurocopas: a de 1996 (nas quartas de final, havia vencido a sua única até agora, contra a Espanha), 2004 e 2012. É um trauma profundo no futebol do país, um fardo que gerações mais cascudas e talentosas do que a atual, com David Beckham, John Terry e Steven Gerrard, precisaram carregar. E para a qual sucumbiram.

A vitória dos jovens comandados por Southgate sobre a Colômbia é um marco para a seleção. Não apenas coloca este elenco como um time capaz de quebrar maldições, como também alivia a pressão para as gerações seguintes. Mas esta não foi a única barreira que Harry Kane e companhia conseguiram quebrar no Spartak Stadium. Houve outras duas também muito importantes.

Uma delas foi a do goleiro. A Inglaterra sofre com essa posição há muito tempo. O último arqueiro absolutamente confiável foi Peter Shilton. David Seaman tinha qualidade, mas, em 2002, chegou criticado por já estar com uma idade avançada – e saiu da mesma forma por causa daquele gol de Ronaldinho Gaúcho. Depois disso, a decadência foi acentuada. O médio Paul Robinson defendeu as metas na Alemanha e ficou marcado pelo erro nas Eliminatórias da Eurocopa, contra a Croácia, que contribuiu para a Inglaterra não se classificar para a competição.

A Inglaterra foi para a Copa do Mundo de 2010 com Robert Green. Durou apenas uma partida: a falha contra os Estados Unidos fez com que Fabio Capello ressuscitasse David James, que estreou em Mundiais contra a Argélia, aos 40 anos, depois de ficar no banco nas duas edições anteriores. A salvação parecia ser Joe Hart, que surgiu muito bem no Manchester City. Foi titular nas duas derrotas do Mundial do Brasil que eliminaram os ingleses na fase de grupos. E caiu tanto de rendimento, passando por Torino e West Ham, que atualmente nem se sabe onde ele vai jogar na próxima temporada.

Por todo esse histórico, a atuação de Jordan Pickford tem uma importância gigantesca. O goleiro do Everton não foi apenas seguro: foi decisivo. Nos acréscimos do segundo tempo, fez uma defesa maravilhosa em bomba de Mateus Uribe. Não conseguiu defender a cabeçada de Mina – atrapalhado por Trippier, que ficou em cima da linha -, mas se redimiu com a defesa decisiva da disputa de pênaltis, ao aparar a batida de Carlos Bacca.

O outro aspecto interessante da vitória inglesa foi a parte mental. A geração dourada que antecedeu essa foi muitas vezes acusada de não sentir o jogo, de não mostrar equilíbrio mental ou espírito vencedor. Foi até um pouco surpreendente observar como, quando o jogo ficou mais quente, logo depois do gol de Kane, com os colombianos afobados e colecionando cartões amarelos, a equipe inglesa era a mais tranquila em campo. Nos minutos finais, houve diversas demonstrações de raça. Carrinhos e divididas.

O gol de Mina foi um baque. Houve uma oscilação no primeiro tempo da prorrogação. A Colômbia, motivada pelo empate tardio, dominou esses primeiros 15 minutos. A Inglaterra conseguiu resistir e melhorou na etapa seguinte. Recuperou-se. Criou as melhores chances do período, um chute cruzado de Danny Rose e uma cabeçada de Eric Dier. E, evidentemente, conseguiu segurar a barra na disputa de pênaltis, mesmo depois da cobrança desperdiçada por Henderson – que, curiosamente, foi o inglês mais experiente a assumir a responsabilidade, sendo capitão do Liverpool, e o único a frustrar a torcida. Rashford, 20 anos, destacou-se pela confiança com que desenvolveu o seu chute. Forte, no canto, sem chances para Ospina.

A Inglaterra chegou à Copa do Mundo da Rússia com baixas expectativas. Nem a exigente crítica inglesa imaginava que um elenco inexperiente pudesse fazer o que medalhões tarimbados não haviam conseguido. Mas o destino abriu a chave para o time de Southgate, agora o único campeão mundial daquele lado ainda vivo por vaga na decisão. Difícil prever como eles lidarão com a pressão que tende a crescer a partir de agora. Mas, nestas oitavas de final, esses jovens já mostraram que são capazes de reescrever a história de fracassos dos Three Lions. A pergunta que resta é: até que ponto?