A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. A Trivela resolveu participar e convidamos as meninas do Dibradoras, companheiras que falam de futebol. Serão oito textos, um de cada integrante do site. Queremos que não seja uma ação isolada. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no redacao@trivela.com. Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas. 

Por Angélica Souza*

Quando a Trivela convidou a dibradora aqui para participar da campanha #AgoraÉQueSãoElas, aceitei de primeira e comecei a pensar no que escrever. Como usar esse espaço para realmente dar mais voz à mulher em todos os cantinhos da nossa sociedade.

Aqui, no caso, o canto da sociedade é o futebol, amado e jogado por muitos. E muitas, sim. Durante a reflexão sobre o papel da mulher no futebol, me veio à cabeça, uma daquelas lembranças bem distantes, da primeira infância. Eu, na rua da Vila Ré, querendo jogar bola com os meninos. Ali, na rua de paralelepípedo, em que dei início aos meus passos e passes, ouvi pela primeira vez a frase que, infelizmente, com outras palavras, mas com o mesmo significado, ouço até hoje no “meio do futebol”: Você fica no gol. 

LEIA TAMBÉM: #AgoraÉQueSãoElas: Era para ser só festa

Depois você cresce e continua querendo jogar e só tem os meninos, mas não é mais no gol que você fica, pode ser lá na frente, no ataque. Atrapalha menos, né?! As palavras de ordem mudam, mas a mensagem é a mesma lá das crianças da rua: o meninos sabem jogar, o futebol é deles, mas se quiser pode participar, discretamente, mas pode.

Essa condição de personagem-coadjuvante extrapola a quadra em que a menina quer jogar bolar por diversão, segue com ela durante toda sua vida e carreira.

Eu escolhi trabalhar com futebol e, claro, 90% dos meus colegas são homens. Nas coberturas, nas coletivas, nos treinos dos times e Seleção.

Eu acho que não escolhi amar o futebol, mas amo o futebol e em qualquer coisa que envolve futebol, lá estão eles, os homens em esmagadora maioria.

As mulheres são mais da metade da população brasileira, mas mesmo assim, somos minoria, com pouca representatividade nos clubes, nas arquibancadas e nas salas de imprensa.

É interessante tenta encontrar uma explicação além do óbvio: da condição inferior que foi estabelecida à mulher desde sempre. Ela estava ali para servir, para ajudar o homem a brilhar. Ele era o mestre, o astro, o papel da mulher é cuidar para que nada dê errado com ele.

Vocês já repararam que nas Olimpíadas as últimas finais são sempre das equipes masculinas? Eles têm – por regra  – o maior e melhor momento das competições, de fecharem como campeões. Por quê? Ora, porque sempre foi assim, ué. Eles são mais importantes, claro, são os protagonistas do esporte. As mulheres podem ter menos destaque, afinal, elas não são para isso… Mas podemos dar esse espacinho aqui por pura generosidade. E esse padrão estabelecido é reproduzido em qualquer competição que tenha homens e mulheres: De Grand Slams a Jogos Universitários.

NO GIZMODO: Camila Achutti, cientista da computação, conta como é ser mulher na tecnologia

O que quero dizer é: que talvez eu queira jogar no gol mesmo e não na linha, mas eu quero e posso escolher em que posição jogar. Não só na quadra lá do meu prédio, mas na minha vida e na minha carreira.

Eu quero poder opinar tática, técnica e não me sinto representada pela moça que lê e-mails no banquinho, no cantinho do estúdio.

Nós, meninas amantes do futebol, podemos muito mais e queremos sim, ser protagonistas para jogar, falar e viver o futebol.

De igual para igual.

Queremos um mundo que não precise de uma campanha #agoraéquesãoelas para nos dar voz!

Para mim, pode mandar a 10. Eu dou conta.

*Angélica Souza. Dibradora, boleira e palmeirense.