A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no redacao@trivela.com. Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas.

Por Jaiane Valentim

Sobre preconceito

Durante boa parte da minha vida, principalmente na infância, ouvi de pessoas próximas e, em sua maioria de estranhos, que eu não era uma menina normal. Tudo porque eu gostava de jogar futebol com os meninos na rua. Mas o que ninguém sabia era que eu tinha minhas bonecas e ninguém via quando eu montava minha casinha em cima da cama dos meus pais e vestia a Barbie e o Ken para encenar seu casamento.

Claro, a fama se fez na rua. Para os vizinhos eu era um moleque: além de aspirante fracassada a jogadora de futebol, subia nas árvores da rua sem saída onde moro até hoje. A fama “ruim” não cessava nem mesmo quando eu pulava corda ou jogava vôlei com outras meninas. Eu não brincava “de coisas de menina” para que as pessoas parassem de ter uma impressão “errada” minha, mas porque eu gostava de brincar disso tanto quanto eu gostava do futebol. A diferença é que eu era infinitamente melhor com a bola nos pés.

Foi difícil achar uma escolinha de futebol com uma turma de meninas. Como a demanda é pequena, na única que encontrei tinham meninas de todas as idades e muito maiores que eu. Eu devia ter lá os meus 12 anos quando acordava cedo todos os sábados e ia até a escolinha do Corinthians, “Chute Inicial”, na divisa de Diadema com São Bernardo do Campo. Meus pais me levavam. Eu voltava a pé e nem ligava para a distância porque pós-treino a adrenalina estava lá em cima.

Voltava de chuteira e meião mesmo. Caneleira em uma das mãos, na outra uma garrafinha d’água. Lembro que em um sábado qualquer um homem passou por mim, mas, antes, fez questão de se aproximar e disse: você parece um homem, sabia? E seguiu andando. Fiquei chateada. Eu era uma criança ainda e não consegui esboçar um xingamento que fosse ou ignorar completamente. Aquilo ficou na minha cabeça um bom tempo. Os vizinhos lá da rua me chamavam de “maria macho”, “sapatão” e, embora aquelas palavras daquele desconhecido tivessem o mesmo sentido que essas alcunhas, aquele homem fez um pequeno estrago em uma cabeça que ainda estava em desenvolvimento.

Afinal, eu não entendia por que não podia jogar futebol. Por que era errado. Por que eu não podia vestir a minha chuteira. Eu gostava tanto dela. Gostava do calção e da camisa também. Meu cabelo não era liso. Minhas unhas não eram grandes. Não tinha um corpão, com seios e bumbum grandes. Mas dentro de mim eu tinha minha opção sexual definida. Gostava de garotos. Era isso que eles insinuavam né? Que por eu gostar de futebol iria me relacionar com mulheres?

Sobre vaidade

Corta para 2015. Com o perdão da piada infame, “eu cresci e agora sou mulher”. Ainda não tenho um corpão, mas não ligo para os padrões de beleza que a mídia e consequentemente a sociedade impõem. Gosto de fazer exercício – até jogar bola, quando possível – porque me deixa mais disposta. Porque me faz bem. Não porque estou obcecada por emagrecer ou preciso disso para o “projeto verão”.

Muita coisa mudou nos últimos dez anos. Eu amo futebol. Vejo todos os jogos. De todas as divisões, se possível. Todos os campeonatos. Eu sabia que seguir a carreira de futebol não seria possível e, para falar a verdade, nunca me esforcei para tal. Sinceramente? Não sou frustrada. Hoje tenho meu dinheiro e posso comprar o que quiser – ok, não o que quiser porque o dinheiro é curto. Gosto de vestidos, de shortinhos, de calças jeans e saias. Gosto de batom e também de salto alto. Faço a unha e a sobrancelha duas vezes por mês e uma escova progressiva quando sobra um dinheirinho. Preciso confessar que gosto dos meus cachos, hoje mais comportados com o uso de secador e cremes. Quando eu era criança, não tinha dinheiro para isso. Hoje vejo que têm umas mães que adoram levar as filhas ao salão. Minha mãe me levava ao salão para cortar o cabelo e só.

Ah! Eu sentia muita falta de ter uma camisa oficial do Corinthians. Quando comecei a trabalhar, com 16 anos, meu salário era de R$300. O que eu fiz com meu primeiro salário? Comprei uma camisa do Corinthians. Guardo com o maior carinho do mundo. Hoje está toda autografada e é um dos meus tesouros. Mesmo!

Eu não deixo de comprar minhas coisas, mas gosto de colecionar camisas de futebol. Tenho várias. Costumo personalizar com meu apelido, “Jah”. Eu gosto. Mas em parte é ruim porque tem uns homens que me chamam na rua. No automático viro, mas ignoro porque é só mais um querendo chamar minha atenção.

Outro dia saí com uma meia calça-preta, shortinho, bota e camisa do Corinthians. Ao caminhar na rua, não pude deixar de notar os olhares dos homens, me medindo e acompanhando com o olhar enquanto eu andava (não é porque a mulher ignora que ela não percebe). Agora sou adulta e sei me comportar em uma situação como essa, diante de homens desrespeitosos. Preconceituosos outrora, desrespeitosos agora. Ciclo vicioso.

Ainda me pergunto: por que agora “posso” usar camisa de futebol e não ser tachada de homossexual? Por que estou com o cabelo escovado e as unhas feitas? Por que estou com roupas curtas e que “despertam o desejo sexual” dos homens? A vaidade…

Estereótipo é uma coisa muito engraçada mesmo, não é?

A aparência física tem um papel primordial na formação e no desenvolvimento dos estereótipos, dado que é a forma mais simples de distinguir e homogeneizar os membros do grupo-alvo (Zebrowitz, 1996). As aparências não remetem unicamente às características objetivas de um indivíduo classificado dentro de uma categoria; elas dependem, igualmente, do status socioeconômico real ou suposto e da situação de interação. Cunin (2003) afirma que a cor da pele, mais do que uma atributo objetivo inerente aos indivíduos pode ser percebida como um produto da interação e um vetor de classificação social do outro.

O estereótipo acaba caindo no preconceito. Está atrelado. Um não existe sem o outro. E para “provar” que somos, sim, preconceituosos – muitas vezes irracionalmente preconceituosos -, deixo aqui um trabalho do fotógrafo norte-americano Joel Parés. Para discutir os preconceitos impregnados na sociedade, Parés criou a série “Judging America”, na qual ele compara duas imagens de uma mesma pessoa. Na primeira, mostra-se os estereótipos atribuídos a ela e, na segunda, é revelada sua verdadeira identidade e personalidade.

A minha montagem não faz parte do ensaio, mas

Sobre feminismo

Muita gente sempre me “aconselhou” a não ligar quando eu era ofendida quando jogava futebol. Há quem acredite que quem fica remoendo lembranças ruins é porque “não quer esquecer”. Como se fosse fácil esquecer algo que pode ter mudado a sua vida. A gente escolhe se vai mudar para o bem ou para o mal. Eu escolhi não esquecer para me lembrar que não sou obrigada a agradar ninguém, nem na forma como penso ou me visto ou do que gosto.

“Feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou cercear sua liberdade sexual. Ninguém vai confiscar sua carteirinha de feminista se você usar rímel. Mas te abre para a possibilidade de só usar maquiagem quando quiser, não porque tem que obrigatoriamente estar impecável e linda todos os dias a enfeitar o mundo.

Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. É claro que existem feministas que não os toleram, mas até aí, existem mulheres que não são feministas e também odeiam homens, né? E você não é obrigada a ser uma delas.

Feminismo não tem nada a ver com esconder o corpo; muito pelo contrário, exigimos o direito de andar com a roupa que bem entendermos sem assédio ou constrangimentos. Taí a Marcha das Vadias que não me deixa mentir.

Feminismo não tem nada a ver com não ter filhos, e sim com a escolha de como e quando esses filhos virão, e se virão”.

A definição acima é do ótimo texto de Clara Averbuck, publicado em 2013, na Carta Capital, “Feminismo para leigos”.

Eu estou de acordo com tudo. Se isso me faz feminista, pois bem, sou! Tenho liberdade. Liberdade, taí: dizem que nosso país é um país de pessoas livres que podem “ir e vir”, segundo a Constituição, não é mesmo? Eu sou livre. Você também é. Todo mundo é.

E depois de tudo isso sabe qual é o balanço que eu faço? Que tudo que eu fiz na minha vida, as escolhas, a forma como penso e como me visto etc, todas essas opções foram feitas porque eu quis. Ninguém interfere na minha vida.

E sobre o futebol: às vezes a gente não escolhe gostar tanto de uma coisa. Primeiro, a gente simpatiza e, depois desse flerte, a gente continua no namoro. O futebol me ensinou muita coisa, mas a principal delas é que devemos respeitar a todos, não diferenciando brancos e negros, pobres e ricos. Muito menos julgar alguém por aquilo que veste ou gosta. A mais importante é que as mulheres devem lutar pela igualdade em todos os campos que desejam atuar.

Para finalizar, cito Albert Eistein: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.