É muito comum ouvirmos no Brasil que o ano só começa depois do Carnaval. Quando se trata do futebol brasileiro, o Carnaval são os estaduais. Chegamos ao fim do mês de abril e, finalmente, temos o Campeonato Brasileiro para desfrutar. Foram 33 gols nos 10 jogos, uma ótima média, com oito vitórias dos mandantes e duas dos visitantes. Tivemos dois jogaços nessa primeira rodada, com Flamengo e Cruzeiro no Maracanã e Grêmio e Santos em Porto Alegre. A sensação depois dessa primeira rodada é: por que diabos demoramos tanto para chegar neste momento?

Em um mesmo fim de semana vimos vários duelos interessantes, times importantes, com história se camisas que contam uma trajetória muito mais atraente do que o que vemos nos estaduais. São duelos muito mais atraentes, como os dois times de massa Bahia x Corinthians se enfrentando em Salvador. Um jogo mais atraente que a maioria dos jogos que vimos até aqui. E nem passou perto de ser o melhor jogo da rodada.

Os estaduais são um problema em diversos aspectos, mas a maior sensação é que perdemos tempo. São quatro meses de muitos jogos mais ou menos, mais para menos do que para mais, e alguns poucos jogos que terminam em clássicos, na maioria das vezes. Talvez isso mascare um pouco a falta de qualidade dos jogos e o período que é problemático em todos os aspectos. Jogos de menos para quem precisa de mais, como os times do interior; jogos de mais para quem precisa de menos.

Os amados estaduais, em sua grande maioria, já terminaram. Os jogadores que não se arranjam em outras divisões acabam ficando pelo caminho, tendo por vezes que trabalhar em outras profissões. O calendário de times que jogam as primeiras divisões do Campeonato Brasileiro acaba ficando inchado com jogos de estaduais, que jogam contra times de nível claramente mais baixo. Enquanto isso, os times de nível mais baixo jogam poucos jogos no ano e ficam longos intervalos sem jogos.

Como exemplo, a Ferroviária, clube que fez uma boa campanha no Paulista, jogou a sua última partida no dia 27 de março, quando empatou com o Corinthians na Arena Corinthians e acabou eliminado nos pênaltis. A equipe só volta a campo no dia 5 de maio, quando enfrenta o Joinville, pela Série D. Mais de um mês com o time parado. Mas esses nem são os piores casos. O Mirassol, por exemplo, jogou pela última vez no dia 8 de abril. Voltará a campo apenas no dia 23 de junho, quando joga pela Copa Paulista contra a Ferroviária. Ou seja, o time fica quase dois meses sem entrar em campo.

O Brasileirão começou nos dando uma ótima sensações, com ótimos jogos, bons duelos, testes de verdade para os times. Poderia ter acontecido em março, no começo do ano, liberando muito mais datas para um calendário mais racional, com menos jogos no geral para os times da Série A e B, mais jogos para os times que jogam apenas os estaduais.

O Campeonato Brasileiro é algo com um potencial imenso. E não só a Série A. As séries B, C e D poderiam ser campeonatos ainda melhores, se fossem melhor tratados. Até porque temos muitos, mas muitos times com camisas pesadas, tradição e, principalmente, torcida. Há muitas Ferroviárias pelo Brasil. Muitos times ávidos por ter calendário anual, com jogos para manter uma relação com a sua torcida. Não para jogar o estadual, depois ficar mais de um mês sem jogar e só voltar para a Copa estadual, que pode ser um tiro curto até que seja encerrado precocemente o ano. Como um time com um calendário assim se mantém? É impossível. É preciso que eles tenham um calendário com jogos regionais, uma divisão nacional, com calendário até o fim do ano e jogos entre si.

O que vimos no Campeonato Brasileiro deste fim de semana nos permite pensar que com um pouco mais de cuidado, poderia ser um dos melhores do mundo. A distância hoje é muito grande para ligas grandes da Europa, porque por lá existe mais organização. Aqui, a única coisa que sobra é potencial.

Aqui ainda temos uma venda de direitos de transmissão que é individual, o que é, no mínimo, bastante estúpido pensando na valorização do próprio campeonato, do clube e também do negócio. Parece que estamos repetindo há décadas que o Brasil é desorganizado, que não temos sequer uma liga, que precisamos melhorar o nosso calendário para não jogar em datas Fifa na Série A, de estender o número de jogos para os times que atuam em estaduais…

Quando vemos os jogos do Campeonato Brasileiro, que empolgam porque oferecem tão mais do que o que vimos até aqui, ficamos com uma prévia do quanto somos enrolados. Seria como jogar fora os quatro primeiros meses do ano e depois apertar um calendário enorme para caber nos outros oito – e em anos que temos Copa do Mundo ou Copa América, como 2019, o Brasileirão ainda tem que parar por um mês, espremendo ainda mais o calendário.

Depois de quatro meses de dieta baseada em jogos de estaduais, ah, como é bom ter o Brasileirão de volta!