Ainda mais forte que em 1998 e com um Zidane divinal: A história da França campeã da Euro 2000

A conquista da Copa do Mundo de 1998, dentro de casa, se tornou um marco à relação da França com o futebol. O título mundial, no entanto, seria o primeiro passo de uma geração que ainda atingiria o ápice de sua forma dois anos depois. O melhor daquela equipe dos Bleus, afinal, estava por vir com o troféu da Eurocopa em 2000. É certo que a decisão contra a Itália rendeu um drama imenso, com a prorrogação forçada no penúltimo minuto dos acréscimos e o eterno gol de ouro de David Trezeguet. Mas, ao longo da competição, a equipe francesa mostrou como poderia exceder seus próprios limites de qualidade – sobretudo com um Zidane genial.

Durante o Mundial de 1998, a França venceu na conta do chá. Não empolgou na fase de grupos, encadeou classificações dramáticas nos mata-matas e só atropelou o Brasil em condições excepcionais naquela final. Nem mesmo Zidane estava em seu melhor. A participação iluminada na decisão coroava o craque, mas sua caminhada até o Stade de France não tinha sido tão incontestável assim, lidando com questionamentos e com uma suspensão que o atrapalhou. Seu máximo não havia ficado tão expresso naquela Copa do Mundo.

A Eurocopa, em compensação, referendou o auge da França – como já havia feito com outra geração fabulosa em 1984, no primeiro título da seleção no torneio. A equipe de 2000 era amadurecida em diferentes aspectos. Novas peças tinham se encaixado, o entrosamento permitia um jogo mais fluído, a mentalidade campeã estava interiorizada, os riscos eram encarados com mais naturalidade. Os Bleus exibiram um futebol mais agradável, com jogadas trabalhadas e precisão. As vitórias vieram menos por desespero, como em 1998, e mais por uma pressão consciente. E isso tinha muito a ver com Zidane. Se não foi tão preponderante quanto o Platini de 1984, o camisa 10 brilharia de outras maneiras. Ele praticamente flutuou nos gramados de Bélgica e Holanda. Seu balé com a bola seria elevado ao status de arte.

O caminho da Copa à Eurocopa

A conquista da Copa do Mundo marcou uma passagem de bastão na França. Aimé Jacquet montou a equipe campeã e construiu uma mentalidade, combinando qualidade técnica e capacidade atlética dentro de campo. Porém, o veterano preferiu sair da linha de frente após o troféu, cansado das críticas e dos atritos naturais ao posto de treinador. Jacquet se tornou diretor técnico da federação francesa e o seu lugar no banco de reservas acabou assumido por Roger Lemerre. Assistente de Jacquet e antigo comandante da seleção militar, era alguém com trânsito nos Bleus e que conhecia bem os mecanismos internos. A sucessão se tornou natural.

Lemerre se beneficiou do momento, também. A equipe da França em 1998 era forte, mas não totalmente pronta. Combinava uma defesa firme e um meio-campo de qualidade, mas o ataque estava abaixo dos outros setores – uma impressão que não mudou nem mesmo com a vitória sobre o Brasil. Os dois anos de espera rumo à Eurocopa fizeram bem aos Bleus. Os protagonistas de 1998, mesmo os mais velhos, seguiam em frente. Enquanto isso, alguns coadjuvantes da Copa do Mundo e outros jogadores que sequer estiveram presentes no torneio evoluíram. E isso incluía uma linha ofensiva bem mais confiável, com as eclosões de Thierry Henry, David Trezeguet e Nicolas Anelka – os dois primeiros, bem jovens, deixados no banco durante a reta final de 1998.

A campanha da França nas Eliminatórias da Eurocopa não seria tão tranquila assim. Numa chave relativamente acessível, os Bleus passaram mais apuros que o esperado para assegurar a vaga. Os franceses emendaram alguns resultados ruins contra equipes pouco expressivas na época, incluindo o empate por 1 a 1 diante da Islândia na visita a Reykjavík e as magras vitórias contra a inócua seleção de Andorra. Os principais concorrentes eram Rússia e Ucrânia. Diante dos russos, a França venceu em Moscou por 3 a 2 e cedeu uma derrota pelo mesmo placar no Stade de France. Já contra a Ucrânia, em ascensão com o talento de Andriy Shevchenko, foram dois empates sem gols.

Apenas o líder do grupo se classificaria à Eurocopa, enquanto o vice-líder iria à repescagem. A Ucrânia iniciou a rodada final na liderança e, com um saldo de gols superior, a Rússia ocupava a segunda colocação. A sorte dos franceses, em terceiro, é que russos e ucranianos se enfrentariam em Moscou. Com uma vitória sobre a Islândia no Stade de France, os Bleus se garantiriam ao menos na repescagem, e um tropeço da Ucrânia ainda valeria a classificação direta dos campeões do mundo. Mas não seria tão simples assim.

O time de Roger Lemerre abriu dois gols de vantagem sobre os islandeses, mas permitiu o empate dos visitantes no início do segundo tempo. “Isso não é impossível… Não dá pra acreditar…”, exclamava o comentarista da TV francesa, sem esconder o abatimento. A 20 minutos do fim, David Trezeguet (que acabara de sair do banco) assegurou a suada vitória por 3 a 2. Já em Moscou, os gols saíram depois disso – e ajudaram. Valeri Karpin deixou a Rússia na dianteira e só no apagar das luzes é que Shevchenko buscou o empate por 1 a 1. Com a combinação dos resultados, a França iria à Euro e a Ucrânia acabou na repescagem, na qual seria despachada pela Eslovênia.

Um elenco fortíssimo

Durante os amistosos preparatórios, a França colecionou vitórias. E a convocação tratava de colocar os Bleus entre os favoritos ao título. Fabien Barthez vinha com moral e, às vésperas do torneio, assinou contrato com o Manchester United. À sua frente, a mesmíssima linha de zaga da Copa do Mundo se repetia. Lilian Thuram estava em alta no Parma, enquanto Bixent Lizarazu era o titular do Bayern de Munique. No miolo de zaga, enquanto Marcel Desailly era venerado no Chelsea, Laurent Blanc havia sido eleito o melhor jogador da temporada da Internazionale. Apesar da média de idade elevada, qualidade não era problema no setor.

Didier Deschamps encaminhava-se ao final da carreira e tinha trocado a Juventus pelo Chelsea naquela temporada, mas seguia sustentando a braçadeira de capitão no meio. Ao seu lado, os Bleus se valiam do sucesso do Arsenal e Patrick Vieira, mero reserva em 1998, conquistou a posição como titular. O camisa 4 era o ponto de equilíbrio da equipe, por vezes acompanhado também por Emmanuel Petit, seu colega em Highbury. Já a armação era imprescindivelmente uma tarefa de Zinedine Zidane, desfilando sua categoria. O craque vinha de uma temporada difícil com a Juventus, entre lesões e outros problemas. A perda do Scudetto para a Lazio na última rodada foi um golpe ainda mais duro. Mas Zizou estava disposto a dar a volta por cima.

Roger Lemerre variava suas formações ofensivas, por vezes atuando com dois atacantes e em outras escalando um tridente. Seja qual fosse a opção, quem estava ali sempre como homem de referência era Thierry Henry. O craque não tinha exibido todo o seu potencial em 1998, mas voava baixo nos meses anteriores à Eurocopa, após desembarcar no Arsenal. Quando um trio era priorizado, quem ocupava a ponta direta era Youri Djorkaeff, ainda importante na seleção mesmo depois de deixar a Internazionale e assinar com o Kaiserslautern. Já na esquerda aparecia Christophe Dugarry, um jogador mediano e que passara parte do ano lesionado com o Bordeaux, mas que agradava também Lemerre.

Nas vezes em que a França utilizava dois atacantes, o escolhido era Nicolas Anelka. O jovem explodiu depois da Copa do Mundo com a camisa do Arsenal e se transferiu ao Real Madrid. Atravessou uma temporada de altos e baixos com os merengues em 1999/00, apesar de sua contribuição na conquista da Champions. Por fim, David Trezeguet havia liderado o Monaco campeão francês e já estava em negociações com a Juventus. Era relegado ao segundo tempo dos Bleus, preterido por Anelka na maioria das vezes.

Se precisasse acionar seu banco de reservas, aliás, a França tinha outra equipe qualificadíssima para entrar em campo. Alguns campeões em 1998 seguiam à disposição de Roger Lemerre, como Bernard Lama, Christian Karembeu, Frank Leboeuf e Vicent Candela. Robert Pirès via seu futebol ascender desde a presença no Mundial, pronto a trocar o Olympique de Marseille pelo Arsenal. E, valorizados pela boa temporada com o Bordeaux, Ulrich Ramé, Sylvain Wiltord e Johan Micoud se integravam ao grupo. Wiltord, em especial, fizera uma Ligue 1 excelente e também arrumaria as malas ao Arsenal. Os três girondinos, ao lado de Anelka, haviam sido as únicas adições em relação aos 22 homens que disputaram a Copa do Mundo de 1998.

Avançando no Grupo da Morte

A fase de grupos serviria para testar o potencial daquela França. O sorteio não foi nada benevolente com os Bleus e, numa Eurocopa repleta de times fortes, não seria exagero classificar aquele como um pretenso “grupo da morte”. O cabeça de chave não era o atual campeão do mundo, e sim a Holanda, co-anfitriã da competição. A Oranje mantinha a fortíssima geração que chegara às semifinais do Mundial. A Dinamarca não tinha mais os irmãos Laudrup, mas merecia respeito após massacrar Israel na repescagem. E a República Tcheca trazia remanescentes da surpresa em 1996, quando eliminou a própria França nas semifinais. Algumas revelações de quatro anos antes não desabrocharam, mas aquela equipe incluía novos talentos. Fizeram até a melhor campanha das Eliminatórias, com 100% de aproveitamento.

A estreia da França aconteceu em Brugge, diante da Dinamarca. Os nórdicos tinham Peter Schmeichel no gol, ostentando a braçadeira de capitão, além de uma dupla de ataque com muita presença de área formada por Ebbe Sand e Jon Dahl Tomasson. Mas não foram eles que assustaram os Bleus, numa atuação para botar o pé na porta – e com toda a majestade de Zidane. A vitória por 3 a 0 dos franceses, bem mais categórica que aquele 2 a 1 apertado da fase de grupos em 1998, indicava o potencial do time na Eurocopa.

A Dinamarca até começou melhor e Fabien Barthez precisou realizar duas grandes defesas. Aos 16 minutos, contudo, o caminho se abriu aos Bleus. Blanc fez uma jogada característica, ao iniciar a saída de bola e se lançar ao ataque. A tabela com toques de primeira envolveu a defesa dinamarquesa e Anelka saiu na cara de Schmeichel. O veterano até abafou a bola, mas Blanc acompanhou o lance e marcou no rebote. Superior, a França ampliou aos 19 do segundo tempo. Henry protagonizou uma arrancada imparável pela esquerda, saindo do campo de defesa. Aproveitou a avenida aberta e só desacelerou diante de Schmeichel, com um tapa para tirar do goleiro. A conta seria fechada nos acréscimos, em linda trama. Henry enfiou, Vieira partiu e Wiltord, com Schmeichel vendido após o passe, só precisou empurrar para dentro.

A França seguiu em Brugge para o segundo compromisso, desta vez contra a República Tcheca. Os adversários haviam perdido na estreia, mas fizeram a Holanda suar, com o único gol anotado em um pênalti aos 44 do segundo tempo. Karel Poborsky e Vladimir Smicer não viraram tudo o que se apostava em 1996, mas seguiam na equipe. Muito mais intimidador era Pavel Nedved, destaque na Lazio campeã italiana. Inclusões mais recentes, Jan Koller e Tomás Rosicky reivindicavam seu espaço na seleção. Mas aquela seria uma equipe de transição entre duas Eurocopas marcantes aos tchecos. Melhor aos franceses, que logo carimbariam a classificação antecipada com a vitória por 2 a 1, orquestrados pela magia de Zizou.

De novo, Barthez começou mais exigido. Mas um passe inexplicável de Petr Gabriel deixou Henry com o caminho aberto à sua frente e ele só precisou tirar do goleiro Pavel Smicek para abrir o placar, aos sete minutos. A República Tcheca reagiu ainda no primeiro tempo, quando uma falta fora da área virou pênalti segundo o assistente. Poborsky converteu no meio do gol. Já no segundo tempo, depois de mais uma defesa salvadora de Barthez contra Nedved, a vitória se concretizou aos 15 minutos. Henry assinou a jogada pela esquerda e tocou para Djorkaeff, que mandou a bomba no cantinho. No fim, alívio dos franceses, que ainda viram Koller cabecear uma bola contra o travessão.

Com a vitória da Holanda sobre a Dinamarca, que também a classificou, a definição do líder do Grupo D ficou para a última rodada. A visita dos franceses à Amsterdam Arena guardava uma Oranje praticamente completa, com uma constelação entre os titulares escalados pelo técnico Frank Rijkaard: Dennis Bergkamp, Patrick Kluivert, Edgar Davids, Frank de Boer e Jaap Stam, para ficar em alguns. A França, por sua vez, indicou que não se importava tanto com a primeira colocação, preferindo poupar peças. Desailly e Vieira foram os únicos titulares mantidos em relação aos dois jogos anteriores. E o expressinho dos Bleus mostrou que dava um caldo, vendendo caro a derrota por 3 a 2.

A França saiu em vantagem aos oito minutos, com um gol de cabeça anotado por Dugarry, aproveitando a péssima saída do goleiro Sander Westerveld no escanteio. Kluivert empatou na sequência com um míssil cruzado e quase Bergkamp virou, carimbando o travessão. Mas os Bleus puderam retomar a vantagem aos 31, num chute de Wiltord que Trezeguet desviou conscientemente no meio do caminho. Foi apenas no segundo tempo que os holandeses buscaram a vitória. Frank de Boer mandou um chutaço cobrando falta, quando Lama ainda armava sua barreira, e Boudewijn Zenden virou, explorando um rombo na zaga.

O golaço de Zizou

A Holanda avançou na primeira colocação, relegando a França ao segundo posto. E aquela Eurocopa seria repleta de grandes jogos desde o princípio. No Grupo A, Portugal e Romênia foram capazes de eliminar as favoritas da chave, Inglaterra e Alemanha. Os portugueses enfiaram um 3 a 0 sobre os alemães, enquanto os ingleses tomaram duas viradas por 3 a 2 contra os classificados. No Grupo B, enquanto a Itália sobrava, a Turquia surpreendeu ao despachar a anfitriã Bélgica com uma vitória na última rodada. Já o Grupo C seria o mais equilibrado. A Espanha esteve a um triz da eliminação, mas ressurgiu das cinzas ao bater a Iugoslávia por 4 a 3 na terceira rodada, com os dois últimos gols depois dos 49 do segundo tempo. Os iugoslavos, ao menos, avançaram nos critérios de desempate, após se igualarem na tabela com a Noruega.

Justamente a Espanha seria a adversária da França nas quartas de final, em Brugge. Mesmo passando na bacia das almas, o time de José Antonio Camacho tinha seus predicados. Não era a versão mais forte da Fúria naqueles anos, mas merecia respeito com Raúl, Gaizka Mendieta, Pep Guardiola, Abelardo e Santiago Cañizares formando a espinha dorsal. E os espanhóis dariam um bocado de trabalho, com a derrota por 2 a 1 quase escapando pelos dedos dos Bleus nos minutos finais. Raúl desperdiçou um pênalti que forçaria a prorrogação.

O duelo entre Raúl e Barthez começou logo cedo, quando o atacante tentou encobrir o goleiro da intermediária e o camisa 16 realizou uma defesa acrobática. A Espanha era superior durante os primeiros minutos, até que o verdadeiro personagem daquela noite passasse a distribuir as cartas: Zidane. O camisa 10 estava num de seus dias inspirados, entre os domínios surreais, os dribles enfileirando oponentes e os passes que abriam clarões. Já aos 32 minutos, Zizou faria a diferença, com um golaço de falta para abrir o placar. A bola cheia de curva saiu do alcance de Cañizares, que saltou em vão, e morreu no alto da meta.

A Espanha teve a oportunidade de empatar aos 38, num pênalti flagrante de Thuram sobre Pedro Munitis, que Mendieta converteu. Mas o segundo gol dos Bleus ocorreu antes do intervalo, a partir de uma arrancada de Vieira pelo meio. Ninguém conseguiu parar o volante, que abriu com Djorkaeff na direita. O ponta estava livre e encheu o pé, no alto, aproveitando o canto aberto de Cañizares.

O segundo tempo teria a iniciativa da Espanha, que tentou pressionar a França. A Fúria apostava nos cruzamentos de Pep Guardiola e os Bleus se safavam. Vieira se agigantava na cabeça de área, enquanto Desailly bloquearia uma bola na pequena área, com Barthez já batido. E o empate espanhol quase surgiu numa bobeira imensa dos franceses. Thuram recuou uma bola de cabeça e, para não deixar que a pelota saísse, Barthez se desdobrou. Nisso, deixou o presente nos pés do capitão Abelardo e realizou o pênalti na linha de fundo. Raúl pegou a bola e mirou o ângulo, mas exagerou na força e mandou por cima do travessão. O erro, já aos 45 minutos, permitiu a classificação dos oponentes.

Zidane eterno

Assim como em 1984, Portugal pintou no caminho da França durante as semifinais. A Seleção das Quinas havia batido a Turquia na fase anterior e carregava certa badalação após os triunfos sobre Inglaterra e Alemanha em seu grupo, apresentando um futebol vistoso. Vítor Baía, Fernando Couto e Costinha davam a sustentação defensiva. As atenções, de qualquer forma, se concentravam no quarteto de frente. Rui Costa centralizava a armação, com Sérgio Conceição pela direita e Luís Figo na esquerda. Já na frente, os gols de Nuno Gomes. Era uma ocasião particularmente especial a Figo, prestes a se tornar o jogador mais caro do mundo, na polêmica transação entre Barcelona e Real Madrid. Gastava a bola na época.

A França não faria uma atuação unânime contra Portugal, mas venceria em Bruxelas por 2 a 1. E aquele triunfo entra na conta especialmente de Zidane. O camisa 10 ofereceu uma exibição ainda mais fantástica que a anterior. A noite de gala contra os portugueses representa, para a Eurocopa, o que aprontaria Zizou contra o Brasil em 2006. O craque apresentou seu repertório completo, dos elegantes dribles a um sem fim de toques magistrais. Vestiu o smooking de maestro, fazendo os adversários orbitarem ao seu redor. Mas isso não significou um domínio tão claro dos franceses no confronto.

Portugal saiu em vantagem na partida, com um gol aos 19 minutos. A bola espirrada de Sérgio Conceição chegou a Nuno Gomes na entrada da área e o atacante foi ousado ao arriscar o chute de primeira, girando o corpo. Teve uma felicidade imensa ao acertar o canto de Barthez, que sequer se mexeu. Não foi um bom primeiro tempo da França, que contava com a velocidade de Henry e Anelka na frente, mas poucas tabelas entre os dois. Isso mudou na etapa complementar, com o empate aos seis minutos. Thuram acionou Anelka pela direita e o atacante protegeu bem a bola, antes de passar a Henry. O artilheiro, então, dominou e bateu rasteiro. O tiro traiçoeiro passou por entre as pernas de Fernando Couto e entrou no canto.

Quem esperava um duelo particular entre Figo e Zidane se frustrou. O lusitano pouco apareceu na partida, superado duplamente por Thuram, que o marcava bem e também exigia bastante do meia na contenção. A França poderia ter virado o jogo ainda no tempo normal e invadia a área com frequência, mas demorava a finalizar. Quando Petit acertou um chute com endereço certo de fora da área, Vítor Baía desviou com a ponta dos dedos. Mas Barthez também seria vital do outro lado, nos últimos instantes. Abel Xavier desviou de cabeça uma cobrança de falta e o goleiro operou uma defesa magnífica.

A prorrogação teria uma dose boa de correria, com a França aproveitando as entradas de Wiltord, Pirès e Trezeguet. Quem marcasse vencia imediatamente, afinal. O gol de ouro quase saiu a Portugal, num chute de João Pintou que passou muito próximo da trave. Ainda assim, os Bleus davam mais trabalho e teriam sua vez aos nove minutos do segundo tempo extra. Vítor Baía brecou Trezeguet dentro da área, mas Wiltord chutou a sobra quase sem ângulo e Abel Xavier desviou a bola com a mão. O assistente flagrou e o pênalti foi marcado. Os lusitanos se revoltaram, a ponto de Figo quase deixar o campo. Nada que desconcentrasse Zidane, batendo no ângulo e mandando os franceses à decisão.

A épica decisão em Roterdã

Apesar do favoritismo da anfitriã Holanda na semifinal, a adversária da França na decisão seria a Itália. A Azzurra venceu a Oranje nos pênaltis, para tentar buscar o título que não vinha desde 1968. E o time treinado por Dino Zoff possuía diversos grandes jogadores, fazendo por merecer o cuidado. Apesar da ausência de Gianluigi Buffon, que quebrara a mão às vésperas do torneio, Francesco Toldo era um baita goleiro. A defesa reunia lendas do porte de Paolo Maldini, Alessandro Nesta e Fabio Cannavaro. Demetrio Albertini e Luigi Di Biagio davam consistência pelo meio. Já na frente, o leque de opções incluía Francesco Totti, Marco Delvecchio, Alessandro Del Piero e Filippo Inzaghi.

Para a final em Roterdã, a França precisou se virar sem Petit. O meio-campista havia se lesionado ainda na fase de grupos e, mesmo de volta contra Portugal, voltou a ser desfalque. Assim, Roger Lemerre repetiu a formação utilizada contra a Espanha, com seu 4-2-3-1: Barthez, Thuram, Desailly, Blanc, Lizarazu; Deschamps, Vieira; Djorkaeff, Zidane, Dugarry; Henry. Seria uma reedição das quartas de final de 1998, em que o duelo aberto apesar do placar zerado resultou na classificação dos Bleus nos pênaltis.

A trocação durante os primeiros minutos no Estádio De Kuip seria franca. As duas equipes tentavam abrir o placar logo cedo, com ataques rápidos e diretos. Henry esteve perto do tento ao arriscar um chute muito difícil da lateral da área, em bola que bateu na trave enquanto Toldo protegia sua meta. Depois de 15 minutos mais intensos, o embate ficaria mais travado, com a Itália se dando melhor na marcação. Mesmo assim, Djorkaeff poderia ter feito a diferença, ao dominar dentro da área e chutar. Só que o tiro veio fraco, nas mãos de Toldo.

A Itália voltaria com mais gás ao segundo tempo e a entrada de Del Piero animou a equipe, que sairia em vantagem aos dez minutos. Totti iluminou o lance com um toque magistral de calcanhar, para habilitar Gianluca Pessotto na direita. O lateral cruzou e Delvecchio escapou da marcação de Desailly para concluir na pequena área. Com os Bleus se mandando à frente, a envelhecida defesa francesa ficava mais exposta e a Azzurra aproveitava para jogar nas costas da marcação. Poderia ter ampliado a diferença nos minutos seguintes, mas Del Piero perdeu uma chance clamorosa ao bater mal e Delvecchio também perdoou com um chute para fora.

A França precisava abafar e, com isso, acionou o seu banco. Wiltord e Trezeguet deram mais vigor ao ataque. Só que os Bleus tinham dificuldades para superar o trio de zaga italiano. Os principais lances vinham na esquerda com Henry, o melhor francês naquela noite, mas em chutes fechados que Toldo neutralizava. Nem mesmo Zidane, aumentando sua influência com o passar dos minutos, era suficiente diante da marcação cerrada de Albertini. E se a Itália não tinha selado a vitória, Del Piero carregava sua parcela de culpa. Já aos 41, em mais um passe açucarado dentro da área, o camisa 10 chutou em cima de Barthez, que salvou com o pé.

O desespero batia na França, a ponto de Roger Lemerre colocar Pires no lugar de Lizarazu como lateral. Trezeguet veria Toldo pegar no canto um chute perigoso, em lance anulado por falta. E quando os italianos esfregavam as mãos para comemorar, o agonizante empate reavivou os Bleus. O gol se deu aos 48 do segundo tempo, no terceiro dos quatro minutos de acréscimos. Barthez rifou a bola ao ataque, Trezeguet deu uma casquinha e Cannavaro não desviou o suficiente. A sobra veio limpa para Wiltord, explorando outra vez o corredor pela esquerda. Dominou no peito e bateu rasteiro, em chute que passou por entre as pernas de Nesta e por baixo da mão de Toldo.

A França entrava na prorrogação vivíssima. E, sem dúvidas, o gol tardio baqueou a Itália. Os Bleus mantiveram sua postura bem mais agressiva, ameaçando Toldo. E o gol de ouro, de taça, nem demoraria tanto a vir. Aos 13 minutos, um passe errado permitiu que Pirès roubasse a bola já em ótima posição. O camisa 11 passou por Albertini e Cannavaro, antes de chegar à linha de fundo na esquerda. Cruzou para Trezeguet na área e o centroavante pegou na veia, em chutaço que entrou no alto da meta. Toldo nem saiu na foto. O lance que encerrou a final e coroou os Bleus como novos donos da Europa.

Zidane seria eleito o melhor jogador da Euro 2000, com toda justiça, enquanto a França emplacou outros seis atletas na seleção de 22 destaques do torneio: Barthez, Thuram, Desailly, Blanc, Vieira e Henry. Repetindo o que apenas a Alemanha Ocidental havia feito em 1972 e 1974, em ordem inversa, os Bleus unificavam os títulos europeu e mundial. Era o ápice de uma geração que ainda continuaria rendendo muito bem, em grande forma nos amistosos do biênio posterior e também na Copa das Confederações de 2001.

O sucesso da França, porém, também culminaria em seu fracasso. Deschamps e Blanc se aposentaram, mas o apego aos medalhões fez com que os Bleus mantivessem um time ainda mais envelhecido para a Copa de 2002. Para piorar, Zidane estava lesionado e a decepção no Mundial começou logo na estreia contra Senegal. Os campeões cairiam na fase de grupos, sem vencer e na lanterna. Também com uma campanha modesta na Euro 2004, eliminados pela Grécia nas quartas de final, os Bleus se reergueriam na Copa de 2006. Viveram a grande despedida internacional de Zidane, à altura do que havia ocorrido seis anos antes. Só não viram Trezeguet ser tão feliz em seu chute, com a Itália triunfando em sua revanche na decisão em Berlim.