Esta coluna poderia celebrar a chegada do Ajax a uma final europeia, após 21 anos. Poderia celebrar a concretização de uma ideia de Johan Cruyff, expressa numa coluna no diário “De Telegraaf”, em setembro de 2010: fazer o Ajax voltar a expressar em campo os valores que o fizeram famoso (revelação incessante de jovens e estilo ofensivo de jogo), a partir da integração de ídolos ao cotidiano do clube. Poderia citar a inesperada manutenção das chances de título holandês, após a derrota do Feyenoord na semana passada. E fará tudo isso.

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Porém, uma coisa é o carinho acendrado deste colunista (também conhecido como “eu”) pelo futebol holandês. Outra é a mínima necessidade desta coluna ter algo de jornalístico, mesmo que o titular dela não o seja. Assim, primeiramente, faz-se necessário ser o “estraga prazeres” da vez, falando das perspectivas para a final da Liga Europa, no dia 24 de maio, na Friends Arena de Estocolmo (exatos 22 anos após o último título de Liga dos Campeões dos Ajacieden): não, o Ajax não é favorito para a conquista. Longe disso. Claro, tem chances: se não fosse um time bom, sequer teria chegado à final. Além do mais, trata-se de um gigante europeu. Mas não é favorito.

E não é favorito por causa de algumas coisas vistas em campo contra o Lyon, nas semifinais – aliás, vistas em quase todos os jogos do Ajax fora de casa. Trata-se de um time talentoso, que cria chances a granel. Mas que também as desperdiça muito – principalmente pela lentidão de Bertrand Traoré na direita, sempre precisando trazer a bola para o meio antes da finalização, encerrando vários contragolpes. Os gols perdidos já fizeram falta nas quartas de final, contra o Schalke 04. E quase fizeram de novo contra os Gones.

Mas é preciso reconhecer: os gols perdidos e a eventual displicência dos atacantes não trariam tanto temor em determinados momentos, não fosse a fragilidade excessiva da defesa. Certo, ela é esperada: o Ajax é um time ofensivo acima de tudo, no 4-3-3 ou no derivado 4-1-4-1 em que joga. Não sabe e não quer defender, conforme o técnico Peter Bosz deixou claro à (ótima) reportagem do diário inglês “The Guardian”, na última quarta: “Quando vejo meu time só se defendendo e destruindo jogadas como eu fazia, não gosto. Quando estou no banco, quero ter uma tarde feliz. E se posso ter isso, também posso dar isso aos torcedores”.

Está dando. Mas para isso, não precisava fazer a torcida sofrer. Principalmente pela direita, onde Joël Veltman vem tendo atuações temerárias – já fora expulso no jogo de volta das quartas, contra o Schalke 04, e o mesmo destino só foi impedido contra o Lyon porque foi feita a providencial troca de Veltman por Kenny Tete. Na defesa, Matthijs de Ligt volta a mostrar talento e técnica, mas ainda comete afobações típicas da idade – como na chegada exagerada que rendeu o pênalti convertido por Alexandre Lacazette para o 1 a 1 que recolocou o Lyon no jogo. E Nick Viergever, expulso, forçará mudanças rumo à final. Até mesmo os dois mais confiáveis jogadores de defesa do Ajax (André Onana e, principalmente, Davinson Sánchez) são irregulares.

Eis a chave, aliás, para saber por que o Ajax não é favorito: irregularidade somada à inexperiência. Certo, o Manchester United também viveu de altos e baixos por toda a temporada. Ainda assim, é bem mais razoável esperar por lances decisivos de Paul Pogba, ou Ander Herrera, ou Henrikh Mkhitaryan, ou Marcus Rashford (este, ocupando protagonismo na hora certa, com a inoportuna lesão de Zlatan Ibrahimovic). E a defesa dos Diabos Vermelhos, mesmo com suas fragilidades – e mesmo também desfalcada na final, com a expulsão de Eric Bailly -, mostra mais calma. Enfim: mesmo longe de ser confiável, o United é um time bem mais experiente e experimentado do que o Ajax. Por isso, é o favorito.

Mas… e daí? Diante do começo melancólico de temporada que fez (sempre é bom lembrar: goleada do Rostov, por 4 a 1, na terceira fase preliminar da Champions League), ter chegado à final de uma Liga Europa é algo que merece muitas comemorações em Amsterdã.  Coroa a mudança de rumos por que o clube passou, após a dramática perda do título holandês na temporada passada. Coroa a paciência no trabalho de Peter Bosz. Coroa a postura mais agressiva da dupla Edwin van der Sar (diretor geral do clube)-Marc Overmars (diretor de futebol) no tocante a transferências. E finalmente, dá um afago no futebol holandês, tão necessitado disso após tantas decepções e uma decadência tão profunda.

Mesmo que seja difícil, muito difícil, o Ajax ensina a Holanda: é possível ser mais moderno sem deixar de lado os cânones do jeito holandês de jogar bola. E isso já vale muito. Além do mais, é só um jogo em Estocolmo. Repita-se: o United é favorito. Mas…

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Todos os caminhos levam a De Kuip
Kuyt, do Feyenoord, deixa o campo após derrota
Kuyt, do Feyenoord, deixa o campo após derrota

Joost de Jong é um jornalista holandês, correspondente do diário “Algemeen Dagblad” no Rio de Janeiro. Gosta da cidade, estabeleceu família. Mas trouxe algumas paixões da terra natal. Uma delas, o Feyenoord. Que o fez acompanhar à distância toda a via-crúcis do Stadionclub rumo ao virtual título holandês. Que o fez sentir, após a vitória contra o Vitesse: a hora tinha chegado. Joost quis viajar a Roterdã (fez isso duas vezes durante a temporada), mas os preços estavam proibitivos. Decidiu: acompanharia daqui mesmo o jogo contra o Excelsior. O jogo do título… que se transformou num anticlímax que impressionou toda a Holanda – e entristeceu Roterdã.

Nesta semana, Joost escreveu um texto para o diário em que trabalha. E reconheceu: não poderia dizer não ao seu coração, a partir das mensagens de texto recebidas dos amigos deixados em Roterdã. Um deles foi definitivo: “Joost, você precisa vir. Tem de ser assim. Nós ainda temos uma chance. Você tem de estar lá! De outra forma, não será legal”. E Joost continuou: “Se o clube lhe chama, você tem de ir’, disse Leo Beenhakker quando treinava o clube. ‘Se o clube lhe chama, você tem de ir’, repeti a um amigo, há alguns anos, quando ele tinha uma chance de trabalho no Feyenoord e pediu minha opinião. Se o clube chama, você tem de ir. E eu vou. O clube chama, meus amigos chamam, e eu só quero uma coisa: apoiar meu Feyenoord, e ver o título. (…) Na quinta à noite, saio do Rio. Do Rio para Miami, de Miami para Filadélfia, de lá para Amsterdã. Desembarco no sábado de manhã, após quase 32 horas”. De lá, um carro até Roterdã. Para estar domingo, no setor O de De Kuip, no jogo contra o Heracles Almelo, pela última rodada do Campeonato Holandês.

Eis a medida da sensação da torcida do Feyenoord, após a decepção gigante da derrota por 3 a 0 contra o Excelsior. Certo, a coluna até já alertava: “(…) Claro, pode dar tudo errado. Até porque o Excelsior tem alguns bons atacantes, como Stanley Elbers e Nigel Hasselbaink. Um time rápido, que garantiu sua permanência na primeira divisão com uma facilidade até inesperada, diante do sofrimento das últimas temporadas”. No entanto, até pelo tom celebratório, era difícil imaginar que, de fato, Elbers e Hasselbaink aterrorizariam a defesa de um time que jogou com o peso do trauma.

Mas… passou. Não se leu declaração nenhuma, de jogador nenhum do Feyenoord, a nenhum veículo de comunicação holandês, nesta semana que termina. Não se viu o clima retrospectivo que já se via em Roterdã. Agora, o que impera é o silêncio, no trabalho para pegar o Heracles Almelo e acabar com os traumas, de uma vez por todas. E a torcida reage com o que ela tem de mais nobre: o amor. Será duro: menos pelos gols de Samuel Armenteros que impulsionam o Heracles e podem representar o fim trágico, mais pelos próprios fantasmas do Feyenoord. Mas neste domingo, às 9h30 de Brasília, todos os caminhos levarão Het Legioen a De Kuip, para o fim do jejum.