A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. A Trivela resolveu participar e convidamos as meninas do Dibradoras, companheiras que falam de futebol. Serão oito textos, um de cada integrante do site. Queremos que não seja uma ação isolada. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no redacao@trivela.com. Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas. 

Por Maiara Beckrich*

Desde que aprendi a andar, jogo futebol. Meu pai quase se tornou jogador profissional de futebol na Bolívia antes de minha avó impedi-lo de seguir em carreira tão instável (ainda mais lá ). Sinto que, como a minha sexualidade, o futebol nasceu em quando dei meu primeiro suspiro de vida.

Quando pequena, acompanhava meu pai nos seus sagrados encontros futebolísticos de domingo, regados a muita cerveja pós-jogo, e em um ambiente em que habitavam pouquíssimas mulheres. Eu era a única filha mulher que acompanhava o pai. Ficava, tímida, à beira da quadra, aprendendo a fazer embaixadinhas já que não podia jogar com os adultos (no que me tornei muito boa, modéstia à parte).

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Nos intervalos dos jogos, lá ia eu, com os olhos brilhando, dar meia dúzia de chutes com meu pai e seus amigos. Aquilo era a glória. Ainda mais quando ouvia os ‘elogios’ dos amigos do meu pai dizendo que ‘chutava mais forte que muito menino’, sempre deixando implícita a idéia de que ‘até que eu era boa para uma menina’.

Usava roupas largas e tênis já que desde sempre me recusei a entrar no molde do que era considerado feminino. Com o tempo, conforme havia calcado meu lugar naquele espaço comecei a ser tratada como um dos meninos nesse binarismo perverso que não dá espaço para nada além da dicotomia masculino=homem=inserção /feminino=mulher=exclusão. Essa inserção, de certa forma isso me dava segurança.

Hoje jogando com as mulheres, vejo o quanto o nosso jogo é espetaculizado pelos homens, que não raras vezes, ficam postados em grupos nas grades da quadra dirigindo-se a nós mulheres com o maior dos desdéns e/ou mais pura objetificação. Acham que podem comentar sobre a nossa beleza (ou falta dela, segundo os padrões estéticos nada flexíveis que nos cercam), nossa falta de habilidade ou uma condescendente afirmação do nosso talento (de novo ‘até que somos boas para meninas’).

Resistamos dia-a-dia e nunca abaixemos a cabeça, mulheres. Cada vez que uma menina põe uma bola em baixo do braço e não se submete à idéia escandalosa de que futebol é coisa de homem, ela se rebela contra essa lógica opressora, mesmo sem se dar conta disso. Nossa presença nos campos é resistência. E não vão nos esconder nunca mais.

*Cientista social, indígena de descendência boliviana, feminista e corinthiana. Desconstruindo e resignificando nas rodas de militância, quadras e mesas de bar.